Nos jogos interclasses do CEF 306 Norte, impera o respeito e a coletividade

Semana dedicada ao esporte visa desenvolver habilidades motoras, cognitivas e sociais das crianças e adolescentes, afirmam professores

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 25/08/2017 21:55 / atualizado em 25/08/2017 23:28

 

 

Os alunos do Centro de Ensino Fundamental 306 (CEF 306 Norte) da Asa Norte trocaram, durante essa semana, as tradicionais aulas de matemática, português e ciências por outra atividade de igual importância. A escola está celebrando a quarta edição dos seus jogos interclasses. Sempre muito esperado pelos jovens, o evento não só proporciona a oportunidade da prática desportiva, mas também desenvolve valores cívicos, aptidões físicas e a capacidade cognitiva dos estudantes.


“Está previsto no calendário a Semana de educação para a vida, que ocorre em agosto e, na programação, espera-se que as escolas trabalhem alguns eixos transversais contidos no currículo. A partir dessa ideia, esperamos aliar  competitividade e cooperação. Queremos ensiná-los a lidar com o sentimento de derrota tanto quanto com o de vitória”, comenta Pedro Seabra, o vice-diretor da escola, que compõe a rede pública de ensino do Distrito Federal.


As opções de modalidades oferecidas são atletismo, futsal, queimada, tênis de mesa e xadrez. Ao final do campeonato, os estudantes são premiados com medalhas de bronze, prata e ouro. “São recompensas simples que servem de estímulo, mas o que eles ganham mesmo é a formação a mais que nós damos. O esporte tem muito a formar, muito a fornecer no processo”, explica o professor de educação física André Miranda, pós-graduado em educação física pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).

União nas quadras, interação nas aulas
Para o professor de artes, Wanderson de Souza, esse momento em que as turmas se unem para um propósito comum, mais tarde pode transformar até a interação dos meninos durante as aulas. “Os alunos interagem enquanto equipe, daqui pra frente. Desse modo, fica muito mais fácil lidar com as relações na sala de aula e, consequentemente, com o aprendizado. Facilita ao professor ensinar a partir desse envolvimento entre eles mesmos, na cooperação em grupo”.


Marília Pereira, psicóloga clínica e analista transacional, vê como fundamental a prática desportiva dentro das escolas. Ela cita alguns dos benefícios que a prática dos esportes proporciona. “É importante por várias questões: em razão do desenvolvimento físico, da coordenação motora, da noção de espaço físico e corporal”, enumera ela. “É possível trabalhar ainda a cognição porque, na medida em que a criança observa o que ela tem que fazer no jogo, entende também a dinâmica do exercício, raciocina isso de modo lógico e objetivo.”

 

 


Segundo a psicóloga, transmitir estratégias às outras crianças e engajá-las no esporte são processos também importantespara o desenvolvimento da cognição. Entretanto, os esportes solo ou contra apenas um adversário são igualmente importantes. “Se é uma atividade física individual, ou bipessoal, tbm requer essas mesmas dinâmicas. Ela precisa calcular, pensar, medir o que vai fazer, observar, pensar em si e no outro.”

Medalhista dentro e fora de campo
Marcos Paulo, 12 anos, está no 7º ano e compete nas modalidades atletismo, escalada, futsal, xadrez e tênis de mesa. Nesta, a preferida, ganhou medalha de prata. No xadrez, de ouro. Conta que aprendeu o jogo de tabuleiro com outros alunos. “Pedi para os colegas de escola me ensinaram a jogar e deu certo”. Marcos é medalhista também fora do esporte. No último ano, foi um dos medalhistas de bronze em nível nacional nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática. Como se dá bem fazendo contas, diz que não pensa em se aprofundar nos esportes. “Eu gosto muito de praticar, fora daqui ando de skate, mas quero mesmo é estudar para ser engenheiro.”

 

Confira a página do facebook


“Nesse ano, ele foi classificado novamente para as etapas finais da Olimpíadas Brasileiras de Matemática. Além disso, foi aprovado também para o Programa de Iniciação Científica (ProIC) na UnB”, conta Paulo Moraes, pai de Marcos. O servidor público está orgulhoso do desempenho do filho e aprova os jogos interclasses na escola. “É importante porque desenvolve a competitividade e torna a escola mais atrativa para os alunos”.

Dedicação

A abertura dos jogos na escola ocorreu na última segunda-feira (21) e o encerramento está previsto para amanhã (25). O primeiro dia, dentre outras participações, contou com a presença da banda do exército e de atletas e técnicos de expressão no DF, como o atleta paralímpico Marilton Nogueira (tênis de mesa), Ângela Lavalle e Léo Santos (vôlei de praia). Houve também,apresentações de ginástica ritmica e artística.


Para André Miranda, o intuito é despertar o gosto pelo esporte e mostrar a necessidade de se dedicar para alcançar objetivos. “É importante que os garotos tenham contato com esportistas que chegaram a um nível alto e, por que não, através daqui, formar grandes atletas como os nossos convidados especiais. Todos esses que vieram nos contaram as histórias deles, dizendo que tudo começou na escola”, diz. “Fica como exemplo saber que eles começaram do zero, um atleta que está lá em cima não nasce sabendo. Ele se dedicou. Tem que treinar e, no processo de aprendizado, despertar aquela aptidão e talento para, quem sabe, se tornar um atleta profissional.”

Competitividade
As pirraças entre os colegas são comuns no cotidiano dentro da escola e podem ser acirradas durante os jogos. Para contornar o problema, os docentes do CEF 306 Norte preparam a meninada para não exagerar nas provocações. “Os ânimos às vezes aumentam, mas a gente coloca a competitividade num nível pedagógico, então tentamos trabalhar o lado positivo da competição entre eles e tem dado certo“, esclarece André Miranda. Gisa Camen, também professora de educação física, “esse é um trabalho feito antecipadamente, dia a dia, com eles. Desde o início do ano estamos desenvolvendo esses trabalhos.”


A psicóloga clínica e analista transacional, Marília Pereira, alerta para a importância de estimular a competição entre crianças e adolescentes, mas com cautela. “A competitividade é recomendada se estimula ir além, vencer obstáculos e objetivos. Se ela se tornar uma obsessão de ter que atingir um objetivo muito alto, exagerado, fica inadequada”, pondera. “É importante que a criança entenda que nem sempre ela vai ganhar, seja no esporte ou na vida. Disputar é saudável. Quando o jovem começa a desenvolver uma noção de disputa sem limite, a atividade no esporte se mostra disfuncional”. Ainda segundo a psicóloga, transtornos de ansiedade e crises de depressão são algumas das complicações que podem decorrer das buscas excessivas pela vitória.


Para Yaclara Camelo, 12, aluna do 7º ano, as orientações dos professores vem dando certo. “Os jogos estão muito bons, cada um está respeitando os colegas”, observa. “Os professores conversam bastante com cada um de nós sobre evitar provocações. O que vale não é a rivalidade e sim a diversão e a paz entre os alunos. A vida atlética pode ensinar muito”, finaliza. Competindo na queimada e atletismo, Yaclara nas horas vagas gosta de sentar na arquibancada do futsal e torcer para que a turma dela consiga o ouro na modalidade.


Primeiro lugar no xadrez, Marcos Paulo e seus colegas do CEF 306 Norte dão uma lição de como se portar no esporte. “Fiquei muito feliz em ter ganhado a medalha de ouro. Quando anunciaram, eu e meu colega, que ficou em segundo, gritamos, pulamos juntos”, afirma. “Porque é isso né, a gente compete, mas continua amigo.”

 

 

*Estagiário sob a supervisão de Jairo Macedo