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Missão além da sala de aula

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postado em 24/09/2017 16:33

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press
 
Durante 17 anos, Tatiane Reinaldo saía de Ceilândia, onde morava, para ir até a zona rural de São Sebastião dar aula para crianças. Ela lidava, diariamente, com a distância, a falta de estrutura e, principalmente, com as histórias dos alunos. O papel dela não era apenas lecionar pela Secretaria de Educação. Tinha que ser mãe, pai, médica, psicóloga, amiga e mais o que os pequenos precisassem. Apesar de todas as adversidades, não se vê em outra profissão. A escolha de ser um professor de escola pública vai além de se tornar um servidor público. Para fugir das frustrações que o cargo impõe durante o ofício, o amor pela educação deve ser o carro-chefe.

Tatiane teve várias vivências durante todos esses anos. A maior parte do tempo, ensinava crianças da educação infantil, de 6 a 7 anos, em média. Ela tem na memória um local aconchegante, mas com realidade difícil. “Um dia, um aluno chegou sonolento na escola e, como professora, perguntei por que ele estava daquele jeito. O garoto me respondeu: ‘Ah, tia, o pai chegou em casa de madrugada e bêbado. Depois, ligou o som alto e começou a bater na mãe. Não consegui dormir’. Ouvir aquilo me cortou o coração”, conta.

Em outra ocasião, um aluno chegou na aula com o dedo todo mordido e sangrando porque tinha sido mordido por um rato durante a noite. “Eu o levei ao posto de saúde e depois o acompanhei até em casa para orientar a mãe. Quando cheguei, o lugar era muito sujo, não dava nem para acreditar. A estrutura familiar dele era muito fragilizada, tinha um irmão preso e tudo isso vai influenciando na formação da criança”, expõe.

A professora relata a situação de miséria que muitos dos pequenos viviam na escola da zona rural. No colégio, era oferecido no turno da manhã o café, o lanche e o almoço. No período da tarde, duas refeições. “Para muitos deles, são as únicas coisas que vão comer no dia. Quando chegava o fim de semana, nós, da escola, ficávamos pensando que eles iam ficar dois dias sem nada, esperando a segunda-feira chegar”, lamenta.

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press
 
A carga psicológica desses educadores é descomunal. A Secretaria de Educação aponta que não tem o número individual de cada atestado ou licença médica. Mas o Sindicato dos Professores do Distrito Federal  afirma que problemas emocionais são a principal causa de afastamento. “Julgam que esse nosso afastamento é porque não queremos trabalhar. Mas a gente adoece mesmo. Não damos conta de resolver os problemas do mundo inteiro. Não se aprende a lidar com isso na faculdade, é no dia a dia. Às vezes, dá vontade de chorar por não saber o que falar para a criança”, confessa Tatiane Reinaldo.

Responsabilidade 

Leonardo Café, 39, também passou por situações parecidas, mas aprendeu a lidar com elas com o passar do tempo. Vindo de uma realidade financeira difícil, viu na profissão uma maneira de associar um bom emprego ao gosto pela leitura e por falar em público. “Logo quando comecei, vi que era mais do que isso. É uma profissão em que se é admirado e lembrado para sempre. Mas o principal é ver que, pelo meu trabalho, as pessoas saem de um estágio na vida para ir para outro”, relembra.

A primeira escola pública foi na região de Brazlândia. Ele, que já havia passado pela rede particular de ensino, teve um choque de realidade. Ainda no primeiro ano de experiência, veio a primeira situação delicada. “Uma vez, tive que me ausentar e os estudantes foram dispensados. Três alunas, na faixa de 12 anos, foram para a casa da mãe de uma delas. Lá, todas foram molestadas pelo padrasto da menina.” Aos 19 anos, ele não estava preparado para viver aquela circunstância.

Ao estranhar a maneira como elas se portavam após aquele dia, começou a investigar. A partir dali, percebeu que também tinha um papel que ia além da sala de aula. “Descobri que ela tinha ido morar com a avó porque a mãe a acusava de dar em cima do marido. Denunciei para o Conselho Tutelar e chamaram a mãe, mas ela não compareceu. Então, a avó foi e fez ocorrência na polícia. Meu primeiro ano na Secretaria de Educação foi uma terapia”, relata.

Após dois anos como professor em Brazlândia, Leonardo foi transferido para Ceilândia, lugar com histórias difíceis. Iniciou com alunos surdos. “Eles são incompreendidos dentro da escola, por aqueles que não têm necessidades especiais e, também, na família. Existem pais que não sabem falar oi com os filhos. Quando chegam na escola, essas crianças se apegam aos professores, pois somos o elo de comunicação”, destaca. Há 10 anos, Leonardo leciona no Centro de Ensino Médio 02 (CEM) de Ceilândia, uma das escolas destaques no Distrito Federal devido ao alto número de aprovação na Universidade de Brasília (UnB). Lá, deparou-se com dois contextos que precisavam ser melhor trabalhados: incompreensão familiar e orientação sexual. Assim, adquiriu mais uma função, o de assistente social.

“No caso dos transexuais, temos que explicar para os colegas que não é só uma questão de nome social e uso do banheiro”, expõe. “Mesmo a escola sendo na periferia, temos alunos com poder aquisitivo melhor do que outros. E é preciso trabalhar isso para que eles não reproduzam o preconceito que sofrem. Uma vez que você passa para o papel de opressor, não há um crescimento na cadeia e, sim, um decaimento”, admite.

Leonardo é formado em letras pela UnB e dá aula de português. Para ele, não há semântica ou literatura que substitua os aprendizados da vida. “Eu quero que meu aluno seja um cidadão de bem. Nada me impede de parar a aula para ter um debate sobre um assunto importante que vai contribuir para a formação deles como pessoa.” Apesar de todas as dificuldades que a profissão e o ensino propõem, ele confia. “Acredito que tenho um papel social. É muito mais que ensinar. Eu consigo ver que sou útil para alguma coisa. Poderia ser servidor público em outra área e ganhar muito dinheiro. Economicamente, estaria feliz, mas não satisfeito. Apesar de todas as dificuldades, acreditar é o que me faz continuar. ”
 
Abordagem 

Entre 2015 e 2016, dois juízes da Associação dos Magistrados do Distrito Federal (Amagis) implementaram no Paranoá e Núcleo Bandeirante um projeto que orientava professores do ensino público a fazer a abordagem correta com crianças que sofriam abuso sexual. O objetivo era capacitar o educador a ter condições de detectar se a criança sofre violência em ambiente doméstico, orientar como essa denúncia poderia ser feita e, sobretudo, capacitá-lo a fazer a aproximação correta.

Fábio Francisco Esteves é presidente da associação e foi quem esteve à frente do projeto do Núcleo Bandeirante. De acordo com ele, o professor vivencia e é testemunha de muita coisa dentro da sala de aula, mas não tem respaldo para levar uma denúncia adiante. Para mudar esse cenário, Conselho Tutelar, delegacia local, Ministério Público e judiciário se sentaram e fizeram um protocolo para preservar os educadores. “Ele será uma testemunha durante o processo. É preciso resguardar a identidade. Até porque, geralmente, são pessoas da família que praticam o abuso, e as vítimas continuam morando lá. Em algumas situações, o ofensor vai à escola cobrar”, explica.

Para Fábio, os profissionais da educação não são preparados para lidar com situações desse tipo. E, quando o caso chega ao conhecimento, uma abordagem pode traumatizar a criança. “A extração da informação é um processo muito delicado. A capacitação dá essa possibilidade de lidar com o drama da criança. O abuso tem que ser levado muito a sério, envolve um contexto social e familiar. Essa formação para os professores, hoje, é indispensável”, alega. “O professor está desprotegido. Ele não tem um apoio institucional em várias questões. A rede pública de ensino não tem condições de respaldo dessas questões, para levar essas denúncias à frente.”

“Um dia, um aluno chegou sonolento na escola e, como professora, perguntei por que ele estava daquele jeito. O garoto me respondeu: ‘Ah, tia, o pai chegou em casa de madrugada e bêbado’. Ouvir aquilo me cortou o coração"
Tatiane Reinaldo, professora