Matemática está ao alcance de todos em feira no Parque da Cidade

Estudantes participam da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia até domingo (29), com a apresentação de diversos projetos que envolvem cálculos e conteúdos complexos de forma acessível

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postado em 28/10/2017 08:00 / atualizado em 27/10/2017 22:17

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Quem acha que o Brasil é um país em que as pessoas não se interessam por ciência pode se surpreender com o fascínio dos estudantes que participam da 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) no Distrito Federal. Nesta edição, o evento ocupa o maior espaço de sua história: são 70 mil m² no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade. A programação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações reúne mais de 70 instituições, além de 92 escolas públicas do DF. A programação teve início na segunda-feira passada (23) e se estende até domingo (29).

 

O tema deste ano é “A matemática está em tudo”. A semana científica não ocorre apenas em Brasília. As atividades ocorrem concomitantemente em 259 municípios, em 796 instituições, com 7.438 atividades cadastradas. Andando pelo Parque da Cidade, é possível se deparar com projetos surpreendentes. Desde animais empalhados e protótipos de avião a foguetes. Tudo para os interessados aprenderem como a matemática está presente em vários momentos da vida. Vários dos estandes mostram trabalhos de estudantes, alguns da mais tenra idade. No entanto, eles demonstram capacidades muito além das esperadas para a faixa etária.

 

 

Alunos de 9 anos da Escola Classe 12 do Gama, por exemplo, estudam conteúdos previstos para serem estudados apenas em séries mais avançados. “Eles têm contato pela mídia com conceitos como aquecimento global e fazem perguntas sobre isso. A ideia é não transformar o conhecimento em uma coisa cronológica, mas, sim, possibilitar o acesso na hora em que a dúvida surgir”, explica a professora da turma Rute Sena Rios. “A gente aprende fazendo esses trabalhos e também vendo os dos outros. Eu gosto muito”, conta a aluna Mayara da Costa e Silva.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

 

A escola trouxe para a mostra um planetário e maquetes do sistema solar e de uma usina hidrelétrica. A comunidade toda se envolveu, já que os familiares também ajudaram na construção. “A única condição era que tudo fosse feito com materiais que dá para identificar de imediato”, observa a professora Rute. “Nós fomos chamados para nos apresentar na feira, tínhamos o planetário, então fizemos todas as outras coisas. Como é a minha primeira vez aqui, está sendo muito interessante conhecer coisas novas”, destaca Lucas Rocha Vieira.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Estudantes do 5° ano da Escola Classe 106 Norte se divertiram ao aprender a fazer foguetes de garrafa pet. As professoras Patrícia Victoria Santos e Denise Montandone Carvalho Rocha explicam que tudo começou quando eles foram convidados a participar do projeto The Science Dream Girls, da Universidade Católica de Brasília (UCB), em que vivenciaram um dia como cientistas. “Eles perceberam que poderiam, sim, estudar e aprender a fazer ciência. Por meio do canal de vídeos Manual do Mundo, os alunos se apropriaram de conteúdos que só veriam no ensino médio”, relata Patrícia.

 

“Assim, o grupo começa a descobrir que nem tudo é teoria. Na nossa sociedade, tudo já vem pronto, mas a turma percebu que pode transformá-la”, completa Denise. Lisa Linda Depádua Quevedo, 10 anos, se empolga ao contar sobre o projeto. “Nós criamos os foguetes depois de aprendemos em vídeos. É muito interessante estudar matérias do ensino médio no 5° ano”, diz, animada. “É divertido, convivemos com pessoas que não conhecíamos e aprendemos coisas novas”, acrescenta Yohanna Wolfstein, 10.

 

Igor Caíque/Esp. CB/D.A Press

 

Carolina Grassi, 30, pesquisadora do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, desenvolveu um projeto que substitui o uso de petróleo por biocombustível desenvolvido por etanol. Na feira, ela apresenta uma maquete que demonstra a pesquisa. Doutora em biologia molecular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carolina acredita que é possível aliar natureza e tecnologia. “Eu busco saber como melhorar a produtividade do etanol e das lavouras, como colher a cana-de-açúcar de forma correta”, explica. O projeto é resultado de parceria do MCTIC e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais.

Contato com o público
A estudante do Colégio Galois Luisa Valadares, 17, é veterana na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e afirma que, todos os anos, é sempre muito interessante participar. “Eu venho à feira desde 2012, quando eu tinha 13 anos. É surreal poder tirar os conhecimentos de sala de aula e vê-los na prática. E aqui tem muitos projetos inovadores”, diz. Professora de ciências no colégio, Francini Vieira explica que a escola, este ano, conta com a participação de 400 alunos, de 11 a 17 anos, que apresentam 67 projetos na mostra. “A maioria é relacionado ao impacto ambientai. Na parte de matemática, tem os de raciocínio lógico, como o Mind Lab e a robótica”, diz. Segundo ela, a participação neste tipo de evento instiga os estudantes a se interessarem mais pelos estudos. “Os meninos se desenvolvem muito e a melhor forma de aprender é ensinando. Eles estão colocando em prática o que aprenderam”, garante.

 

Igor Caíque/Esp. CB/D.A Press
 

 

Aluna do 8º ano do Galois, Isadora Meireles, 13, acredita que o evento é fundamental para o desenvolvimento educacional. “A gente sempre fica muito em sala de aula, então apresentar um trabalho para várias pessoas é muito enriquecedor”, afirma. Ela e as amigas — Alice Netto, Clara Maria Oliveira e Tiffany Jarjour, todas de 13 anos — desenvolveram um projeto que apresenta os malefícios do consumo exagerado de doce. “Todo mundo acredita que os açúcares são melhores que os adoçantes, mas, na verdade, não são. Durante o processo de industrialização, eles perdem nutrientes. Então, o ideal é consumir o açúcar mascavo e açúcar de coco”, explica Clara Maria.

A UnB na feira
Os estudantes de engenharia mecatrônica da Universidade de Brasília (UnB) Mateus Berardo e Rafael Mascarenhas, ambos de 18 anos, levaram para a feira o projeto desenvolvido pela Br.ino. “Nós somos uma startup de robótica educacional que ensina arduinos (plaquinha usada em projetos de automação) por meio de uma série de ferramentas e tenta facilitar para quem está ingressando na robótica”, diz Rafael, apresentando a empresa. A dupla disponibiliza explicações em português para quem vai programar um arduino, além de desenvolver cursos e kits.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

 

“O acesso à programação toda traduzida facilita, principalmente, para as camadas mais desfavorecidas da população que não tiveram acesso a cursos de inglês. Além disso, é tudo gratuito e disponível no nosso site para baixar”, destaca. “Este é um projeto que surgiu na nossa escola, o Centro Educacional Leonardo da Vinci. No último ano, decidimos deixar um legado lá dentro, onde nós estudávamos ao ensinar robótica para a galera do colégio. Então, vimos que tinha espaço para tentar democratizar o acesso a esse conhecimento”, lembra Mateus Berardo.

 

Quem observar crianças no meio do pavilhão se divertindo com um jogo de tabuleiro pode imaginar que trata-se de uma simples recreação inocente, mas é por meio do game que o Centro Vocacional Tecnológico em Agroecologia e Agricultura Orgânica da Universidade de Brasília (CVT/UnB) ensina aos pequenos conceitos de agricultura. “Gostei muito porque aprendi muitas coisas. E a gente ainda pode pintar um desenho”, declara Maria Luiza Silva Santos, 9, estudante da Escola Classe 113 Norte.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

 

“A nossa tarefinha é divulgar a matemática dentro da agricultura, que está nela do começo ao fim”, explica a colaboradora técnica do CVT e engenheira florestal formada pela UnB Juliana Martins. Ela destaca que a Fazenda Água Limpa, onde está localizada a sede do projeto, está aberta a receber visitação de escolas e, por meio disso, é possível que os alunos aprendam bastante — principalmente a respeitar o meio ambiente. “Cada criança traz uma vivência diferente, o que é muito interessante. A ciência brasileira tem muitos projetos e esse é o espaço para divulgá-los”, ressalta.

Para reverter o quadro
Na última edição do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), em 2015, o desempenho de estudantes brasileiros em matemática foi o pior entre as habilidades analisadas (também são avaliados conhecimentos em ciências e leitura). Os alunos conseguiram média de 377 na disciplina, menos que a nota da edição anterior (2012), que foi de 389. No ranking mundial dessa disciplina, o Brasil ficou em 66º lugar entre 72 países. Iniciativas voltadas à matemática, como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, tentam reverter esse quadro.

Não perca!
14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no DF
Onde: Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade
Quando: até amanhã (29). O horário de funcionamento é das 9h às 19h hoje e das 9h às 18h amanhã
Informações: snct.mctic.gov.br

*Estagiários sob supervisão de Ana Paula Lisboa