EDUCAÇÃO

Primeira infância e creches em debate

Simpósio com 400 participantes em Fortaleza abordou a elaboração de políticas públicas e a importância de priorizar o investimento em crianças de 0 a 6 anos, fase considerada essencial para o desenvolvimento humano

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postado em 09/11/2017 07:00 / atualizado em 09/11/2017 14:49

Neyrilene Costa/Esp.CB/D.A Press

 

Nesta semana, Fortaleza virou palco de discussões sobre o que precisa ser feito para garantir o crescimento saudável de crianças de 0 a 6 anos no país. A capital cearense recebeu o 7º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância na última terça-feira (7). O tema do evento este ano foi “Práticas efetivas para uma política integrada”, que foi debatido por 400 professores, pesquisadores, especialistas, gestores e líderes do setor público. O evento é organizado pelo Núcleo Ciência pela Infância (Ncpi) iniciativa conjunta entre Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), Universidade Harvard, Hospital Infantil Sabará, Insper e Universidade de São Paulo (USP). Este ano, a programação foi feita em parceria com o Governo do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza.



Durante o seminário, a FMCSV lançou o guia Primeira infância em pauta e a pesquisa Primeiríssima infância: creche — necessidades e interesses de famílias e crianças, encomendada ao Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). A primeira publicação (disponível em guiacomunicacaopi.org.br) define este período, explica porque ele é tão importante e como as interações durante os anos iniciais de uma criança podem impactar o desenvolvimento dela. O documento ainda reúne dicas sobre como aprimorar a comunicação sobre o assunto. Já a pesquisa (disponível em www.fmcsv.org.br) aborda as percepções e interesses de famílias a respeito da qualidade das creches e dos cuidados para com os próprios filhos de 0 a 3 anos (período chamado de primeiríssima infância), que correspondem a uma população de 10,3 milhões de crianças.


Neyrilene Costa/Esp.CB/D.A Press


“O que a pesquisa tem de novo é que ela olha para quatro diferentes 'Brasis' (zona rural, cidades do interior, capitais/periferias e famílias com rendas de mais de cinco salários mínimos), tentando entender as necessidades das mães e das crianças nesses contextos variados”, afirma Ana Lúcia D'Império Lima, economista, consultora da FMCSV e diretora da consultoria Conhecimento Social - Estratégia e Gestão. O gerente de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Eduardo Marino, observa que “é importante se embasar na pesquisa para criar programas que ajudem a primeira infância”. Para ele, o grande trunfo do estudo é mapear as rotinas de famílias brasileiras. “Percebemos que as noções que dos familiares sobre qualidade são focadas em padrões básicos como se o ambiente é seguro, se a alimentação é boa e se os educadores são formados. Esses são parâmetros também importantes, mas existem outros que podem ser analisados: como é a interação do aluno para o desenvolvimento, se ele tem contato com o universo letrado”, diz. “Esses são elementos fundamentais em relação à qualidade de creches que as famílias desconhecem.”

No total, 14% das crianças de até três anos frequentam creche; 74% ficam em casa e 13% vão para a casa de alguém. Os percentuais passam para 33%, 57% e 12% no grupo de até um ano. Na faixa etária de um a dois anos, os valores são, respectivamente, 42%, 48% e 13%. Já entre meninos e meninas de dois a três anos, os percentuais são 63%, 29% e 11%. Também nesse grupo etário, 7% frequentam tanto creche quanto a casa de alguém. No total, 14% dos pais usam creche paga e 20% gratuita. De acordo com as respostas dos pais, foi possível perceber que 46% deles veem na creche o melhor lugar par ao desenvolvimento infantil, enquanto 33% pensam que a casa é o local adequado para isso. Já com relação à responsabilidade, a perspectiva muda: 12% atribuem à creche a obrigação pela aprendizagem da criança e 68% deixam essa incumbência com a família.

 

Destaques
Na primeira sessão, os presentes debateram “A criança como valor para a sociedade”. Pediatra e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniel Becker defende que o caminho para acabar com a desigualdade social no Brasil é investir na primeira infância, período fundamental para o desenvolvimento de uma pessoa, que só pode ser integralmente usufruído com a interação familiar. “No entanto, as crianças estão perdendo o contato com os pais.” Para estimular maior cuidado e atenção por parte das famílias para com as crianças, Becker defende a implantação de políticas públicas. “Para envolver familiares que estão ausentes na criação dos filhos, é necessário oferecer rodas de conversas, terapia comunitária, programas que favoreçam a interação das crianças com o meio ambiente, entre outros tipos de ações”, ressalta.

Neyrilene Costa/Esp.CB/D.A Press

 

Luciana Aguiar, antropóloga e gerente de Parcerias para o Setor Privado do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), pondera, no entanto, que não basta criar ações governamentais: para que elas sejam efetivas, devem ser pensadas em conjunto com a população para entender do que ela precisa. A mudança e a iniciativa não precisam partir só do Estado: “Deve-se olhar para os menos favorecidos e buscar parcerias com empresas, como incubadoras e startups, para um desenvolvimento conjunto e com outras perspectivas”. Luciana deu palestra sobre o tema “Desenhado políticas em que o indivíduo vem em primeiro lugar”. Pró-reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) e consultora de desenvolvimento infantil no Iprede (Instituto Primeira Infância), Márcia Machado defende que a família e as crianças estejam no centro das políticas públicas e dos programas governamentais.

“Os resultados dos investimentos na primeira infância aparecem em longo prazo. Os gestores têm que implementar intervenções sabendo que o resultado será visto no futuro”, diz. A fim de entender do que a população precisa, segundo Márcia, pesquisas se fazem necessárias. Para descobrir o que funciona, pequenas implantações testes são um bom caminho. Como exemplo de medida bem-sucedida, Márcia cita a pesquisa etnográfica Fortalecendo vínculos, feita pela UFC em parceria com outras instituições sobre a interação entre mãe e filho por meio do afeto. A partir do estuado, 10 famílias do Ceará recebem orientações de como cuidar e se aproximar das crianças por meio de visitas de psicólogos e alunos de psicologia. Os comportamentos entre mãe e filho eram documentados em vídeo. “Ao longo projeto, percebemos mudança positivas nas interações da criança com a mãe, que passaram a trocar carinho e brincar juntas, o que não era feito antes”, conta.

 

 

*A estagiária, sob supervisão de Ana Paula Lisboa, viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal