Alunos de escolas públicas passam cada vez mais na UnB

E também para cursos concorridos! Pelo PAS, o aumento do número de ingressos na instituição foi de quase 300% em comparação com 2013. A quantidade que entrou pelo Sisu ainda não foi computada, mas a expectativa é que seja expressiva. Cinco alunos de diferentes regiões administrativas contam suas histórias de superação

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postado em 08/02/2018 20:09 / atualizado em 08/02/2018 21:14

Karine Rodrigues/Esp.CB/D.A. Press

 

 

Há até alguns anos atrás, era raridade encontrar, entre os alunos da Universidade de Brasília (UnB), gente que estudou na rede pública, especialmente nos cursos mais concorridos. A realidade tem mudado bastante e, ultimamente, ganhou o impulso das cotas: a Lei nº 12.711/2012 determina que as instituições federais de educação superior devem reservar no mínimo 50% de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Entre os novos calouros da UnB, que passaram pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS), pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e por vestibulares específicos para arquitetura, design e artes, está um grande volume de ex-alunos de colégios custeados pelo governo de diferentes regiões administrativas do DF. De Taguatinga, Brazlândia, Santa Maria e São Sebastião, por exemplo, cinco trajetórias se encontram em um ponto comum: o sucesso nas seleções da UnB. Guilherme Dantas, Yuri Freitas, Luana Costa, Carlos Eduardo da Silva Almeida e Lucas Gabriel Alves de Andrade, estudantes de escolas públicas do Distrito Federal, passaram, respectivamente, para medicina, direito, odontologia, engenharia da computação e medicina veterinária na Universidade de Brasília.


São exemplos de superação, que pretendem mudar a história da família a partir da educação. Guilherme Dantas, 18, é calouro de medicina na UnB e passou pelo PAS. No mesmo curso, foi aprovado pelo Sisu na Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs). Ele estudou na Centro de Ensino Médio (CEM) 417 de Santa Maria, pretende se especializar em oncologia e é filho de um policial militar e de uma professora. Em busca da aprovação, Guilherme fez um curso preparatório no cursinho Alub no último ano do ensino médio, mas conta que preferia se dedicar às matérias sozinho, em casa. “Na escola, falta incentivo para estudar mais. Normalmente, o professor chega, passa a matéria e vai embora. O importante é passar de ano. Alguns professores davam aulas extras por conta própria, para ajudar os alunos no vestibular e em concursos”, conta Guilherme. Luana Costa, 18 anos, estudou no CEM 3 de Taguatinga e sonha em ser dentista, se especializar, passar em um concurso público e abrir a própria clínica. Agora, deu o primeiro passo para realizar o sonho: foi aprovada em odontologia pelo PAS.

Filha da diarista Uracilânia Valina e a primeira da família a ingressar no ensino superior, Luana conta que os anos de rotina puxada de estudos, escola e curso pré-vestibular não foram fáceis, mas compensaram. No 2º ano do ensino médio, a estudante não tinha acesso à internet em casa e passou a estudar usando livros e jornais que a mãe trazia da casa dos patrões. Exemplares do Correio Braziliense serviram para ajudar a jovem a melhorar os conhecimentos de português, a partir de dicas de Dad Squarisi, professora de língua portuguesa e editora de Opinião do jornal. Segundo Luana, o apoio familiar foi essencial para alcançar essa conquista. Na escola, sentiu falta de preparação específica para o vestibular. “A minha escola tinha tantos projetos que a gente não conseguia estudar focado para o vestibular. Falta preparação para isso, especificamente. Alguns professores passavam as provas com questões antigas de vestibular e Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas era só isso. Só fiz dois simulados na escola”, relata ela, que fez cursinho no Alub, com bolsa parcial, durante dois anos. Na escola de Yuri Freitas, 17 anos, mais novo acadêmico de direito na UnB, era diferente. Segundo o estudante, o esforço de professores e a equipe pedagógica do CEM 2 de Brazlândia foi fundamental para permitir a aprovação.

Um projeto de redação com correção por bimestre chamado Leio logo escrevo (coordenado pela professora Mayssara Reany de Jesus Oliveira), aulas voluntárias no período inverso ao turno regular e espaços disponibilizados para estudo foram algumas das ações positivas do colégio. Para ele, a comunhão entre escola e família é primordial. Filho do motorista de caminhão Ediney Batista, Yuri foi aprovado em direito (carreira que pretende seguir) pelo PAS e em filosofia pelo Sisu, também na UnB, mas relata que não estava seguro da aprovação. “As pessoas que têm mais condições podem fazer um cursinho, eu não tinha como. Então, tinha que estudar muito!”, diz. “O (aspecto) psicológico de um garoto da escola pública é muito diferente do de alguém que estuda em uma particular. Alguns alunos têm muito pessimismo em relação a si mesmo e não acreditam que conseguirão. Então, sonham pequeno. A universidade tem certo elitismo. E um dos papeis principais da escola é incentivar os alunos, mostrar que eles são capazes”, declara ele, que sonha ainda em estudar psicologia e história. Carlos Eduardo da Silva, 17, também era estudante do CEM 2 de Brazlândia e relata problemas de estrutura. “Durante dois anos, teve greve por falta de pagamentos aos professores”, relata.

“A escola sempre tentou ajudar os alunos, a direção e os professores são muito bons. O problema era falta de recurso. Sempre faltava equipamento nos laboratórios de física, química e informática, por exemplo”, conta. Ele foi aprovado em engenharia da computação pelo PAS e em engenharia mecânica pelo Sisu e escolheu cursar a primeira opção. O primeiro da família a ingressar numa instituição de ensino superior, ele encheu a família de orgulho com o sucesso nas seleções. O estudante é filho do motorista de ônibus Carlos Cassiano e da dona de casa Erásia Selma. Com o pé direito na universidade, seus sonhos são para o outro lado do mundo: ele pretende fazer um intercâmbio na Suíça. Rumo à aprovação, o jovem encontrou dificuldades: na hora da inscrição do PAS, não conseguiu isenção da taxa por não dar conta de cumprir todas as exigências burocráticas a tempo e, sem recursos, deixou de fazer a primeira etapa. Sobre as cotas, pelas quais concorreu, Carlos reforça a importância dessa reserva.

“É muito positivo porque é muito diferente o ensino de uma escola pública do de uma particular. Tem também pessoas que precisam trabalhar, quase todos os meus amigos trabalham e estudam”, relata. Quem sonha em ser veterinário e trabalhar no zoológico é o Lucas Gabriel Alves de Andrade, 17. Ele é filho do vigilante Norberto Soares de Andrade e da dona de casa Honorina Alves da Cunha e estudou no CEM 1 de São Sebastião. A fim de complementar o conteúdo aprendido na escola, o jovem procurava materiais na internet, como videoaulas. Segundo o aluno, as seleções para acesso ao ensino superior cobram muitas disciplinas e o colégio acabava não conseguindo oferecer toda a base necessária para uma boa educação. “Então, precisei me virar, estudando em casa sozinho e indo atrás de outros recursos”, afirma. “A infraestrutura era horrível: antiga e muito quente. Alguns professores não ensinavam direito, mas outros eram bons. Até tínhamos aulas no sábado para vestibular, mas eu não frequentava porque não eram boas”, afirma

Números

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

 

 

Neste ano, das 4.222 vagas oferecidas na UnB pelo PAS, 1.583 foram conquistadas por alunos de escolas públicas do DF, segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal. Número quase 300% maior que em 2013, quando 571 estudantes dessa rede acessaram à Universidade de Brasília. Os cursos mais concorridos da seleção, de acordo com a relação candidatos por vaga, neste ano foram medicina, direito e psicologia. Os cursos com maior número de aprovações pela rede pública foram engenharias (89), pedagogia (64), ciências contábeis (59) e saúde coletiva (55). Também foram contabilizadas cinco aprovações para medicina, 46 para administração, 39 para direito, 20 para psicologia, 19 para comunicação social, 18 para relações internacionais e 15 para engenharia elétrica. De acordo com levantamento preliminar da Secretaria de Estado de Educação Distrito Federal, escolas localizadas em Plano Piloto, Brazlândia, Ceilândia e Taguatinga contam com números expressivos de estudantes aprovados na primeira chamada do PAS. Nas regiões administrativas de Brasília e Cruzeiro, são em torno de 300 aprovações.

Em Ceilândia, há registro de pelo menos 175 alunos aprovados, mais que na vizinha Taguatinga, que conta com 146 aprovações contabilizadas. Em Brazlândia, foram quase 100 vagas garantidas. A Secretaria de Educação ainda não calculou quantos estudantes da rede pública conseguiram aprovação na UnB usando a nota no Enem. O secretário de Educação do DF, Júlio Gregório Filho, afirma que alguns fatores contribuíram para esse aumento, como o estabelecimento do sistema de cotas e a parceria com o projeto #BoraVencer, da Secretaria da Criança, que oferece aulões preparatórios, cursos intensivos e dicas para vestibulares e concursos. Segundo o secretário, o destaque fica por conta do programa Por Dentro dos Exames do Ensino Médio, desenvolvido em escolas públicas desde 2015, oferecendo cursinhos preparatórios com aulas de professores da rede pública e privada, voluntariamente. O programa é apoiado pelas coordenações regionais da Secretaria de Educação, que viabilizam auditórios e meios materiais para que as aulas possam ocorrer.

“São encontros para revisar e complementar conteúdos, dar ao aluno, além do conteúdo, ferramentas de estudos para desmistificar o formato das provas e questões de atualidades”, explica o secretário. Por meio do programa, aproximadamente 18 mil estudantes do DF fazem um simulado com redação por ano nas escolas em que estudam. De acordo com Júlio Gregório, além das questões, a prova simula tudo que o estudante vai enfrentar nos exames para entrar em uma universidade, como o tempo e número de questões. A prova é elaborada pela Secretaria de Educação, em conjunto com a UnB e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Segundo o secretário, o programa ajuda a atacar um traço negativo destacado pelo estudante Yuri Freitas: a falta de autoestima de estudantes de escolas públicas. “Pretendemos estimular os jovens pedagogicamente e psicologicamente. Os professores corrigem e dão retorno de desempenho individual aos estudantes. Tudo isso fez com que eles se sentissem estimulados e capazes de ter boas classificações”, conclui.




*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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