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Onde falta mão de obra?

Com a escassez de profissionais qualificados no Brasil, os setores que mais sofrem são a medicina, a geologia e a engenharia. O governo vai mapear os principais gargalos do mercado

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postado em 05/11/2012 10:32 / atualizado em 05/11/2012 10:35

Mariana Niederauer


O geólogo André Queiroz Fernandes, 27 anos, não teve dificuldade em conseguir emprego na Petrobras (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press     ) 
O geólogo André Queiroz Fernandes, 27 anos, não teve dificuldade em conseguir emprego na Petrobras

A falta de mão obra qualificada no país é assunto frequente entre empregadores e especialistas: a formação dos trabalhadores brasileiros será determinante para garantir o crescimento econômico. Assim, o governo precisa saber em que setores a escassez é maior. Para mapear os principais gargalos do mercado e ter condições de formular políticas públicas para ajudar a resolver a carência, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) lançou, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Rede de Pesquisa Formação e Mercado de Trabalho. A rede reúne pesquisadores para debater o tema, e os profissionais podem se beneficiar dos dados obtidos. Alguns estudos já indicam as tendências do mercado e apontam as ocupações mais promissoras.

“Acho que (a rede) vai render muitos produtos e informação para a própria sociedade. O cidadão precisa saber com clareza quais são os retornos e os impactos de cada trajetória educacional seguida”, afirma o presidente do Ipea, Marcelo Néri. Ele lembra ainda que, hoje, a educação é a segunda principal preocupação dos brasileiros. A articulação de esforços, que incluirá o Ministério do Trabalho e Emprego, o Ministério da Educação e outras entidades, permitirá mapear o processo de formação dos trabalhadores desde a entrada no ensino superior até a chegada ao mercado do trabalho.

Os resultados apresentados no lançamento da rede revelam que o desenvolvimento do país nunca dependeu tanto da qualidade da formação da mão de obra. O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Mariano Macedo analisou dados de 2002 a 2009 e chegou à conclusão de que, nesse período, a produtividade do trabalho caiu ou aumentou muito pouco na maioria dos 48 setores industriais, e representou apenas 25% do crescimento de quase 4% que o país obteve entre 2004 e 2011. O restante foi consequência do aumento da população ocupada.

Hoje, porém, as taxas de desocupação são muito baixas e a simples elavação do número de pessoas ocupadas não sustentará o desenvolvimento econômico. Na opinião do especialista, será necessário fazer com que cada ocupação gere mais riqueza. “Para continuar articulando crescimento a taxas expressivas será preciso incentivar a produtividade. Tudo indica que o crescimento que se dará a partir de agora vai exigir mão de obra de mais qualidade”, ressalta Macedo.

Susana Piva é pediatra há 20 anos: nova geração não procura mais a especialidade (Janine Morães/CB/D.A Press) 
Susana Piva é pediatra há 20 anos: nova geração não procura mais a especialidade

Procuram-se médicos
Na medicina, o deficit pode chegar a 100 mil profissionais em 2030, em comparação com o modelo canadense de oferta de médicos a cada mil habitantes. A projeção foi feita pela equipe da Estação de Pesquisa em Sinais de Mercado da Universidade Federal de Minas Gerais (EPSM/UFMG). Para o coordenador da EPSM Sábado Nicolau Girardi a solução é criar mais oportunidades nos cursos das universidades públicas, já que o aproveitamento em termos de vagas e de matrículas é total, ou seja, não faltam alunos. “Defendemos a ampliação da capacidade das universidades públicas, fomentando a parceria com a iniciativa privada.”

O estudo mapeou a escassez de profissionais na área de atenção primária, que inclui a medicina geral da família e da comunidade e clínico geral, além das especialidades médicas. O profissional que os hospitais da rede privada têm maior dificuldade em encontrar é o pediatra. Para 67% deles, em 2010 foi complicado preencher as vagas para essa especialidade. Em 2008, esse índice era de 32%. “A maior parte da escassez de mão de obra está nas áreas médicas. São as maiores taxas de ocupação, os maiores salários, mas, por outro lado, apresentam uma das maiores jornadas de trabalho”, lembra o presidente do Ipea, Marcelo Néri.

Para Susana Piva, 49 anos, pediatra há 20, as dificuldades da profissão não foram uma barreira para que seguisse em frente com sua escolha. Susana decidiu ser pediatra ainda na infância, e o principal incentivo foi a admiração que sentiu por uma profissional que cuidou de seu irmão quando ele estava doente. “O que me encanta é a sinceridade das crianças, elas são muito verdadeiras”, conta. Susana reclama da remuneração, que, segundo a especialista, não corresponde à responsabilidade desse profissional. Porém, para pediatras com experiência como ela, a ocupação é promissora. Hoje, Susana atende em um consultório particular e não precisa aceitar convênios para garantir a sala cheia de pacientes. “À medida que o profissional for conquistando o espaço, poderá montar seu próprio consultório”, garante.

A hora do pré-sal
Outra área que também deve sofrer com a falta de mão de obra qualificada é a geologia. De acordo com um estudo feito pelos professores Sérgio Queiroz e Renato Pedrosa, do Departamento de Política Científica e Tecnologia do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG/Unicamp), faltará mais de 500 profissionais. “Há um número fixo de escolas de geologia, mas a demanda por geólogos aumentou muito nos últimos anos”, diz o especialista. O professor lembra que grande parte dessa busca de profissionais é impulsionada pela descoberta do pré-sal, além da área de mineração, que apresenta crescimento significativo.

Queiroz ressalta que a falta na área da geologia já pode ser sentida hoje. Por esse motivo, os profissionais que saem das universidades não costumam encontrar dificuldade em conseguir vagas no mercado. André Queiroz Fernandes, 27 anos, garantiu a sua logo que se formou no curso de geologia da Universidade de Brasília (UnB), em 2008. Ele foi aprovado no concurso da Petrobras e trabalha com mapeamento geológico no Rio de Janeiro. “Eu não sabia onde estava pisando quando escolhi geologia”, revela. “Demorei mais ou menos três semestres para entender”, completa. Para ele, a falta de conhecimento sobre a profissão faz com que parte dos alunos desista do curso.

A grade curricular também influencia. Os estudantes de geologia precisam dominar conteúdos de cálculo, física e química. André ressalta ainda que nem todo mundo aguenta a rotina da profissão, que exige estar sempre em campo e, inclusive, fazer muitas viagens. Mas, para ele, essa é uma vantagem e o principal motivo para continuar atuando na área. “Eu não saio da geologia porque posso trabalhar no campo e não fico preso no escritório”, explica. O estudante do 8º semestre de geologia na UnB, Renato do Valle, 31 anos, escolheu o curso por causa da possibilidade de viajar bastante e estar em contato com a natureza. Ele também percebe a desistência de muitos alunos, mas lembra outros benefícios da área: o salário médio inicial varia de R$ 5 mil a R$ 6 mil. “Há muita oportunidade no Brasil. É uma área carente de mão de obra”, diz.

Qualidade na formação
Projeções feitas pelo Ipea no ano passado mostram que o número de engenheiros formados em 2020 ficará entre 1,5 e 1,8 milhão. Nesse mesmo ano, o mercado precisará de 600 mil a 1,15 milhão profissionais. Porém, o que preocupa os especilistas, nesse caso, é a formação e a migração de trabalhadores para ocupações que não são típicas da área. Uma das que mais vai sofrer com o deficit é a engenharia de petróleo e gás. O estudo do professor Sérgio Queiroz mostrou que apenas 28% dos concluintes dos cursos oferecidos no país tiveram nota 4 ou 5 no Enade de 2008. O quadro é pior na rede privada, onde 11% dos concluintes das instituições alcançaram os índices mais altos no exame, enquanto nas públicas esse percentual é de 47%. “Se olharmos para o conjunto de engenheiros formados pela rede publica e pelas escolas tradicionais, veremos que esse número cresce num ritmo mais baixo do que o da demanda”, explica Queiroz.

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