Trabalho

36% das vagas vão para aposentados

Empresas contratam cada vez mais profissionais experientes. A idade média deles é de 68 anos, têm curso superior e são de classe média

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postado em 24/01/2013 08:00 / atualizado em 23/01/2013 12:51

Priscilla Oliveira , Vânia Cristino

O servidor Lauro de Oliveira, 72, é engenheiro civil e driblou a aposentadoria compulsória devido à falta de substitutos igualmente qualificados (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 
O servidor Lauro de Oliveira, 72, é engenheiro civil e driblou a aposentadoria compulsória devido à falta de substitutos igualmente qualificados

Pedro, 69: não aposentei porque o trabalho é a essência da minha vida  (Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press) 
Pedro, 69: não aposentei porque o trabalho é a essência da minha vida

Profissionais aposentados estão a cada dia mais cobiçados. Pelos menos 36% deles receberam convite para retornar à ativa nos últimos três meses. Os dados são da Vagas Tecnologia, empresa especializada em consultoria e informatização da gestão de processos seletivos. “Esse é um fenômeno novo no país. A população da terceira idade continua sendo muito requisitada por sua experiência e qualificação. Com a escassez de profissionais, tem se tornado mais frequente a busca por um trabalhador com esse perfil”, explicou a gerente de relacionamento, Fernanda Diez.

A pesquisa da Vagas Tecnologia demonstra que os aposentados requisitados são principalmente das áreas de engenharia civil, mecânica, eletrotécnica, administração de empresas e vendas. Têm em média 68 anos, curso superior e pertencem à classe média; apenas 5% não querem voltar a trabalhar, 47% continuam em atividade e 48% pretendem voltar ao mercado.

Para o professor José Márcio Camargo, especialista na análise do mercado de trabalho, isso ocorre porque os salários elevados fazem com que os aposentados percebam que têm uma chance que não podem desperdiçar. “Além do mais, em média, os brasileiros se aposentam muito cedo, com idade em torno de 55 anos, ou seja, em plena capacidade laborativa”, observou.

Muitos dos que continuam na ativa nem chegaram, de fato, a parar. É o caso do mestre de obras Pedro Delfino da Silva, 69 anos. Aposentado desde 1997, ele conta que nunca deixou de trabalhar. Imediatamente após o pedido de aposentadoria, recebeu a proposta do diretor da construtora para continuar ocupando a mesma função que exerceu pela vida inteira. “Eles estavam precisando de mestres de obra na época, me ofereceram para ficar e eu aceitei porque é isso que sei fazer, é a essência da minha vida”, afirmou.

Pai de 6 filhos, Pedro diz que a principal motivação para continuar é o gosto pela função que ocupa, mas ele não deixa de mencionar que a parte financeira também pesou na hora da decisão. “A renda sempre faz falta, mas esse é um fator que vai perdendo a importância; completo 70 em novembro e talvez esteja chegando mais perto da hora de parar”, explicou.

Ajudar os filhos a construir a independência financeira e a carreira profissional também é um dos fatores que motiva esta geração a se manter na ativa. Com dois filhos adultos, um de 37 e outra de 24, a professora Marildes Esmeralda Álvares, 58, se aposentou há 11, mas nunca deixou a escola. Por 6 anos continuou em sala de aula e há 5 trabalha na biblioteca. “Da minha parte estou com uma situação financeira estável. Consegui construir uma casa, que está alugada, e moro em um apartamento no plano piloto, perto do meu local de trabalho, mas a minha renda ainda é importante para apoiar meus filhos, que já são independentes, mas sempre precisam de uma ajudinha aqui e outra ali”, afirma a professora.

Peculiaridades
De acordo com o professor José Márcio Camargo, o cenário brasileiro tem outra peculiaridade. O aposentado que volta ao mercado de trabalho ou nele permanece não perde nem um centavo do benefício. “A aposentadoria, no Brasil, é muitas vezes usada como complemento de renda, uma vez que o profissional permanece em atividade. Em outros países, geralmente o aposentado perde uma parcela da aposentadoria se volta a trabalhar”.

Foi o que fez o engenheiro civil Lauro de Oliveira, 72. Há dois anos, próximo de se aposentar compulsoriamente, ele fez um acordo com o diretor do órgão público em que é funcionário para continuar no quadro sem perder os benefícios específicos dos servidores da ativa. “Quando estava me aproximando dos 70, conversei com o diretor do departamento sobre a possibilidade de me manter no órgão. Ele acatou meu pedido, até porque na época havia uma necessidade de profissionais na área, e eu me mantive com o benefício da paridade em relação ao pessoal da ativa. Nesse caso, tenho direito a todos os reajustes e vantagens deles”, afirmou Lauro.

O fenômeno de voltar ao mercado de trabalho após a aposentadoria é mais forte no Brasil também porque em outros países, notadamente os europeus, a idade de aposentadoria é mais elevada, em torno de 65 anos para o homem. Segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de aposentados que continuam trabalhando saltou de 3,3 milhões no ano 2000 para 5,4 milhões em 2011, elevação de mais de 60%.

 Para os técnicos do IBGE, um dos fatores que explica essa situação é o aumento da vida útil profissional. Ao completar 35 anos de trabalho e ainda na meia idade, os trabalhadores sabem que têm 10 a 15 anos pela frente, tanto do ponto de vista físico como mental.

Outro fator é a queda brusca de renda que a aposentadoria pode trazer quando o profissional não possui seguro privado. Se ele depender apenas do benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cujo teto é de pouco mais de R$ 4 mil, e sua renda com o trabalho for muito superior, pode se ver, de uma hora para outra, numa situação difícil. Por todos esses motivos o IBGE estima que, em 2020, o número de aposentados na ativa pode alcançar 10 milhões.

Ajuda aos filhos
Na escola em que Marildes Álvares trabalha é comum as professoras se manterem na função depois da aposentadoria. Atualmente, 10 funcionários de sala de aula continuam na ativa, todos na faixa etária entre 50 e 73 anos. A maioria tem as mesmas motivações: construir algo para os filhos e manter a condição financeira.

 

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