Os rumos da educação profissional: Pouca procura - Eu, Estudante
SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Os rumos da educação profissional: Pouca procura

Apenas um em cada quatro brasileiros já frequentou ou frequenta algum curso profissionalizante. A baixa formação da mão de obra é um dos gargalos que impede o crescimento do país

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/03/2014 10:20 / atualizado em 17/03/2014 11:23

Mariana Niederauer

Marcelo Ferreira

competitividade e o desenvolvimento econômico nos próximos anos, o Brasil precisa dar um grande passo na formação de mão de obra de qualidade, de maneira a suprir a demanda das empresas. Mesmo num quadro de pleno emprego, elas reclamam da dificuldade de encontrar trabalhadores preparados nas áreas que precisam. E mais do que atender à urgência do setor empresarial, a educação profissional proporciona também uma formação completa do cidadão, como o Correio mostrará na série de reportagens sobre o tema.
A falta de mão de obra ficou evidenciada em pesquisa recente divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo o estudo, 75% dos trabalhadores nunca frequentaram um curso profissionalizante. O percentual entre as nações que fazem parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 46%. A taxa é ainda mais baixa entre os jovens brasileiros, de apenas 6%, contra 35% na média da OCDE.

A alta rotatividade do trabalhador brasileiro, de 64%, de acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2012, também reflete o problema. O ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, garantiu que o grande desafio do país este ano é a qualificação profissional, uma vez que já se atingiu o pleno emprego. Ele presidiu, na semana passada, a abertura de um seminário sobre o tema, em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, afirma que a capacitação da mão de obra tem impacto na rotatividade. “Ela não reduz a rotatividade de forma direta, mas uma qualificação maior do trabalhador tende a melhorar a qualidade do posto de trabalho e leva a empresa a ter uma política de retenção”, explica.

Em meio aos dados negativos, a pesquisa da CNI mostra, no entanto, que 90% dos brasileiros acreditam que a educação profissional oferece boas oportunidades a quem quer ingressar no mercado de trabalho (veja o quadro). Além disso, 74% dos entrevistados reconhecem que os alunos de cursos profissionalizantes são bem ou razoavelmente bem preparados para o mercado. O diretor de Educação e Tecnologia da confederação, Rafael Lucchesi, percebe que essa mudança de percepção do brasileiro a respeito da modalidade de ensino e a participação da classe média tendem a mudar o quadro da pouca procura pelo ensino técnico. “No milagre econômico, a clara porta de saída da mobilidade social era a formação superior, porque estávamos formando a classe média brasileira e porque havia um arrocho salarial. Vivíamos em um regime de exceção, uma ditadura”, detalha.
Com o aumento do poder aquisitivo da classe C nos últimos anos, Lucchesi acredita que está crescendo também o investimento em educação profissional. “Existe um lado brilhante nessa nova classe média, que não é só o de comprar uma televisão: ela está buscando qualificação e isso está incentivando mudanças de percepção cultural”, afirma.

Para o especialista, o atual esforço de capacitação da mão de obra brasileira por meio do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e de diversas iniciativas estaduais é uma resposta a esse novo projeto de vida dos brasileiros. Logo que assumiu o cargo, o ministro da Educação, Henrique Paim, anunciou que a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica — que integra os institutos federais de educação, ciência e tecnologia — receberá investimento de R$ 1,8 bilhão este ano. O total investido entre 2005 e 2013 foi de R$ 6,7 bilhões. De acordo com o último Censo Escolar da Educação Básica, o número de matrículas na educação profissional nas redes públicas e particular foi de 1.441.051 em 2013, aumento de 85% em relação a 2007.

Mudança

A disseminação da educação profissional ainda é um objetivo a ser alcançado. As alunas do curso técnico de segurança do trabalho Caroline Dias e Érica Rodrigues, ambas de 18 anos, só conheceram essa possibilidade depois de ingressarem em empresas públicas como menores aprendizes e terem a oportunidade de fazerem o curso no Senai. “É um meio para você entrar no mercado de trabalho e adquirir bastante conhecimento. Entrei no curso sem conhecer, mas gostei da área e quero seguir nela”, afirma Érica. As duas observam que os jovens só percebem a importância do ensino técnico depois de ingressarem no curso, pois no ensino médio o conteúdo é mais direcionado a quem pretende fazer graduação. “Não tem muita divulgação do curso técnico e de seus benefícios”, avalia Caroline.

Lucchesi, da CNI, lembra que a formação superior também é uma lacuna a ser preenchida no país, mas que as duas modalidades podem ser complementares. “Nós temos que aumentar tanto nossa formação de nível superior como a de nível técnico, são dois esforços importantes. E não há uma oposição entre uma coisa e outra”, afirma. Fábio Renato, 21 anos, aluno do curso de mecânico de automóvel do Senai, já recebeu propostas de emprego em concessionárias e acredita que o curso trará retorno financeiro mais rápido para que ele consiga estruturar os próximos passos da carreira. “Essa formação me dará estabilidade e tempo para pensar em qual área quero fazer o curso superior.”

Preparação para a vida

Edson Caetano, professor do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), defende que a formação não privilegie apenas o lado profissional, mas também uma preparação para a vida. “É o que chamamos de formação integral. O ensino profissionalizante deixa a desejar nesse ponto”, explica Caetano, que é líder do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação da universidade. Por isso, ele sugere a vinculação com o ensino médio, para que a democratização dessa etapa do ensino seja efetiva e não apenas baseada na ampliação do número de vagas. “É essa a visão que um número considerável de pesquisadores e de professores defendem: um ensino que dê condições para que esses adolescentes e futuros adultos tenham instrumentos que possibilitem entender as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho.”
Em última instância, o direito à educação e ao trabalho remetem a garantias constitucionais, como lembra a consultora educacional Marilza Regattieri. “Na prática, a concepção da educação profissional é aquela que deve prover ao estudante, seja jovem ou adulto, ao longo de toda a sua vida, aprendizagens que dão a ele conhecimento e competência para acessar um trabalho digno”, explica. Marilza destaca que a capacidade de aprender e de se desenvolver ao longo da vida é essencial, porque o mercado é muito dinâmico e exige mudanças constantes. “Existem algumas indicações de que, quando os alunos que estão hoje em cursos de educação profissional ou de graduação se formarem, vamos ter outros vários perfis demandados”, explica.

Início
A percepção cultural sobre o ensino profissionalizante tem raízes históricas que contribuíram para disseminar a formação técnica como exclusiva das classes mais baixas. O decreto nº 7.566, de 1909, assinado pelo então presidente da república, Nilo Peçanha, criou 19 escolas de aprendizes artífices. As vagas eram destinadas a habilitar os filhos dos “desfavorecidos da fortuna” e “fazê-los adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da ociosidade ignorante, escola do vício e do crime”.

Mais de 291 mil vagas
A partir de amanhã, o Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica (Sisutec) recebe inscrições para 291.338 vagas em cursos técnicos. No Distrito Federal, são ofertadas 8.725 oportunidades. O cadastro pode ser feito até 21 de março, pelo site sisutec.mec.gov.br. A consulta de vagas já está disponível. Podem participar dessa primeira etapa apenas candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A primeira chamada ocorrerá em 25 de março.

Tags:

publicidade

publicidade