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O mapa da escassez

Contratar trabalhadores qualificados está entre os principais desafios das empresas no Brasil. Conheça as profissões em que a falta é maior

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postado em 24/03/2014 09:37 / atualizado em 24/03/2014 09:43

Mariana Niederauer

Marcelo Ferreira

Mais de 90% das empresas têm dificuldade em contratar profissionais no Brasil, de acordo com pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC). E a carência atinge todos os níveis: de graduados a técnicos, passando por motoristas, secretárias e assistentes. Grande parte dessas organizações tem diminuído as exigências para preencher os postos de trabalho, e a falta de capacitação é apontada como o principal motivo para a existência de vagas ociosas.


O professor Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da FDC e responsável pelo estudo, observa que o quadro de falta de mão de obra especializada se manteve desde a última pesquisa, em 2010. “Essa carência forma um paradoxo, porque, ao mesmo tempo em que se tem uma situação de desemprego baixo, a oferta de mão de obra não é de qualidade”, afirma. A principal diferença de três anos atrás, segundo ele, é que a carência se intensificou em áreas que exigem qualificação maior. Se antes os técnicos generalistas eram os mais procurados, hoje, ganham espaço no mercado aqueles que têm formação específica, como os que atuam na linha de produção com trabalho manual e os preparados para montar equipamentos de tecnologia de alta precisão.


É o caso de Miquéias Soares Negre, 22 anos. Ele se formou no curso de técnico em eletrônica na Escola Técnica de Brasília (ETB), onde aprendeu os princípios básicos da profissão. Enquanto ainda estava estudando, resolveu se candidatar a uma das diversas vagas de estágio expostas no mural da escola e foi selecionado. “A maioria das coisas eu aprendi aqui, a parte de conhecer componentes e a tecnologia em si”, afirma. Depois de receber a certificação, ele foi contratado pela Wise Indústria de Telecomunicações e, hoje, domina a montagem dos equipamentos comercializados pela empresa.

Antonio Cunha
 

No topo da lista de trabalhadores mais difíceis de contratar, segundo a pesquisa da FDC (veja o quadro), estão profissionais como Eliane Rosa, 34 anos, compradora na rede de supermercados Comper. Entre as funções que exerce estão as de avaliar e identificar a necessidade de abastecimento das lojas, analisar o giro da mercadoria e buscar fornecedores em potencial. “Escolhi essa área devido ao dinamismo e também pelo alto conhecimento que ela tem a oferecer. A cada dia aprendo um pouco mais”, relata. No fim do ano, ela vai concluir a graduação em administração, formação mais comum para funcionários do ramo. O gerente comercial da rede de supermercados Daniel Pereira Barbosa confirma que esse tipo de mão de obra está escassa e costuma ser bem valorizada. “É um profissional que você precisa cuidar, senão o mercado o tira de você.”

Quadro mundial
A última pesquisa anual sobre escassez de talentos do ManpowerGroup, empresa de recrutamento, gestão e contratação de pessoas, reforça a reclamação das corporações. O Brasil é o segundo país onde as organizções têm mais dificuldade de contratação: 68% dos empregadores entrevistados disseram enfrentar esse problema. O primeiro colocado do ranking de 42 nações e territórios é o Japão (85%). A diretora de Recursos Humanos da empresa no Brasil, Márcia Almström, lembra, no entanto, que o país oriental enfrenta um quadro de envelhecimento da população, o que contribui em grande parte para o alto percentual. “O desafio da educação e da formação técnica realmente reside no Brasil”, destaca. A pesquisa mostrou que os profissionais mais procurados são aqueles formados em cursos técnicos com dois anos de duração, seja em cargos de alto escalão, seja em funções operacionais.


Para a especialista, o Brasil vive um período que é resultado da formação insatisfatória de jovens no nível superior e do desinteresse deles tanto pelos cursos técnicos quanto pela área de exatas. Ela reconhece que existem iniciativas concretas, por parte do governo e do setor privado, para mudar esse quadro, mas a solução não será imediata. “Vamos colher os frutos dessas iniciativas, mas não a curto prazo, de seis meses a um ano. Levará de três a cinco anos. E esse é um dado coerente, porque não conseguimos formar as pessoas na mesma velocidade que se precisa”, avalia.


Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), critica o fato de boa parte dos postos de trabalho criados hoje serem de baixa qualificação e, por isso, com custo de investimento em treinamento quase inexistente. “Os empresários demandam maior qualificação, mas não oferecem salários e condições de trabalho adequadas a essa remuneração”, afirma. “A capacitação, em grande medida, ocorre no próprio espaço de trabalho e, muitas vezes, as empresas não estão dispostas a arcar com esse custo”, completa.


Oferecer remunerações atrativas para conseguir atrair os profissionais é um dos grandes desafios dos setores de Recursos Humanos hoje, conforme destaca Márcia Almström, do ManpowerGroup. Esse esforço deve fazer parte de um pacote completo de benefícios, como ambiente interno e opções de progressão na carreira. Ela afirma que as empresas não têm outra opção senão oferecer capacitação internamente. “É preciso qualificar as pessoas para que elas garantam a produtividade hoje. E, para não perdê-las, é necessário continuar capacitando, para não jogar fora o que investiu”, diz. Márcia ressalta, no entanto, que essa deve ser uma responsabilidade compartilhada entre empresas, governo, instituições de ensino, sindicatos e os próprios trabalhadores. “Se todos esses agentes trabalharem na mesma direção, vamos superar de forma mais efetiva essa lacuna.”

Cautela
O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Divonzir Gusso argumenta que é preciso ter cautela ao avaliar a reclamação das empresa de que falta mão de obra. Ele explica que o fato de as organizações não encontrarem candidatos que preencham todos os requisitos de um cargo oferecido não significa necessariamente que o país tem carência desse tipo de trabalhador. “Você não está encontrando profissionais no perfil que você quer, e isso não é escassez aguda de mão de obra qualificada, não é persistente”, destaca.


Gusso lembra ainda que, com o ciclo de crescimento apresentado pelo país ao longo dos anos 2000, grande parte da mão de obra foi empregada e as taxas de desemprego diminuíram. A qualidade de vida da população melhorou — hoje, a classe média investe mais em saúde e beleza e em bens de consumo — o que impactou também no mercado de trabalho. Os profissionais passaram a exigir salários maiores, que nem sempre correspondem ao que as organizações estavam habituadas a pagar. “A escassez ocorre quando, em algumas ocupações, aparecem pessoas que não querem trabalhar pelo salário que o empregador tem a oferecer. Essa é uma variedade de escassez. Não é persistente, mas pontual e episódica no Brasil”, afirma.

 

 

 

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