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Mercado acusa falha na formação

Empresários procuram profissionais com espírito empreendedor e preparados para mudanças, mas encontram trabalhadores que têm dificuldade em fazer contas e escrever

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postado em 14/04/2014 10:00 / atualizado em 14/04/2014 10:52

Mariana Niederauer

Breno Fortes

As empresas estão cada vez mais exigentes na hora de contratar: querem não só um funcionário que domine os conhecimentos técnicos necessários para exercer a função, mas também que tenha a capacidade de empreender dentro da organização e de se adaptar às mudanças constantes pelas quais o mercado passa, principalmente as tecnológicas. No entanto, grande parte dos jovens saem da escola com dificuldade para se comunicar e falar em público, escrever, fazer cálculos e interpretar tabelas. Na última reportagem da série sobre educação profissional, o Correio mostra como as falhas na formação básica atrapalham o desempenho na carreira.

Os irmãos Lucas, 19 anos, e Danielle Gino, 21, sentiram essa dificuldade assim que terminaram o ciclo escolar básico, que cursaram em escolas públicas. “Sempre tive problema de aprendizado, mas isso não foi notado pelos professores. Precisei me esforçar para seguir o mesmo ritmo dos outros alunos. Passei por seis escolas públicas e reprovei quatro vezes só no ensino fundamental”, conta Lucas. Hoje, ele trabalha como assistente administrativo durante o dia e cursa gestão comercial à noite. Os custos da faculdade são pagos pela comunidade da igreja que frequenta. “Quando entrei para o mercado, eu tive uma dificuldade muito grande. No começo, senti muita falta de português: usar a pontuação, saber conversar e levar um diálogo, escrever uma redação. Ao entrar na faculdade, melhorou 80%”, relata.

Danielle, 21 anos, conseguiu passar sem dificuldades por todos os anos da educação básica, mas percebeu as lacunas na formação logo que saiu da escola. “O ensino médio na escola pública não te prepara para a faculdade nem para o mercado de trabalho. Quando eu saí e fiz a prova do Enem, não tinha base nenhuma. Tive que estudar por conta própria”, diz. Em 2012, ela prestou o Enem mais uma vez e conseguiu uma bolsa de estudos para o curso de publicidade por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni). Agora, trabalha como operadora de telemarketing e estuda à noite. Ela acredita que a principal falha na formação é o inglês e sabe que terá de aprimorar esses conhecimentos para conseguir uma oportunidade na área do curso que escolheu. “Eu ainda não procurei estágio, pois preciso trabalhar para me sustentar, mas já sei que não tenho todos os requisitos para preencher a vaga, por causa do inglês.”

Lula Lopes
 

 

Para o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), José Fernandes de Lima, a formação profissional, hoje, requer muito mais os conhecimentos básicos do que no passado, para que o trabalhador tenha condições de acompanhar as mudanças rápidas da tecnologia.  “Quando o funcionário ficava só repetindo uma tarefa, você podia se dar ao luxo de simplesmente treiná-lo para executá-la, mas esse tipo de trabalho praticamente não existe mais.”

Eleonora Ricardo, presidente da Associação Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Anitec), descreve esse profissional como um trabalhador do conhecimento, atento às mudanças que ocorrem de forma global e local. O que se vê no mercado, no entanto, está longe desse quadro ideal. “Muitas vezes, os trabalhadores chegam às empresas sem saber escrever, fazer a leitura crítica de um texto, uma conta, ou ter conhecimento aplicado sobre o que aprendem na escola na área de ciências”, observa.

Além do conteúdo
Recentemente, o Instituto Ayrton Senna e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes) firmaram parceira com o objetivo de reparar as lacunas no aprendizado de habilidades não cognitivas, ou socioemocionais. Será criado um programa de bolsas de estudo para que pesquisadores e professores se aprofundem no tema. “Vários estudos internacionais realizados por diversos pesquisadores de renome mostram que essas habilidades, quando incorporadas nos processos pedagógicos das escolas, podem causar impacto escolar e na vida futura do ponto de vista profissional”, explica o Diretor de Articulação e Inovação do instituto, Mozart Neves Ramos.

Entre as competências que podem ser incentivadas durante o período escolar, estão organização, responsabilidade, disciplina e esforço, todas muito valorizadas pelo mercado de trabalho. “Hoje, não basta ser um brilhante estudioso em uma área, mas que não compartilha, não sabe trabalhar em equipe e não tem estabilidade emocional. Esses são valores muito caros e asseguram não só o acesso, mas também a permanência no mercado”, finaliza Ramos.

A busca por essas características tem incentivado as companhias a contratarem trabalhadores com perfil empreendedor, e para atuarem em todos os níveis hierárquicos. “As empresas estão buscando profissionais que tenham uma postura empreendedora, que estejam a todo tempo procurando oportunidade de negócio e pensando em inovações, que podem ser ligadas tanto a produtos quanto a processos”, destaca Tales Andreassi, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).

Braços fortes

A construção civil foi um dos setores da economia que mais sofreu com a falta de mão de obra qualificada desde que esse problema começou a ser mais discutido entre empresários, por volta de 2010 e até mesmo antes disso. A formação escolar básica deixa a desejar principalmente no nível da produção, em que trabalham serventes, pedreiros e carpinteiros, por exemplo. “A educação básica que o trabalhador tiver na escola, mesmo que não seja a educação para obras, já diminui os acidentes”, exemplifica Dionyzio Antonio Martins Klavdianos, diretor setorial de Materiais, Tecnologia e Produtividade do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do DF (Sinduscon-DF).

Há mais de 20 anos, o Serviço Social da Indústria da Construção Civil do DF (Seconci-DF) iniciou um projeto de alfabetização dos operários nos canteiros de obra, onde são instaladas salas de aula. As empresas bancam os custos da formação. Cícero Barbosa da Silva, 37 anos, aproveitou a oportunidade para retomar os estudos. Ele trabalha como bombeiro hidráulico em uma das obras da construtora Faenge, que participa do programa desde 2010, e conta que, em algumas ocasiões, precisou recomeçar o corte de canos por falta de domínio da matemática. “Muitas vezes os cálculos davam errado, hoje, eu acerto”, diz. Cícero começou a atuar no ramo aos 15 anos de idade. Agora, com a volta à escola, não pensa mais em parar. “Quando sair daqui, quero terminar o ensino médio e pretendo fazer faculdade também”, relata.

 

 

 

Um projeto para o país

Melhorar a qualidade da educação no país significa não apenas definir que conteúdo as crianças e jovens devem aprender na escola, mas também escolher o projeto de nação para o futuro. Para isso, a diretora executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, acredita que o primeiro passo é determinar de forma clara o que deve ser ensinado nas escolas. “Precisamos definir o que queremos que nossos jovens saibam e conheçam e quais as habilidades queremos que eles desenvolvam”, diz.

Segundo ela, é necessário que se defina um currículo nacional para a educação, de maneira a determinar inclusive as competências que o mundo do trabalho exige e que devem ser garantidas por meio de aprendizado na escola. Essas diretrizes também ajudarão a guiar a formação e o trabalho dos professores em sala de aula.

Dados do último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) mostram que a maioria dos jovens brasileiros de 15 anos estão nos níveis mais baixos (abaixo de 1, 1 e 2) de proficiência em matemática, leitura e ciências. Na classificação geral, o Brasil ficou na 58ª posição entre 65 países e economias. No início do mês, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou mais um resultado do Pisa. Desta vez, foi avaliada a habilidade de estudantes em resolver problemas de raciocínio lógico relacionados a situações práticas do cotidiano, e o Brasil ficou em 38° lugar entre os 44 países (veja o quadro).

“O grande problema da nossa educação tem a ver com o atraso com que o país começou a investir na área. Enquanto outras nações já tinham eliminado o analfabetismo no século 19, nós chegamos ao século 21 ainda convivendo com analfabetos, pessoas fora da escola e lugares em que nem há oferta de ensino ainda”, avalia o José Fernandes, presidente do CNE. O desafio, portanto, é dobrado, pois, além de aumentar a oferta, o Brasil precisa melhorar a qualidade do ensino. “A melhoria da qualidade da educação no nosso país não será alcançada com uma receita milagrosa. Na realidade, é um conjunto de ações. Precisamos ampliar recursos, aprimorar a gestão, o relacionamento com os alunos, o currículo e a formação de professores. Temos ainda que definir responsabilidades e cobrar resultados”, finaliza.

Nesse sentido, a aprovação do Plano Nacional da Educação (PNE) é de extrema importância, pois permitirá, por exemplo, que a população cobre a aplicação dos recursos. “Se o PNE for 80% cumprido, já mudaremos muito a educação”, diz Priscila Cruz.

10 anos
O texto do Plano Nacional de Educação tramita no Congresso Nacional há três anos. O Senado já votou a proposta, que retornou à Câmara dos Deputados. Depois de ser adiada várias vezes, a votação está marcada para 22 de abril. O projeto traça metas para educação a serem cumpridas nos próximos 10 anos. Um dos pontos mais polêmicos é a aplicação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em educação, percentual defendido por entidades da área.

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