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Correio Braziliense

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Reforma no ensino

Para melhorar os cursos técnicos

Expandir o acesso à educação profissionalizante mantendo a qualidade é um dos maiores desafios para o avanço desse tipo de formação. Outra demanda é ter capacitações com maior envolvimento com o mercado de trabalho

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postado em 10/10/2016 16:36 / atualizado em 23/10/2016 13:35

Ana Paula Lisboa

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press

 

Assim como no ensino superior e na educação básica, há muito a avançar quando se trata da formação profissionalizante no Brasil. O desafio é expandir e conciliar quantidade e qualidade. Há várias ideias e propostas do que pode ser feito nesse sentido. Tramitam na Câmara dos Deputados, desde 2006, 34 projetos de lei (PL) que se relacionam, de alguma maneira, com o ensino técnico, de acordo com levantamento do Movimento Todos pela Educação (TPE). Um deles foi o PL nº 6840/2013, que transforma o ensino médio em integral e dá opção de escolhas entre eixos de formação — profissionalizantes ou não. A ideia foi aproveitada pelo Poder Executivo e transformada numa medida provisória.

Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), cita a reforma do ensino médio e iniciativas no estilo do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) como os dois principais caminhos para revolucionar a educação profissionalizante brasileira. “A mudança do ensino médio será um avanço, pois teremos um sistema diversificado e flexível. A proposta não sanará todos os problemas, mas ajudará a resolver uma realidade de exclusão.”

Entre as vantagens do Pronatec, Lucchesi cita os resultados de curto prazo. “Antes, apenas 6% dos jovens faziam educação profissional — número que saltou para 11% com o Pronatec. Mas isso ainda é insuficiente”, analisa. Outra discussão que deve afetar esse tipo de curso é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

O coordenador do Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza — que integra a rede técnica estadual de São Paulo —, Almério Melquíades Araújo, opina que, para avançar na área, o país precisa adotar medidas mais definitivas. “Tivemos muitos programas — quase emergenciais —, mas a solução precisa ser uma definição de Estado e uma reserva de orçamento que chegue ao ensino técnico”, propõe. “A reestruturação do ensino médio lançada pelo Ministério da Educação (MEC), que proporciona uma flexibilização do período também é interessante para formar pessoas mais competitivas e interessadas.”

Já Remi Castioni, doutor em educação, coordenador do mestrado profissional em educação profissional na Universidade de Brasília (UnB), discorda da eficácia do plano. “Eu me preocupo com essa ideia porque poucas escolas sabem proporcionar educação profissional com qualidade e prática.”

Impacto empregatício
O PL nº 5834/2016, do deputado federal Moses Rodrigues (PMDB/CE), cria uma medida de estímulo à contratação de trabalhadores beneficiários do Pronatec. A proposta estipula subvenção econômica a empresas que deem oportunidade de emprego a pessoas que fizeram cursos pelo programa. “A formação técnica estava abandonada, e o Pronatec funcionou bem, dando capacitação com rapidez. O problema é que não existe um link entre o curso e o mercado”, diz o parlamentar, que foi relator do Plano Nacional de Educação (PNE).

Na visão dele, é importante que o Estado atue no controle, no acompanhamento e na fiscalização das escolas técnicas para garantir a qualidade. Outro elemento fundamental é oferecer formações conectadas a demandas reais. “No Ceará, havia o plano de instalar uma refinaria da Petrobras. Várias escolas abriram cursos na área de petróleo e gás. Só que a obra foi cancelada e, agora, temos pessoas com diploma na mão, mas sem trabalho”, exemplifica.

Segundo Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai, a aproximação com o mercado de trabalho é fundamental para oferecer educação profissionalizante — algo muito forte no Sistema S. “A governança do Senai é das indústrias. Só isso assegura um DNA antenado com as demandas da realidade”, informa.

Palavra de especialista
Realidade brasileira

Temos uma rede de educação profissional altamente capaz; principalmente no Sistema S. Os institutos federais (IFs) ainda são muito acadêmicos e descolados do mercado. O que sobra nos Ifs — teoria — falta às escolas do Sistema S, que poderiam ter uma parte mais acadêmica. Um modelo de educação profissional é notável quando permite a aplicação do que é aprendido, mas com bases fundamentadas.

O formato principal de ensino técnico no mundo é o alemão. Há ainda o formato anglo-saxão e o australiano, em que o estado não tem muita participação.O germânico é dual, e há atividades desenvolvidas num espaço educativo e a validação na prática nas empresas; com aprendizagem profissional.

Nesses países, a educação profissional só acontece depois da básica. Não foi preciso integrar formação técnica ao ensino médio para ter êxito. Lá, as instituições de ensino podem usar os laboratórios das fábricas. Para ter essa aproximação entre educação e mundo do trabalho no Brasil, precisaríamos mudar a legislação. A Lei de Estágio e a Lei de Aprendizagem, hoje, são só para inglês ver.
Remi Castioni, doutor em educação, coordenador do mestrado profissional em educação profissional na Universidade de Brasília

Qualidade e quantidade
“O Brasil sabe fazer uma excelente preparação de educação profissional. A última edição da WorldSkills — maior competição de profissões técnicas do mundo, em que o país foi o grande campeão — é um claro indicador”, observa Rafael Lucchesi. No entanto, há degraus a subir. Lucchesi cita o fato de apenas 11% dos jovens brasileiros cursarem educação profissional concomitantemente com a regular como um sinal de alerta. A média entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que são majoritariamente de renda alta, é acima de 50%. “Nesse sentido, temos muito a crescer. Até porque, 17% dos jovens vão para a universidade. Temos mais de 80% que ficam de fora, e o sistema educacional deveria ter caminhos de saída para todos.”

Para o diretor-geral do Senai, a expansão da rede federal de ensino técnico é bem-vinda, mas ele ressalta que o grau de cobertura dela é baixo. “São instituições excelentes e devem continuar sendo reforçadas. As escolas do Sistema S são outros atores relevantes com alto grau de excelência”, diz. “No entanto, a maior parte dos alunos está nas redes estaduais — que, muitas vezes, têm deficiências grandes”, diz. Sobre o nível de qualidade da educação profissionalizante, o coordenador do Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza, Almério Melquíades Araújo, analisa que há muito a avançar. “Se o país tem problemas de competitividade e produtividade — e, consequentemente, desenvolvimento —, é porque nossa mão de obra precisa melhorar”, observa.

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
A instituição que ele representa é referência quando se trata de educação profissionalizante e se trata de uma autarquia do Governo de São Paulo, que administra 220 Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) e 66 Faculdades de Tecnologia (Fatecs), reunindo mais de 290 mil alunos em cursos técnicos e superiores tecnológicos, em mais de 300 municípios paulistas. Com relação ao alcance do ensino técnico no país, Almério avalia que “a quantidade de pessoas na faixa etária de 14 a 18 anos cursando ensino profissional em conjunto com o médio, que fica em torno de 9%, é muito baixa em comparação com Argentina e Uruguai (25%), Chile e Cuba (mais de 40%).”

Na opinião dele, um indicativo de como o Brasil está aquém do necessário é que o Centro Paula Souza atende apenas 20% dos jovens que têm interesse nesse modelo. “Nos institutos federais, é a mesma coisa. A relação candidato / vaga fica de 5 / 1 para cima Brasil afora”, comenta. “Temos essa dívida com os jovens e precisamos continuar o processo de ampliação da rede de ensino técnico”, percebe.

Adão Noé Marcelino, vice-diretor da Escola Técnica de Brasília (ETB), alerta que a solução talvez não esteja apenas em aumentar a oferta. “Temos muitas instituições — Sistema S, institutos federais, escolas técnicas e muitas outras —, mas falta às pessoas uma visão da realidade de que o ensino técnico é um caminho válido. Há muitas vagas de emprego que não são preenchidas porque não se acha pessoas qualificadas. Estamos às vésperas de um apagão tecnológico”, prevê.

“É uma visão equivocada e distorcida pensar que o único caminho para o sucesso profissional é a universidade. Diversas profissões técnicas têm salário inicial bem atrativo, perto de R$ 2 mil. Com seis anos de carreira, várias áreas têm remunerações que se aproximam de R$ 10 mil”, elucida Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai.

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Experiência brasiliense
Fundada em 1996 e localizada na Vila Areal, em Águas Claras, a Escola Técnica de Brasília (ETB) atende, atualmente, 2.886 alunos em quatro cursos técnicos: informática, eletrônica, eletrotécnica e telecomunicações. Vice-diretor da ETB, Adão Noé Marcelino, revela que o método de ensino da instituição é teórico e prático, e um diferencial é que todos os cursos têm estágio supervisionado obrigatório. “Outro fator de distinção é que os professores são graduados na área, diferentemente de outras escolas em que pegam técnicos para darem aula. Não sou contra isso: o resultado pode ser brilhante. Mas se o corpo docente domina apenas a prática, a teoria fica em falta”, observa.

Os estudantes que fazem curso técnico precisam ter boa base prática, mas, também, conhecimento teórico consolidado, é o que acredita o professor do curso técnico em eletrônica da ETB Izaias Cabral. Para isso, ele defende que seja feito um controle rigoroso do tamanho das turmas, que não devem ser muito grandes, “para que o professor possa acompanhar os alunos de perto”.

Marlete Maria da Silva, professora do curso técnico em informática da ETB, acredita que o investimento na formação continuada dos docentes também é fundamental. Um dos grandes desafios para a qualidade do en sino apontado pelos professores está nos conhecimentos anteriores dos estudantes. “Você vai dar uma aula de eletricidade básica, que trabalha muito com número decimal, e tem que fazer uma revisão geral com disciplinas lá do ensino médio ou fundamental”, comenta Marlete.

Um dos projetos da escola técnica é o Robótica assistida, programa multidisciplinar oferecido no contraturno das aulas. O plano é que, no futuro, a ETB capacite professores da rede distrital para que o conteúdo de robótico seja multiplicado em escolas de nível fundamental e médio.

Oportunidades abertas
O próximo processo classificatório da ETB deve abrir inscrições para vagas em cursos técnicos entre 17 e 21 de outubro. A prova será em 20 de novembro. Informações:
www.etb.com.br.



Conheça histórias de alunos da Escola Técnica de Brasília

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
Sonho de estudar
José Augusto Borges de Araújo, 29 anos, é de Teresina, mas já vive há 16 anos no Distrito Federal. Surdo de nascença, conseguiu um implante coclear pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, depois de passar a ouvir, aproveitou para estudar e está no quarto semestre do curso técnico em informática. “Amo muito desenvolvimento web e programação java”, descreve. Quanto à ETB, só tem coisas boas a falar, apesar do nível de dificuldade do curso que, segundo ele, é igual para todos. “A escola é muito boa, eles ensinam superbem”, diz ele, que pretende fazer faculdade de ciência da computação ou pedagogia.

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
Eletrônica para mulheres
Aos 19 anos, Railla Lima terminou o ensino médio há dois anos e está finalizando o curso técnico em eletrônica. Embora seja uma área predominantemente masculina, ela não sofre preconceito em sala de aula. “Sinto mais por pessoas que não conhecem o curso”, afirma ela, que pretende trabalhar com manutenção de equipamentos eletrônicos em centros médicos enquanto faz graduação em enfermagem. O interesse surgiu a partir de projetos voltados a tecnologias assistivas desenvolvidos na ETB, como uma carrinho que leva medicamentos a pacientes com dificuldades de locomoção. “Em termos de professores e estrutura, a ETB é maravilhosa”, analisa.

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
Para começar a trabalhar
Aluno do curso técnico em eletrônica, Samuel Gomes Ferreira, 19 anos, conheceu a escola técnica por meio de um amigo. Morador de Valparaíso de Goiás, busca a capacitação como forma de garantir inserção no mercado. “O meu foco é começar a trabalhar assim que me formar para pagar a faculdade de engenharia eletrônica. Quero continuar na área, e esse curso está me favorecendo bastante”, relata. Segundo ele, a notoriedade da instituição se dá devido à excelência dos professores. O jovem acredita que o ensino técnico está ao alcance de todos. “Não é difícil, mas tem que se dedicar e estudar.”

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
Depois da aposentadoria
Evaldo Celso de Oliveira, 65 anos, é militar reformado e está no quarto e último semestre do curso técnico em eletrônica. “Eu sempre fui muito curioso e fiz experimentos em casa. Mas agora estou mais entusiasmado: o que eu puder consertar, eu vou”, avalia ele, que faz estágio atualmente. Embora não tenha certeza se atuará na área, acredita ter recebido uma boa educação para tanto. Para ele, um bom ensino técnico começa com um corpo docente qualificado, mas é preciso também empenho do estudante. “Falta técnico no Brasil, mas as escolas estão abertas, os jovens precisam ser mais incentivados a fazerem os cursos que o Brasil oferece”, completa.

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press
De olho no mercado
Sabrina Lady Silva Mendonça, 18 anos, entrou no curso técnico em informática por sugestão do pai. A estudante visa cursar direito na Universidade de Brasília. “Meu plano é conciliar as duas coisas e quero trabalhar com programação também”, diz. “Acho que as pessoas não dão muita importância para o curso técnico. Eu também não dava, mas, depois que entrei na ETB, percebi o quanto posso crescer na área. Às vezes, os estudantes focam muito na faculdade, sendo que podem fazer um curso técnico e se saírem até melhor.”

Colega de Sabrina, Italo Vinicius Neves Cordeiro, 17 anos, entrou no curso técnico em informática motivado pela família e prevê boas possibilidades de conseguir um bom emprego devido ao reconhecimento da escola e pelo fato de a área escolhida ter alta demanda por profissionais. “A maioria dos lugares precisa de alguém para fazer manutenção de computador”, observa. Na opinião do jovem, um bom curso técnico deve oferecer bons docentes e uma estrutura adequada. “Não precisa ser o melhor computador, mas se você garante um bom material e um excelente professor, o resto é garantido.”

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