Justiça garante paridade na UnB

Juiz derruba liminar que determinava peso de 70% ao voto de docentes na eleição para reitor da Universidade de Brasília

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postado em 09/08/2012 19:05

Manoela Alcântara

A Justiça Federal derrubou ontem a liminar concedida à Associação de Docentes da Universidade de Brasília (AdUnB), que pedia o fim da paridade nas eleições para reitor na instituição. Dessa forma, o pleito volta a repetir o modelo adotado em 2008, quando o voto de professores, funcionários técnicos administrativos e estudantes tiveram o mesmo peso, mantendo deliberação do Conselho Universitário (Consuni), em 1º de junho. A decisão foi tomada pelo juiz federal Marcelo Dolzany da Costa, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, convocado para relatar o processo.

A liminar havia sido concedida na última quarta-feira e deixou incerta a votação, a menos de um mês para ocorrer. Caso fosse mantida, o peso dos docentes seria de 70%, cedendo 15% aos outros dois segmentos. Além disso, a lista tríplice deveria, necessariamente, ser vinculada aos votos da comunidade acadêmica. A notícia da decisão de Dolzany da Costa foi divulgada pelo vice-reitor, João Batista de Sousa, durante o primeiro debate entre os candidatos, ocorrido no auditório da Faculdade de Tecnologia (leia ao lado).

Aeleição do novo reitor da UnB ocorrerá em um cenário de greve e com muitos candidatos. As 10 chapas inscritas trabalham em condições atípicas para divulgar as propostas. Para alcançar todos os segmentos — professores, estudantes e servidores técnicos administrativos —, os concorrentes adotaram estratégias de campanha diferenciadas. A maioria investirá nas redes sociais, em blogs e em sites. Outros tentam aproveitar a paralisação para reunir lideranças. O uso de panfletos e de cartazes também será adotado.

Volnei Garrafa tem se diferenciado com a internet. Professor da Faculdade de Ciências e Saúde, inscrito pela chapa Viver UnB, ele apresenta em conteúdo virtual um perfil completo e todas as atividades das quais faz parte na instituição; as propostas para os mais diferentes setores; categorias que conversa e reuniões. Além disso, não perde a oportunidade de interagir pessoalmente com os futuros eleitores. “Somos contra a greve do pijama. A nossa chapa aproveita o momento para fazer o trabalho corpo a corpo. Além disso, estamos nas redes sociais, temos um site e um blog”, afirmou Garrafa.

A candidata pela chapa Gira UnB para uma nova gestão, Maria Luisa Ortiz, segue a proposta. Tem na internet um blog, com vídeos, entrevistas e panfletos com datas de eventos. “A nossa chapa quer retomar o modelo pensado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, de uma universidade necessária. Para mostrar os nossos ideais, faremos uma campanha virtual, em virtude da greve”, disse a diretora licenciada do Instituto de Letras.
Há ainda quem conte com o apoio de diversos segmentos para disseminar as propostas de campanha. Paulo César Marques, da UnB+50, aposta no diálogo presencial e virtual para consolidar um programa coletivo. “Queremos organizar fóruns de discussão para conversar e ouvir a comunidade, não só durante a campanha, mas também ao longo de todo o nosso reitorado”, disse o especialista em transporte.

Radicalmente contra a greve, que completa hoje 80 dias, a concorrente pela chapa Uma reitoria valente para honrar a UnB, Ana Valente, ressalta que a paralisação compromete a disseminação das propostas. Ela acredita que está na hora de a categoria aceitar a proposta do governo e negociar dentro das salas de aula. “A UnB está esvaziada, e os alunos estão sendo prejudicados. Teremos que fazer um esforço para mobilizar alunos, professores e técnicos no dia da votação”, disse a professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária.

Fragmentação

A campanha de Ivan Camargo, da chapa UnB somos nós, será modesta, realizada com a ajuda de servidores, estudantes e docentes parceiros. “O financiamento foi feito exclusivamente da doação de professores que acreditam neste projeto. A estratégia de campanha está baseada na visita às diversas áreas e no diálogo com todos os segmentos da comunidade acadêmica”, completou o professor da Faculdade de Tecnologia.

Muitos concorrentes ao cargo de reitor atribuem o grande número de chapas inscritas à fragmentação existente hoje na UnB. Embora alguns tenham propostas parecidas, não houve a intenção de aglutinar capacidades. Gustavo Lins, do Departamento de Antropologia,defenderá esse entendimento durante a campanha. “Discutirei ideias e propostas e a capacidade de implementá-las. A minha gestão será voltada ao diálogo e à ampliação do consenso democrático. Não atacarei os colegas em disputa”, ressaltou o concorrente pela Inova UnB.

Denise Bomtempo, da Inovação e Sustentabilidade, une vários conceitos em um só modelo de apresentação de propostas. A ex-decana de pesquisa e de pós-graduação investe no uso das redes sociais, visitas e debates com docentes. “Faremos também a divulgação de cartazes e panfletos da chapa, cujo programa contém 32 páginas com propostas para os problemas da UnB.”

O professor João Batista de Sousa, atual vice-reitor da UnB, não detalhou as estratégias adotadas, mas ressaltou que trabalhará para a continuidade de diversos pontos iniciados pela atual gestão. “Defenderei propostas, ideias e valores. Nada mais”, afirmou o integrante da UnB: excelente e solidária. Marcia Abrahão, da chapa O amanhã fazemos juntos, e Sadi Dal Rosso, da Construindo a unidade, foram procurados diversas vezes pela reportagem, mas optaram por não responder às perguntas.

A partir de amanhã, o Correio publicará uma série de reportagens sobre os desafios de quem for eleito no pleito dos dias 22 e 23 de agosto. Oito candidatos falarão sobre propostas em áreas polêmicas como a segurança, a jornada de trabalho para servidores, benefícios para alunos entre outros.

Os concorrentes


Candidato: Volnei Garrafa, professor da Faculdade de Ciências e Saúde Vice: Luis Afonso Bermúdez Chapa: Viver UnB Estratégia de campanha: contato direto com professores, servidores e representantes dos estudantes. Uso das redes sociais

Candidata: Ana Valente, professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária Vice: Lúcia Helena Silva Chapa: Uma reitoria valente para honrar a UnB Estratégia de campanha: acredita que a greve prejudica o pleito e a exposição das propostas. Sugere uma força-tarefa para reunir alunos, docentes e técnicos no dia das eleições

Candidato: Paulo Cesar Marques, coordenador do programa de pós-graduação em transporte Vice: Antônio Sebben Chapa: UnB +50 Estratégia de campanha: organizar fóruns de discussão presenciais e virtuais com os diversos segmentos, além de ouvir a comunidade

Candidato: João Batista de Sousa, atual vice-reitor da UnB Vice: Wellington de Almeida Chapa: UnB: excelente e solidária Estratégia de campanha: defender propostas, ideias e valores

Candidato: Ivan Camargo, professor da Faculdade de Tecnologia Vice: Sônia Báo Chapa: UnB somos nós Estratégia de Campanha: baseada na visita às diversas áreas e no diálogo com todos os segmentos da comunidade acadêmica

Candidato: Gustavo Lins, do Departamento de Antropologia Vice: Flavio Botelho Chapa: Inova UnB Estratégia de campanha: Discutirá ideias e propostas, além da capacidades de implementá-las, sem atacar os colegas que disputam o pleito

Candidata: Maria Luisa Ortiz, diretora licenciada do Instituto de Letras Vice: Maria de Fátima Makiuchi Chapa: Gira UnB para uma nova gestão Estratégia de campanha: por meio de blogs, sites e redes sociais, em decorrência da greve. Investimento também no contato com a comunidade

Candidata: Denise Bomtempo, ex-decana de pesquisa e de pós-graduação Vice: Noraí Rocco Chapa: Inovação e sustentabilidade Estratégia de campanha: redes sociais, contatos, visitas e debates com docentes, servidores técnicos administrativos e estudantes

Candidata: Marcia Abrahão, ex-decana de graduação Vice: Marcelo Bizerril Chapa: O amanhã fazemos juntos Estratégia de campanha: não respondeu à reportagem

Candidato: Sadi Dal Rosso, professor de sociologia Vice: Maria Lúcia Leal Chapa: Construindo a unidade Estratégia de campanha: não respondeu à reportagem

Debate e protesto

As discussões e os espaços cedidos pela universidade para disseminar as propostas dos candidatos à Reitoria também serão essenciais nas campanhas das 10 chapas inscritas. Ontem, o primeiro debate lotou o auditório da Faculdade de Tecnologia da UnB. As 240 cadeiras do local não foram suficientes e muitos ficaram em pé. Houve polêmica quando foram colocadas em pauta a questão da paridade, os investimentos do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação, a Expansão das Universidades Federais (Reuni), e a qualificação dos servidores técnicos administrativos. Cada candidato teve três minutos para se apresentar e responder às perguntas.

O sorteio para definir a ordem dos candidatos foi realizado por uma criança da plateia. Os concorrentes ao cargo de reitor iniciaram as apresentações pouco depois do horário previsto no regimento, às 16h15. Depois de poucos minutos do início, a luz acabou e alguns espectadores aproveitaram para se manifestar. “Democracia, não abro mão. Sem paridade, não voto não”, gritaram alguns estudantes, com pandeiros em mãos.

No segundo bloco, as perguntas ocorreram entre os candidatos. Também por meio de sorteio, eles aproveitaram para enfatizar as políticas para alunos, servidores e docentes e falaram sobre modernização do sistema da universidade, entre outros. O público presente teve espaço fundamental no terceiro bloco ao elaborar perguntas retiradas de uma urna por cada concorrente. Entre as preocupações dos participantes estava a contrapartida da bolsa-permanente, novamente a paridade, política habitacional, cotas raciais e temas diversos. Cada um expôs as suas propostas.

As entidades representativas dos três segmentos também participaram. Representantes da Associação dos Docentes da UnB (ADUnb), do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) também elaboraram um questionamento para todos os concorrentes responderem. Eles perguntaram o que seria feito para acabar com o deficit no orçamento da universidade em 2012, de R$ 70 milhões. Alguns falaram sobre trabalhar sem exceder limites. Outros sobre parcerias com entidades públicas e privadas para aumentar o capital da universidade. No quinto bloco, os postulantes finalizaram a participação no debate. (RA e MA)

As eleições ocorrerão em 22 e 23 de agosto

. Com a queda da liminar concedida à AdUnB, o voto de professores, funcionários técnicos administrativos e estudantes voltaram a ter o mesmo peso. Antes da votação, a comunidade assistirá a dois debates.

. O próximo será em 15 de agosto, às 19h, no Centro Comunitário da UnB.

. Só haverá segundo turno se nenhuma das chapas tiver maioria absoluta (50% + 1) dos votos. A previsão é de que ocorra em 11 e 12 de agosto, com decisão entre os dois candidatos preferidos.
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