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Trabalho

Brasília concentra metade das vagas

De cada 100 postos ocupados em todo o Distrito Federal, 47,7% estão localizados no Plano Piloto e nas áreas adjacentes. Segunda cidade que mais emprega é Taguatinga, com apenas 8,3% da massa de trabalhadores, seguida por Ceilândia, com 6,2%

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postado em 24/09/2012 08:00 / atualizado em 23/09/2012 18:02

Praticamente metade da mão de obra do Distrito Federal precisa vir à Brasília para garantir o salário no fim de cada mês. No mapa dos empregos da capital do país, quem aposta em procurar um serviço no Plano Piloto tem mais chances de se dar bem. Sem contabilizar aqueles que trabalham em mais de uma região administrativa, 47,7% das vagas estão concentradas no centro do quadradinho — incluído o duplo emprego, o percentual cai para 44,2%. O principal motor na criação de postos é o serviço público, responsável por empregar 163.660 pessoas. É o que mostra o levantamento da Companhia de Planejamento do DF, com base na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD).

Mas não é só a administração pública que contribui para o inchaço de trabalhadores no Plano, até porque ela é responsável por 34,3% das vagas de emprego na região. O centro recebe diariamente 477.123 pessoas, quase o dobro da quantidade de moradores (214.529). Sem contar os vindos do Entorno. Com eles, a estimativa sobe para 650 mil pessoas. Isso demonstra que, além dos postos da Esplanada, outros surgem para atender a demanda de serviços gerada pela quantidade de pessoas que vêm para o centro. São os ocupados em manter a estrutura montada para esse fluxo. Eles trabalham em escolas, hospitais, restaurantes e shopping centers, por exemplo.

O cenário de concentração dos postos de trabalho é tamanho que Brasília é a campeã de vagas em todos os setores que geram emprego na capital do país, da agropecuária à indústria, da educação aos serviços domésticos (veja arte). Segundo o geógrafo e pesquisador associado da Universidade de Brasília (UnB) Aldo Paviani, o motivo para os números expressivos de ocupados no Plano está no fato de que as sedes das empresas estão na área central. “Dessa forma, quem trabalha na construção civil, por exemplo, está documentado no Plano, mas, na verdade, ele pode estar em uma obra em qualquer outra parte do DF. O mesmo ocorre no caso dos rodoviários. As sedes estão no centro, mas as garagens ficam espalhadas”, afirma.

Logo depois de Brasília, Taguatinga é a cidade com mais postos de trabalho. São 89.584 vagas ocupadas, apenas 8,3% de todos os empregos do Distrito Federal. Depois de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia são as cidades com mais vagas. Com Brasília, as quatro regiões geram quase dois terços dos empregos (61,5%). Os 39,5% restantes estão divididos entre as outras 27 regiões administrativas (veja gráficos). “As cidades maiores, como Taguatinga e Ceilândia, conseguem manter uma autonomia maior do Plano, com comércio e serviços mais atuantes, por isso geram mais emprego”, analisa Júlio Miragaya, presidente da Codeplan. Comércio, educação, saúde e administração pública do GDF são os principais responsáveis pelas vagas nas outras RAs.

Descentralização


A dependência das vagas do setor público e a concentração demasiada na área central do Distrito Federal são osdesafios que o governo precisa resolver. Sem novas vagas vindas de concursos e sem aumento na folha de pagamento, a economia distrital fica engessada, uma vez que a capital tem poucas atividades produtivas. Do outro lado, com tanta gente trabalhando no Plano Piloto, o governo tem dificuldades para ajeitar o transporte coletivo, o que leva muitos trabalhadores a optarem pelo veículo individual. O resultado: congestionamentos cada vez maiores e a frequente falta de estacionamento. “Se não descentralizar as atividades do Plano, a região vai ter prejuízo. Congestionada e lotada, a tendência é desvalorizar, no sentido imobiliário”, avalia o geógrafo Paviani.

O governo tem se mostrado receptivo à descentralização e à diversificação das atividades econômicas da capital. A Cidade Digital e a cidade Aeroportuária de Planaltina são apostas, mas, por enquanto, os projetos não começaram a funcionar. “Por enquanto, o governo está fazendo ações pontuais para descentralizar e diversificar, ainda não há uma política deliberada sobre. Mas eu vejo que essa é uma preocupação do governo”, afirma Miragaya.

De acordo com o secretário do trabalho, Renato Andrade, a pasta tem se preocupado em descentralizar a oferta de cursos de qualificação. Por enquanto, Taguatinga, Plano Piloto, Samambaia e Ceilândia são as cidades com maior oferta de vagas. “No futuro, vamos ampliar de acordo com as necessidades do mercado. Quando a Cidade Digital começar, por exemplo, vamos formar mais gente na área de tecnologia. Assim vamos oferecer pessoal qualificado e diminuir o desemprego”, promete.
Geografia

Pela denominação da Codeplan, a Região Administrativa 1 é chamada de Brasília. A área compreende a Asa Sul, a Asa Norte, o Setor Militar Urbano, a Vila Planalto, a Vila Telebrasília e a Vila Weslian Roriz.

Onde a maioria é doméstica

De casa ao trabalho, no percurso que faz de ônibus ou de van três vezes por semana, Severina Araújo, 40 anos, leva menos de 10 minutos. “Conquistei tudo o que tenho morando aqui, não tenho motivo para me mudar”, diz a doméstica, ao abrir as portas do imóvel de três quartos, construído em um lote no Varjão doado pelo governo quase duas décadas atrás. Ela vive com o marido e dois dos três filhos. Ganha cerca de R$ 1 mil por mês e pretende comprar um carro antes de 2013 chegar. A região administrativa de onde Severina não pretende sair abriga a maior proporção de profissionais dedicados a serviços domésticos no DF: 19,4%, segundo os dados da Pdad. Em segundo lugar nesse ranking aparece o Paranoá (12,8%), seguido de São Sebastião (12,7%). Vizinhas e amigas da paraibana que chegou à capital do país aos 17 anos também trabalham em casa de família, a maioria no Lago Norte.

A cidade dos patrões de si mesmos

Abrir um pequeno negócio na Estrutural pode ser vantajoso. Pelo menos é o que espera a cabeleireira Daiane Caroline Beserra Alves, 27 anos. Durante sete anos, ela trabalhou em outros salões de beleza. De cinco meses para cá, resolveu investir o dinheiro da rescisão do último emprego e abriu o próprio salão. Preferiu deixar de lado a carteira assinada para se transformar em autônoma. "A Estrutural está começando a se desenvolver, quem está chegando primeiro está se dando bem. Ganho o dobro do que ganhava como funcionária", conta. Ela aproveitou que a mãe já atendia clientes em domicílio e levou essa clientela para o salão. Apostas de negócios na Estrutural, como a feita por Daiane, colocam a cidade como a segunda maior em percentual de pessoas que trabalham por conta própria. Quase 40% da população local se encaixam nesse perfil. O SIA, onde o número de moradores é pequeno, ocupa o primeiro lugar entre os autônomos, onde 46,4% das 2.585 pessoas trabalham por conta própria.

Palavra de especialista Qualificação é o caminho
“A dependência que o mercado de trabalho do Distrito Federal tem do setor público é característico da cidade. Por isso, as pessoas tendem a se qualificar bastante para passar nas provas, que estão cada dia mais difíceis. Hoje, em Brasília, o melhor empregador é o governo, quem tem os melhores salários e, portanto, exige um profissional mais preparado. Quem não escolhe a carreira pública acaba deixando de lado os estudos, não se qualifica e tem dificuldade para encontrar os melhores empregos. Dessa forma, o comércio absorve boa parte da mão de obra não qualificada. Mas as pessoas não devem se acomodar. Devem estudar, se qualificar, fazer cursos técnicos. O mercado de Brasília está carente dessa mão de obra, tanto no setor público quanto no privado. Mas existem segmentos — como o de nutricionistas e certos tipos de engenharia — que não conseguem absorver todos os profissionais. Nesse caso, ou as pessoas vão trabalhar no serviço público fora da sua qualificação, ou então, migram do DF”.


Débora Barem,
professora do Departamento  de Administração da UnB

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