Caso Rendrik

Um ano em cela especial

Família da estudante de direito Suênia Sousa de Farias, morta com cinco tiros em 30 de setembro do ano passado pelo professor universitário Rendrik Vieira Rodrigues, cobra da Justiça o julgamento do assassino, que está preso com regalias na Papuda

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postado em 02/10/2012 08:00 / atualizado em 01/10/2012 13:18

Ontem, o assassinato brutal da estudante de direito Suênia Sousa de Farias completou um ano. A jovem de 24 anos foi morta com cinco tiros na cabeça, no tórax e no abdômen, disparados por uma pessoa que dizia amá-la. Rendrik Vieira Rodrigues, 36 anos, não aceitava o fim do relacionamento e a reconciliação de Suênia com o marido, Hélio do Prado. Não ter mais a companhia da menina de cabelos ondulados, alegre e brincalhona se tornou um martírio para a família. Desde o crime, o pai, Sinval Monteiro de Farias, 63 anos, tem crises de falta de ar, não dorme direito e adquiriu pressão alta. O trabalho na roça passou a ser o refúgio para esquecer os problemas e a força que ele busca para conseguir justiça para a filha.

O Correio esteve nesta semana na casa da família da estudante, em Formosa (GO). Depois de ter acordado antes das 5h para trabalhar, ele finalizou o serviço e falou sobre a falta que a filha caçula faz. “Já está fazendo um ano, infelizmente (silêncio). Sinto muita saudade dela. Ela era a minha alegria. Um pai quer ter um dedo esbagaçado, mas não quer ver um filho ser picado por um mosquito”, desabafa.

Sinval sofre de pressão alta. Desde o assassinato da filha, não dorme ou se alimenta direito. “A Suênia era uma pessoa muito boa. Ele (Rendrik ) foi covarde demais. Homem que é homem não encosta a mão em um fio de cabelo de uma mulher”, diz. Em poucas palavras, o homem abatido pelo sofrimento e desiludido com a vida faz um apelo às autoridades. “A nossa lei precisa mudar. Não é porque uma pessoa tem nível superior que tem o direito de assumir a pena com regalias. A lei tinha que ser igual para todos. Ele (Rendrik) precisa pagar pelo que fez, sem privilégios”, defende.

Rendrik aguarda julgamento em uma Ala Especial do Centro de Internamento e Reeducação (CIR), no Complexo Penitenciário da Papuda, em São Sebastião. Ele não divide cela com outros presos e conta com espaço destinado a pessoas com nível superior. O ambiente conta com televisão, rádio, vaso sanitário e banheiro com chuveiro de água quente, uma regalia se comparado aos demais detentos. Durante audiência de instrução do caso, o réu pediu perdão à família de Suênia, mas usou o direito constitucional de ficar calado em relação aos detalhes do assassinato.

Vídeos Passado um ano do crime, os irmãos não esquecem os momentos bons que viveram ao lado de Suênia. Na chácara onde Sinval vive com dois dos seis filhos, tudo lembra a jovem morta. “Ela pegava os sobrinhos, colocava eles num carrinho e ia correndo até a porteira. Depois iam comer jabuticaba juntos”, conta a irmã Sineide Farias, 31 anos. “Ela adorava quando os meninos a chamavam de tia.”

Para despistar a tristeza, a família fez dois vídeos com fotos de Suênia de pequena, em momentos de descontração com os irmãos e amigos, viagens à praia e confraternizações. Em uma das imagens, a jovem, então com 13 anos, aparece cortando um bolo de aniversário. Já adulta, Suênia e Cilene aparecem beijando as bochechas de Sinval. “Meu pai era muito apegado com a Suênia. Ele não era de abraçar as pessoas, mas com a Suênia era diferente. Sempre que chegava uma visita, ele tinha orgulho de mostrar primeiro as fotos dela”, conta Cilene.

Nascida no interior da Paraíba, em Pombal, Suênia veio com os irmãos para Brasília ainda pequena. Deixou a cidade natal para tentar uma vida melhor aos arredores da capital federal. A infância na Paraíba não foi fácil. “Minha mãe (já falecida em razão de um câncer) vendia geladinho para a gente não passar dificuldade. Meu pai tocava boiada e vendia vassouras. As coisas que meus pais construíram, ele (Rendrik) destruiu em um segundo”, revolta-se Sinval Monteiro de Farias Júnior, 36 anos, que tem o mesmo nome do pai. Hoje, o sustento da casa é fruto do plantio de verduras, vendidas na Central de Abastecimento (Ceasa) às segundas e quintas-feiras. É preciso dormir no caminhão para, às 5h, fazer a comercialização.

Apesar da luta, as lembranças são de uma infância feliz, de uma família unida. “Jamais poderia imaginar que iríamos perder a Suênia dessa forma. Minha irmã era uma menina linda e deixou uma saudade que não tem fim. Quando ela chegava, me abraçava e chamava de zoião. Ela adorava brincar e foi tirada da gente na flor da idade”, emociona-se Sinval Júnior.

Para ele, Rendrik deve ser julgado e receber uma pena proporcional ao crime que cometeu. “Ele agiu de maneira premeditada, cruel e covarde. Minha irmã não teve chance de se defender. Quando uma pessoa tira a vida de outra, ela tem que pegar a pena máxima prevista na legislação, porque só assim pensariam duas vezes na hora de fazer uma besteira dessas. Ninguém tem o direito de tirar a vida de uma pessoa. Nós a perdemos por toda a vida, e ele tem a família dele”, critica.

Suênia sempre ajudou nos afazeres na roça, mas tinha o sonho de construir um futuro melhor. Queria ser delegada e cursava o 7ª período de direito em uma faculdade na Asa Norte. “Ela não gostava de injustiças. Quando a Eloá morreu (jovem assassinada pelo ex-namorado em São Paulo), a Suênia ligou para mim dizendo que tinha sentido uma tristeza muito grande e ainda comentou que as mulheres tinham que ter muito cuidado com os homens de hoje. Minha irmã incentivava as mulheres a saírem fora do relacionamento para não serem vítimas de violência”, conta a irmão Sineide. Suênia ainda sonhava em um dia ter condições de levar as sobrinhas Emilly, 10, e Lara, 2, para a Disney, na Flórida.

Estratégias jurídicas para reduzir a pena

Em maio deste ano, a Justiça determinou que Rendrik vá a júri popular por homicídio qualificado, com pena prevista de 12 a 30 anos de prisão. À época, o juiz Sandoval Gomes de Oliveira concluiu haver materialidade suficiente para a pronúncia do réu, pela impossibilidade de defesa da vítima e motivo torpe. Conforme denúncia do Ministério Público do DF, o réu mantinha um sentimento de posse sobre a vítima e agiu “imbuído de ciúme doentio e egoísta”, inconformado com o término do relacionamento.

Os advogados de Rendrik não concordaram com os termos da pronúncia e recorreram da decisão. Eles querem ainda que seja reaberta a audiência de instrução para oitiva de uma testemunha. Segundo um dos defensores de Rendrik, Ticiano Figueiredo, a ideia não é adiar o julgamento. “O que a gente quer é que haja um processo justo. O Rendrik quer pagar pelo que fez, mas na medida da sua culpabilidade”, diz.

Segundo Ticiano, o ex-professor de direito não premeditou o crime para se livrar da prisão, como sustenta o MPDFT. “A conduta de ele entregar o corpo na delegacia mostra que ele se arrependeu. Se ele respondesse ao processo em liberdade, quando a decisão estivesse transitada e julgada ele perderia o benefício do curso superior e teria de cumprir pena no PDF (penitenciária onde ficam os demais presos do DF)”, sustenta.

Para o promotor do Tribunal do Júri, Maurício Miranda, a defesa tem interesse em adiar o julgamento. “Eles vão entrar com vários recursos de agora em diante. Ele (Rendrik) está em uma situação confortável. E quanto mais tempo ficar assim, mais vai abater na pena quando o processo estiver transitado e julgado. Podem falar o que quiser, mas ele tem regalias que não deveriam ser dadas a juízes, promotores, advogados ou nenhuma pessoa”, critica. “Colocar em sala separada, tudo bem, porque é uma questão de resguardar a vida, mas cumprir um regime diferente eu acho injustificável. Se o Rendrik estivesse preso em outra situação, com certeza os advogados iriam querer acelerar o processo. Esse sistema só favorece quem tem condições financeiras”, destaca Miranda. (MP)

 

 

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