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Educação

Universidade mais perto de alunos pobres

Censo do ensino superior mostra aumento no percentual de estudantes de baixa renda e de negros matriculados em faculdades públicas e particulares. Porém, acesso ainda é considerado insatisfatório pelo ministério

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postado em 18/10/2012 08:00 / atualizado em 17/10/2012 11:47

Grasielle Castro /Correio Braziliense

Viola Júnior
Os negros, pardos e estudantes com renda mais baixa estão, aos poucos, conquistando espaço nas universidades. Dados do Censo da Educação Superior 2011, divulgados ontem pelo Ministério da Educação (MEC), mostram, que, entre 1997 e 2011, o percentual de negros de 18 a 24 anos que frequentam ou já concluíram o ensino superior saltou de 4% para 19,8%. Já a quantidade de universitários de menor poder aquisitivo pulou de 0,5% para 4,2% (veja quadro). A tendência de crescimento é válida para a população em geral. O levantamento mostrou que as matrículas aumentaram 5,7% de 2010 para o ano passado, chegando a 6,7 milhões — 2,3 milhões de calouros. O maior avanço foi registrado nas universidades públicas, com uma elevação de 7,9% de matriculados. Entretanto, os números ainda são considerados baixos tanto pelo ministério quanto por especialistas.

Segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, o problema da educação superior brasileira é histórico. Ele lembra que a primeira universidade do Brasil é do século passado, além do fato de uma grande parcela da população não ter tido acesso à educação por um longo período por causa da desigualdade. “Os 20% mais pobres não fizeram universidade porque não tinham como fazer”, argumenta.

Para Mercadante, os responsáveis pela atual expansão no ensino superior são as políticas indutivas como o Programa Universidade para Todos (Prouni), o Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). A aposta mais recente da pasta é a lei de cotas sociais e raciais. “A política de inclusão para renda baixa e a escola pública vai ajudar a melhorar esse indicador ao longo da próxima década. Esse é um esforço que o Brasil precisa fazer. A política mais sustentável de distribuição de renda é a educação e uma educação inclusiva.”

Ex-consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Célio Cunha reconhece que os dados sinalizam para a democratização do ensino. “Temos uma dívida histórica com a população mais pobre, pelo menos no plano quantitativo, mas não podemos esquecer da qualidade desse ensino”. Cunha ressalta, porém, que o número de brasileiros graduados ainda é baixo comparado a países vizinhos e destaca a importância de uma análise em relação a quantidade de alunos que concluem a etapa escolar. O MEC não divulgou os números de evasão escolar.

Oportunidade
A maranhense Fernanda Neves representa bem o perfil dos calouros que engrossam as estatísticas do ensino superior brasileiro. No 2º de semestre de odontologia em uma instituição particular do Distrito Federal, a garota de 22 anos será a primeira da família a romper a barreira do ensino médio. “Meu pai é microempresário e minha mãe atendente de uma loja. Eles não têm curso superior. Estão muito orgulhosos”, conta Fernanda. Para custear a mensalidade de R$ 1,7 mil, tentou uma bolsa do Prouni, mas não foi selecionada. O pai, então, passou a ajudá-la. Outro exemplo é o estudante Bruno Vieira Duarte. Ele faz parte dos alunos que procuraram cursos tecnológicos, grupo que cresceu 11,3% de 2010 para 2011. No caso de Bruno, pesou menos a vocação e mais a oportunidade. “Queria fazer artes cênicas, mas vou pagar para trabalhar? Então escolhi sistemas de informação, para ingressar logo no mercado”, diz o estudante de 19 anos.

A expectativa é que as matrículas continuem a crescer. Na avaliação do ministro, se o ritmo de crescimento for mantido, o país alcançará em 2020 a meta do Plano Nacional da Educação (PNE) de ter 33% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos no ensino superior — hoje o percentual é de 14,6%.

Colaborou Renata Mariz

Leia mais sobre cotas a página 23

Em busca do diploma
Confira o percentual de pessoas, entre 18 e 24 anos, que frequentam
ou já concluíram o ensino superior (1997-2011):


                                  1997    2004    2011
Região    
Brasil                             7,1    12,1    17,6
Norte                             3,6    6,3    11,9
Nordeste                        3,4    6,4    11,9
Sudeste                         9,3    15,4    20,1
Sul                                9,1    17,3    22,1
Centro-Oeste                 7,3    14,0    23,9

Renda domiciliar per capita
20% de menor renda       0,5    0,6    4,2
20% de maior renda       22,9    41,6    47,1

Gênero
Feminino                       7,9    13,9    20,5
Masculino                      6,2    10,3    14,6

Cor
Brancos                        11,4    18,7    25,6
Negros                           1,8    5,0    8,8
Pardos                           2,2    5,6    11,0

Turmas menores

A Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal aprovou ontem, em decisão terminativa, um projeto de lei (PLS 504/2011), de autoria do senador Humberto Costa (PT-PE), que estabelece um limite máximo de 25 alunos por turma na pré-escola e nos dois anos iniciais do ensino fundamental. Para os períodos seguintes, segundo o projeto aprovado, o limite passa a ser de 35 alunos. De acordo com o senador Roberto Requião (PMDB-PR), o objetivo da matéria é buscar melhores condições de aprendizagem para as crianças brasileiras. O projeto segue para a Câmara dos Deputados.

Câmara aprova PNE
O Plano Nacional de Educação (PNE), principal documento de metas para o setor, teve a tramitação concluída ontem na Câmara dos Deputados. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou a proposta com a meta de investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação, a ser atingida em 10 anos. Atualmente, União, estados e municípios investem juntos, por ano, cerca de 5% do PIB no setor. O projeto do governo previa a aplicação de 7% do PIB.  Agora, a proposta será analisada pelo no Senado.

Ideb em debate De olho no ensino médio, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, se reúne amanhã, em Santa Catarina, com o secretários de Educação dos estados brasileiros para discutir mudanças na etapa escolar. Desde a divulgação dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em agosto, em que a nota do ensino médio mudou de 2009 para 2011 apenas 0,1 ponto — passou de 3,6 para 3,7, numa escala de zero a 10, cinco secretários ficaram responsáveis por avaliar a situação de cada região do país e apresentarem propostas de revitalização do ensino.

A pasta também trabalha nesse sentido. Entre as mudanças, estão a integração dos conteúdos disciplinares nos livros didáticos, o reforço na capacitação dos professores e a expansão do programa Ensino Inovador, que amplia da jornada escolar adotando o tempo integral — já adotado em 1,8 mil escolas.

Outra proposta que será debatida em Santa Catarina é a mudança no modelo de avaliação do ensino médio de amostragem, como é feita hoje, para censitária. Além da possibilidade de migrar a matriz do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). (GC)

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