Procuram-se engenheiras

Mulheres são maioria nas universidades, mas o quadro muda de figura nos cursos de ciências exatas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 29/10/2012 09:13 / atualizado em 29/10/2012 11:13

Laís (E) é presidente do grupo WIE-UnB, que discute problemas enfrentados pelas universitárias dos cursos de exatas (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press    ) 
Laís (E) é presidente do grupo WIE-UnB, que discute problemas enfrentados pelas universitárias dos cursos de exatas

As mulheres são maioria na busca pelo diploma de ensino superior. Dados do Censo da Educação Superior de 2011, feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), revelam que, dos mais de 5,7 milhões de matriculados nessa etapa do ensino, 55% são mulheres. No entanto, ainda de acordo com o Censo, quando se fala em ciência, matemática e tecnologia, há predominância de alunos do sexo masculino. E não é só no Brasil que isso ocorre. Segundo o Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), organização técnico-profissional que reúne engenheiros eletricistas e eletrônicos do mundo inteiro, as mulheres representam apenas 15% da atual força de trabalho nessas áreas.

Para tentar diminuir a disparidade, o instituto promove uma campanha internacional a fim de aumentar a presença feminina nos cursos de engenharia e áreas afins, como ciência, tecnologia e matemática. A ideia é agir na formação e preparação de meninas para esses campos, e mostrar que essas áreas — por mais masculinas que pareçam — são femininas também.

Para Maria Cristina Tavares, membro sênior do IEEE e professora da Universidade de Campinas (Unicamp), o aumento do número de mulheres nos ramos tecnológicos só é possível com a quebra de alguns paradigmas de gênero. O mais comum é a identificação dos homens com cursos de exatas e das mulheres com a área de humanidades. Essa associação já começa na escola. “As jovens estão acostumadas a terem professoras no ensino fundamental e, à medida que o curso avança, são ensinadas por professores do sexo masculino também, que normalmente ministram as disciplinas de exatas”, ressalta ela.

Segundo a especialista, muitas vezes é o professor quem motiva o aluno a seguir uma carreira. E por não existirem tantas professoras que atuam nas áreas de exatas, as meninas acabariam escolhendo profissões vistas como mais femininas. “É necessário despertar o interesse das garotas ainda no ensino básico, e a melhor capacitação dos professores pode contribuir para isso”, avalia.

Unidas pela profissão
Outro passo considerado fundamental pela professora Maria Cristina para o aumento da presença feminina nessas áreas é a organização de grupos de discussão de estudantes e profissionais. “Um exemplo é o Women in Engineering (WIE), grupo do IEEE que está presente em diversas universidades e discute problemas específicos enfrentados por mulheres nas engenharias”, exemplifica.

A estudante de engenharia da computação Laís Gonçalves, 19 anos, é presidente do grupo WIE da Universidade de Brasília (UnB). Depois que se viu em um nicho extremamente masculino, a jovem decidiu que precisava unir-se a outras universitárias que enfrentavam as mesmas questões. “Unidas, podemos atrair cada vez mais mulheres e mostrar como é bom estar nessa área, que é extremamente difícil, mas muito prazerosa e recompensadora”, diz.

Um dos objetivos das integrantes do WIE da UnB é apresentar a área a estudantes que estão na fase de escolha da profissão. Para tanto, elas desenvolveram um projeto de ensino de ciências para duas escolas da rede pública. “Queremos mostrar que elas não estão sozinhas em seu interesse pela tecnologia, e afirmar que as mulheres são tão capazes quanto os homens”, explica Paula Freitas Almeida, estudante do 6º semestre de engenharia mecatrônica e presidente do braço estudantil do IEEE na universidade. Ela conta que, durante as aulas para o ensino fundamental, muitas vezes as garotas se surpreendem pelo fato de gostarem de ciências. “É como se essa área já tivesse sido descartada por elas e, de repente, elas se dão conta de que estudar física ou matemática pode ser agradável.”

Professora do Departamento de Ciência da Computação da UnB, Maristela de Holanda coordena a equipe Meninas na Computação, que promove ações com as escolas de ensino médio do Distrito Federal. Para ela, há muita desinformação no que se refere à atuação profissional das mulheres nas áreas tecnológicas. “As meninas gostam de computadores, gostam de jogar videogame, se interessam por ciências e não percebem que podem trabalhar com isso, sim”, pontua Maristela.

Fernanda diz que tem família que acha a área inadequada para garotas (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press) 
Fernanda diz que tem família que acha a área inadequada para garotas

Preconceito
Laís Gonçalves conta que desde pequena tinha interesse especial pela invenção, mas se decidiu pela carreira depois de ler um livro cuja personagem principal era engenheira. “Nunca tive medo do que eu gostava, sempre achei que era possível entrar para esse mundo, que ainda é muito masculino.” Depois de três semestres na universidade, algumas amigas da escola ainda a olham com surpresa e questionam por que ela estuda engenharia da computação. “Até mesmo meu pai perguntou se eu não preferia algo como direito ou medicina”, conta. No entanto, segundo ela, essas barreiras sociais estão sendo quebradas cada vez mais: “Apesar da estranheza de ter uma garota entre eles, meus colegas homens e meus professores não me tratam de forma diferente”.

No mercado de trabalho, a vida das engenheiras e cientistas também exige paciência. A mestre em mecânica aeroespacial e engenheira civil Silvia Cabral, 31 anos, sabe o que é isso. Na rotina diária, ela conta que quase sempre é recebida com surpresa pelos colegas. “Mas jamais fui alvo de preconceito, sempre me respeitaram pelo meu trabalho”, diz. Quando fez a pós-graduação na Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), era uma das únicas três mulheres da turma de quase 80 alunos. Silvia trabalhou durante seis anos na empresa aeroespacial. Depois disso, passou dois anos na divisão técnica da binacional brasileiro-ucraniana Alcântara Cyclone Space (ACS), responsável pela construção do primeiro foguete nacional. Hoje, ela atua no setor gerencial de uma empresa da área de energia. “Comando uma equipe masculina”, conta.

Fernanda Muzzi Leite, 19 anos, é estudante de engenharia civil na UnB. Desde criança, a universitária mostrava empenho ao criar estruturas com blocos de Lego. Os avós e os pais a incentivavam, e esse era seu passatempo preferido. No ensino médio, a habilidade com exatas deslanchou. O que a atraiu foi a dinâmica da área de engenharia, e o fato de poder atuar em grandes transformações. Hoje, Fernanda é estagiária de uma obra de grande porte na cidade. “A engenharia é um campo que fornece inúmeras possibilidades, mas até hoje as meninas se intimidam. Já vi casos de pessoas bem próximas que deixaram de seguir por esse caminho porque a família considerava a área inadequada para mulheres.”

O que pensa a ministra

Obstáculos ao acesso
A pequena presença de mulheres nas engenharias e nas tecnologias está ligada a algumas razões. Essas áreas têm uma história masculina, componentes que demandam conhecimento de matérias rígidas, além de disciplina nos estudos e muito tempo para se dedicar a eles. Assim, as mulheres enfrentam dificuldades, não por falta de competência, mas pelos obstáculos de acesso a essa área. Outra razão (que na verdade é a raiz do motivo anterior) é que a socialização na escola fundamental é estereotipada: para as meninas, habilidades; para os meninos, raciocínio lógico. A pergunta, portanto, é: quais valores estão sendo transmitidos para as crianças? Além disso, não se vê inovação no marketing dos cursos de engenharia. E como 99% dos professores são homens, o resultado é uma visão que, se não for machista, certamente é masculinista em relação às meninas que ingressam nesses cursos. Mas estamos estão rompendo essas barreiras. As pesquisas mostram que as mulheres são mais escolarizadas que os homens. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mais recente demonstrou que, na faixa dos 50 anos em diante, as mulheres acessam mais a internet que os homens. E esses 15% de mulheres nas engenharias, se comparados à situação de 10 anos atrás, de qualquer maneira já mostram um avanço.

Ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República


O legado feminino

A participação das mulheres nas carreiras relacionadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática ainda pode ser baixa, mas a contribuição delas levou a algumas das maiores inovações tecnológicas da história. Acompanhe a linha do tempo de mulheres pioneiras, eleitas pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE)


1800

 (IEEE/Divulgação) 

Ada Lovelace (1815 —1852)
Cientista da computação — Inglaterra

Aclamada como a primeira programadora de computador, em 1842 ela criou um modelo de análise para a máquina analítica de Charles Babbage, que ajudava a explicar algo complexo por meio de uma linguagem muito metódica e similar a um código.
 (IEEE/Divulgação) 

Margareth Knight (1838 —1914)
Inventora — Estados Unidos

Inventou a primeira máquina de sacos de papel, ainda usada hoje. Um homem chamado Charles Annan tentou roubar sua ideia e levar o crédito pela invenção, dizendo que uma mulher jamais seria capaz de criar uma máquina tão inovadora. Knight apresentou provas e recebeu a patente da máquina.
 (IEEE/Divulgação) 

Emmy Noether (1882 — 1935)
Matemática — Alemanha

Conhecida por suas contribuições revolucionárias para a álgebra abstrata e a física teórica, e descrita por Albert Einstein como “a mulher mais importante na história da matemática”, ela revolucionou as teorias dos anéis e dos campos e também a álgebra.

1900
 (IEEE/Divulgação) 

Grace Hopper (1906 — 1992)
Cientista da computação — Estados Unidos

Desenvolveu o primeiro compilador de computadores no Laboratório de Computação da Universidade de Harvard e foi responsável por conceitualizar o COBOL, uma das primeiras linguagens modernas de programação. Mais tarde, se tornou a primeira almirante do sexo feminino na Marinha norte-americana.
 (IEEE/Divulgação) 

Joanne Simpson (1923 — 2010)
Meteorologista — Estados Unidos

Foi a primeira a receber um doutorado em meteorologia, e se tornou uma das principais estudiosas do clima na NASA nos últimos 30 anos. Em 1986, passou a liderar a Missão de Medição de Precipitação Tropical (TRMM, na sigla em inglês), satélite da NASA que mede a pluviosidade com precisão.
 (IEEE/Divulgação) 

Katherine Johnson (1918)
Cientista espacial — Estados Unidos

Física e matemática afro-americana que realizou contribuições significativas para a aeronáutica e os programas espaciais dos Estados Unidos com computadores de eletrônica digital na NASA. Ela também foi responsável por calcular a trajetória da Apollo 11 para a Lua, em 1969.
 (IEEE/Divulgação) 

Ruzena Bajcsy (1933)
Engenheira de robótica — Estados Unidos

Em 1979, ela ajudou a criar robôs capazes de perceber e reagir ao ambiente à sua volta. Agora, lidera um instituto inovador onde pesquisadores desenvolvem sensores inteligentes de baixa energia que tanto computam quanto transmitem informações.
 (IEEE/Divulgação) 

Radia Perlman (1951)
Cientista da computação — Estados Unidos

Considerada a mãe da internet, Perlman é uma designer de programas e engenheira de redes que inventou o protocolo da árvore de abrangência, fundamental para a Ethernet moderna.
 (IEEE/Divulgação) 

Evan Chen
Empresária — Taiwan

CEO da Trend Micro, empresa líder no fornecimento de programas de segurança. Os rendimentos em 2011 foram de US$ 1,2 bilhões, e a empresa emprega 4.434 pessoas em 23 países.
 (IEEE/Divulgação) 

Chieko Asakawa (1960)
Cientista da computação — Japão

Há 27 anos, ela se dedica a melhorar o acesso de deficientes visuais aos computadores e à internet. Em 1997, seu trabalho no navegador por voz (o revolucionário Home Page Reader, da IBM) abriu as portas da rede e suas fontes de informação para os cegos.
 (IEEE/Divulgação) 

Cher Wang (1958)
Empresária — Taiwan

Empresária taiwanesa e co-fundadora e presidente da HTC Corporation e VIA Technologies. Em 2011, a revista Forbes a listou como a pessoa mais rica de Taiwan, com uma rede no valor de US$ 8,8 bilhões.

2000
 (IEEE/Divulgação) 

Graça Foster (1953)
Empresária — Brasil

Presidente da Petrobras e a primeira mulher a liderar uma grande companhia de petróleo e gás. Ela começou a carreira como engenheira química e sua disciplina incansável no trabalho acabou lhe rendendo o apelido de “Caveirão”, em alusão aos carros blindados usados pela polícia para agir nas favelas no Rio de Janeiro.
 (IEEE/Divulgação) 

Mary Lou Jepsen (1961)
Empresária — Estados Unidos

Fundadora e CEO da Pixel Qi, fabricante de telas de LCD de baixo custo e baixo consumo de energia para laptops. Ela também criou um dos maiores ambientes do mundo com telas na cidade de Cologne, na Alemanha, onde instalou um display holográfico que cercava um quarteirão inteiro.
 (IEEE/Divulgação) 

Ingrid Daubechies (1954)
Matemática e física — Bélgica

Primeira presidente mulher da União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês). É mais conhecida por seu trabalho com ondulações em compressão de imagem.
 (IEEE/Divulgação) 

Hessa al Jaber (1955)
Comunicações — Qatar

Secretária Geral do Conselho Supremo de Tecnologia de Informação e Comunicação, o ICT, no Qatar. Também supervisionou a liberalização do mercado de telecomunicações no Qatar, ajudando a tornar seu governo mais transparente e acessível.
 (IEEE/Divulgação) 

Indra Nooyi (1955)
Empresária — Índia

Presidente e CEO da PepsiCo, a segunda maior empresa de alimentos e bebidas no mundo. Nooyi começou sua carreira em física e matemática, antes de entrar na PepsiCo, em 1994.
 (IEEE/Divulgação) 

Rana el Kaliouby (1978)
Cientista da computação — Estados Unidos

Co-fundadora e diretora de tecnologia da Affectiva, uma empresa que cria tecnologias de comunicação e medição de emoções, incluindo a tecnologia de reconhecimento de expressões faciais, que ela inventou.
 (IEEE/Divulgação) 

Liu Yang (1978)
Astronauta — China

A primeira mulher chinesa enviada ao espaço. Liu entrou para o exército em 1997 e acumulou 1,68 mil horas de voo desde então.
 (IEEE/Divulgação) 

Marissa Mayer (1975)
Engenheira da computação — Estados Unidos

Atual CEO da Yahoo. Aos 37 anos, é a CEO mais jovem de uma companhia listada pela revista Fortune entre as 500 com maior rendimento nos Estados Unidos. Antes de entrar na Yahoo, Marissa foi a 20ª funcionária do Google e a primeira engenheira da empresa.
Tags: