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Aula de rebeldia competente

Sociólogo português provoca alunos da Universidade de Brasília durante a abertura do semestre letivo no Teatro de Arena

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postado em 01/11/2012 08:00 / atualizado em 31/10/2012 10:49

Luiz Xavier
Boaventura de Sousa Santos instigou os estudantes da Universidade de Brasília a se tornarem rebeldes competentes. Na manhã de ontem, o sociólogo português proferiu a Aula Inaugural do segundo semestre do ano no Teatro de Arena. Grande defensor de direitos humanos, democracia e justiça social, o pesquisador falou aos presentes sobre como é possível transformar o mundo para que ele seja mais democrático. (veja Perfil).

A primeira intervenção foi do índio Ash Ashaminka. Ele chamou a comunidade acadêmica a ajudar os guaranis-caiovás, em Mato Grosso do Sul, onde 170 pessoas da aldeia deverão deixar o território disputado com fazendeiros. “É bom lembrar que a natureza também tem direito e isso precisa ser respeitado. Além disso, todos os conhecimentos são importantes. O dos indígenas não é diferente”, enfatizou o sociólogo.

Em seguida, o pesquisador começou a explanação sobre o conceito de rebelde competente, que deu forma ao debate lançado ontem. “Hoje, nós temos sete ameaças no mundo. Elas vão exigir de todos nós uma competência diferente para combatê-las”, alertou o professor. Boaventura ressalta que esse novo rebelde, que busca provocar transformação na sociedade e garantir os direitos humanos, tem que misturar razões convincentes e aliá-las à paixão.

De acordo com ele, a primeira ameaça é a posição do Estado, a serviço dos negócios e não do cidadão. Os governos são responsáveis pelos interesses do povo e isso não pode ser desvirtuado. A próxima ameaça é a desvalorização da democracia. “Não é justo que o sistema político permita que pequenos grupos sem representatividade controlem o poder”, avalia. Em terceiro lugar, vem a destruição da natureza.

A depreciação do trabalho, levando as pessoas a dedicarem a maior parte do dia à profissão, caminha para a destruição da vida social delas, o que seria mais um perigo. No que diz respeito às academias, Boaventura salienta a mercantilização das universidades, em um espaço que poderia ser o centro do pensamento crítico. Por outro lado, a criminalização do protesto social e daqueles que tomam a frente nas manifestações também deve ser combatida.

Por fim, a última ameaça é a presença do pensamento colonial. “As diferenças produzidas naquela época continuam em nossos atos e em nossos corações. Por isso, é preciso entender, dentro dos próprios movimentos sociais, que toda luta é uma só. A dos negros, a das mulheres, a dos trabalhadores, a dos gays, a dos indígenas. Nenhuma luta é separada da outra”, defende o professor. Para finalizar, ele citou o escritor modernista Oswald de Andrade. “A alegria é a prova dos nove. Qualquer transformação tem que ser feita com alegria e paixão”, completou.

Os textos de Boaventura se tornaram tema de aulas na UnB pela primeira vez em 1970. “Ele conhece o projeto da universidade e tem convivência de décadas conosco”, contou o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior. O sociólogo português recebeu, na noite de segunda-feira, o título de Doutor Honoris Causa, em cerimônia no Memorial Darcy Ribeiro com apresentação da filósofa e professora da Universidade de São Paulo Marilena Chauí.

A aproximação com Boaventura inspirou a criação do grupo de pesquisa O Direito Achado na Rua, na Faculdade de Direito. Desde então, ele é convocado com frequência a participar de atividades na instituição.

Sociologia do direito

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em Portugal, em 1940, e tem doutorado em sociologia do direito pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos (1973). É professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e leciona também nas Universidades de Wisconsin, na cidade de Madison EUA); e de Warwick (Reino Unido). Além disso, dirige o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia e o Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Boaventura é autor de A crítica da razão indolente, publicado em 2000, entre vasta produção acadêmica. O professor chegou a morar na Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 1970, como parte de um estudo sobre as raízes das injustiças econômicas e sociais.

Três perguntas para

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo 

Qual é a relação do senhor  com a Universidade de Brasília?
Minha relação com a UnB sempre foi muito intensa por várias razões. Pessoas que foram fundamentais nessa universidade foram minhas amigas há 30 anos. Recebi Darcy Ribeiro, por exemplo, em Coimbra, quando estava no exílio. Depois, José Geraldo (de Sousa Junior), Roberto Lyra Filho e o Direito Achado na Rua foram conexões fortes. Quando José Geraldo foi eleito reitor, considerei uma justiça histórica. Foi um homem que podia repor a continuidade do grande projeto inicial da UnB, aprofundando a sua responsabilidade democrática. Fico muito feliz por ter sido um dos Doutores Honoris Causa do mandato de José Geraldo (concedido no dia 29).

O que é a mercantilizaçãodas universidades?
O capitalismo está sempre à procura de novos meios para se valorizar. A ideia é de que o conhecimento que nós devemos privilegiar nas nossas universidades é aquele que tem valor de mercado, o conhecimento que amanhã pode traduzir-se numa patente da UnB, que vai ganhar dinheiro para a própria universidade. Devemos lutar contra isso porque, dessa forma, nunca há espaço para projetos de solidariedade humana. É uma obrigação dos estudantes e dos professores ir contra a comercialização  e a todos aqueles que dentro das universidades já começam contaminados por essa lógica e não sucumbir às pressões do mercado.

A UnB foi pioneira na implantação das cotas raciais e uma lei  recente mudou a separação de vagas levando-se em conta  critérios sociais. Qual é a sua avaliação dessas ações?
Durante muito tempo, o Brasil achou que o problema dos negros e dos índios não era racial, mas de classe, e que se resolveria apenas por cotas sociais. É verdade que 95% da população pobre do Brasil é negra. Logo, há aqui uma variável  que faz com que raça articule com classe. E, portanto, são necessários os dois tipos de cotas. É evidente que se começou pelas cotas raciais. Eles estavam há muito tempo excluídos e havia uma injustiça histórica neste país. A democracia racial ainda precisa ser construída, pois ainda não existe na realidade.

 

 

 

 

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