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Morte de universitário no trânsito é exemplo da banalização do crime

Estudo divulgado ontem pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que mostra que de 25% a 80% dos homicídios no Brasil, dependendo do estado, são cometidos por impulso ou motivo fútil. Governo lança campanha: Conte até 10 antes de reagir

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postado em 09/11/2012 10:06 / atualizado em 09/11/2012 10:08

Portal Uai

 (Reprodução) 
O universitário Matheus Pio Assunção de Almeida, de 26 anos, era de poucas palavras, dedicado à família, à noiva e ao trabalho e não tinha vícios ou inimigos. Saía de casa às 6h para trabalhar numa distribuidora e retornava às 23h, depois das aulas de pós-graduação em economia. Nos fins de semana, sua maior diversão era jogar tênis. Mas a vida e os sonhos desse jovem foram interrompidos de forma violenta por volta das 22h30 de quarta-feira. Faltando dois quarteirões para chegar em casa, onde morava com os pais e uma irmã mais nova, Matheus levou um tiro certeiro no coração, disparado por um desconhecido num sinal de trânsito na esquina das avenida Major Delfino de Paula e Antônio Carlos, no Bairro São Francisco, na Região Noroeste de BH. Segundo a polícia, aparentemente o motivo foi uma briga de trânsito, uma vez que o estudante tinha comportamento exemplar e não tinha inimigos.

O assassinato de Matheus se enquadra em um estudo divulgado ontem pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que mostra que de 25% a 80% dos homicídios no Brasil, dependendo do estado, são cometidos por impulso ou motivo fútil. Foram incluídos homicídios classificados como resultados de briga, ciúme, conflito entre vizinhos, desavença, discussão, violência doméstica, trânsito, crime passional e mortes resultantes de discussões banais. Números incentivam uma campanha para evitar crimes por motivos banais.

TIRO

Um motorista de ônibus, que estava parado no sinal vermelho, viu um homem descendo de um carro de cor prata, cujo modelo e placa ele não soube identificar, e atirar em Matheus, que estava ao volante do seu Celta preto. O vidro do carro estava fechado e foi estilhaçado. Motoristas de outros dois veículos parados entre o Celta e o ônibus fugiram e a polícia tenta localizá-los para depoimento. O motorista do ônibus disse que aparentemente o assassino discutia com a vítima. No momento da abordagem, Matheus conversava com a noiva pelo telefone e ela o escutou repetir três vezes: “Estou descendo, estou descendo, estou descendo”. Em seguida, o barulho de um disparo. A bala entrou pelo ombro esquerdo e se alojou no coração.

O tio de Matheus, o representante comercial Gilson Santos Almeida, de 52, esteve no Instituto Médico Legal (IML) na manhã de ontem para liberar o corpo. “Ninguém sabe o que aconteceu. A família está arrasada. Matheus tinha casamento marcado para o ano que vem e estava feliz por ter passado num concurso”, disse.

O estudante também havia sido promovido na distribuidora onde era estagiário no setor de compras. Ele fez um curso na área de recursos humanos e seria transferido para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, onde pretendia morar depois do casado. “Tinha um futuro de sucesso”, completou o primo da vítima, Deyber Almeida. A noiva de Matheus, segundo os parentes, pretendia ir para Uberlândia depois de concluir seu curso de fonoaudiologia.

Gilson não acredita que Matheus tenha discutido no trânsito. “Ele não era de brigar com ninguém, e fica a dúvida do que realmente aconteceu”, disse Gilson. Segundo ele, o crime foi próximo a um batalhão do Corpo de Bombeiros e o sobrinho chegou a ser socorrido pelos policiais e levado para o Hospital Odilon Behrens, mas já chegou morto. O corpo do estudante será velado no Cemitério Bosque da Esperança e será sepultado às 16h de hoje, depois que a mãe do rapaz chegar dos Estados Unidos. “O que nos conforta um pouco é saber que a vontade de Matheus foi cumprida. Ele doou as córneas para duas pessoas e elas vão enxergar o mundo por ele”, disse.

QUEBRA-CABEÇA

A delegada da Homicídios Noroeste, Juliane Emiko, está recolhendo imagens de câmeras de segurança para montar um quebra-cabeça com cenas anteriores ao momento do crime. A identificação do assassino não foi possível por não haver câmeras no local. “Havia outros carros parados no sinal e alguém também pode ter visto algo, mas todo mundo foi embora”, disse. “Estamos investigando a vida pregressa do rapaz, mas não há nada que o desabone. Era trabalhador, muito estudioso e introspectivo”, disse Juliane. Segundo ela, a vítima falava ao telefone com a noiva e não comentou qualquer fato estranho.

Conte até 10 antes de reagir


O Mapa da Violência 2012 divulgado pelo Ministério da Justiça revela que foram registrados 49.932 homicídios no Brasil em 2010, que representam uma média de 26,2 assassinatos para cada grupo de cem mil habitantes e põe o país entre os mais violentos do mundo. Para reduzir o número de mortes, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) lançou ontem a campanha “Conte até 10. Essa é a atitude”, que faz parte da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública, como meta para manter o controle antes de cometer qualquer ato de violência. “Conte até 10. A raiva passa. A vida fica”, diz a mensagem da campanha.

 (Divulgação ) 


Os levantamentos do CNMP foram feitos entre 2011 e 2012, a partir de dados sobre homicídios remetidos por 15 estados e pelo Distrito Federal. De 25% a 80% dos homicídios são cometidos por impulso ou motivo fútil. O objetivo foi mapear, entre os assassinatos com causas identificadas, quantos foram cometidos por impulso, em uma ação impensada de quem mata por motivo fútil. Os números foram divulgados ontem com o lançamento da campanha. Minas não enviou dados.

Em São Paulo, 83% dos assassinatos com motivação esclarecida foram cometidos por impulso ou por motivo fútil, nos últimos dois anos. No Rio de Janeiro, de janeiro de 2011 a setembro de 2012, uma em cada quatro mortes com causa identificada (26,85%) está na macrocategoria “impulso mais motivo fútil”. Em Pernambuco, nos crimes com motivação identificada, os assassinatos por impulso ou motivo fútil foram 46,7% das mortes de 2010 e 50,66% em 2011. O Rio Grande do Sul teve 43,13% dos assassinatos com causa determinada, em 2011, por impulso ou motivo fútil. Outros estados com grande proporção de mortes incluídas na macrocategoria são Acre (100% em 2011 e 100% em 2012), Santa Catarina (74,46% em 2011 e 82,13% em 2012) e Goiás (63,77% em 2012).

Arrependimento Segundo o presidente do CNMP, Roberto Gurgel, os homicídios por impulso “são crimes dos quais na maioria das vezes, o autor se arrepende no momento seguinte ao disparo do tiro”. De acordo com a coordenadora do Grupo de Persecução Penal da Enasp, Taís Ferraz, o alvo da pesquisa foram os homicídios que ocorrem em função da banalização da violência, da falta de tolerância, da ação impensada no momento da raiva. “São casos, muitas vezes, de pessoas que nunca haviam matado antes, e, por perderem a cabeça numa situação de conflito, cometem o crime”, disse Taís.

Mensagens da campanha, entre elas “Quem é da paz não briga”, “A raiva passa. A vida fica”, e “Sua vida vale mais que qualquer briga”, serão veiculadas pelas principais emissoras de televisão e rádio do pais, além de anúncios em jornais, revistas e na internet. Uma cartilha, feita em parceria com o Ministério da Educação, vai orientar professores sobre como tratar o assunto violência em sala de aula.

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Banalização da violência

“O que vemos em Minas Gerais, assim como no Brasil, é a banalização da violência relacionada principalmente aos crimes de execução. O problema ocorre com maior frequência nos aglomerados, por causa de questões relacionadas ao tráfico. Mas nesse cenário temos observado também um movimento crescente de crimes passionais, com pessoas insatisfeitas com término de relacionamento. Não temos a quantificação disso, mas os crimes por motivos fúteis são significativos nas estatísticas criminais. Pretende-se com a campanha intervir nesse problema. Temos de fazer uma tentativa e a campanha é bastante válida nesse sentido, especialmente porque é protagonizada por pessoas que realmente se dedicam aos esporte violento, mas que estão pregando a paz.”
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