SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Operação

Ingresso em medicina custava até R$ 80 mil

Polícia Federal deflagra ação de quadrilhas em 10 estados e no DF que fraudavam vestibulares de medicina. Candidatos pagavam para operadores fazerem a prova no lugar deles ou repassarem o gabarito

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 14/12/2012 08:00 / atualizado em 14/12/2012 10:37

Grasielle Castro /Correio Braziliense

Um esquema de fraude a vestibulares de medicina com ramificações em 10 estados e no Distrito Federal foi desmontado pela Polícia Federal. Após um ano e meio de investigações, a Operação Calouro, desencadeada a partir do Espírito Santo, identificou sete quadrilhas — seis sediadas em Goiás e uma em Minas Gerais —, expediu 70 mandados de prisão e 73 de busca e apreensão. Até o fim da tarde de ontem, 46 pessoas tinham sido presas. Os grupos, apesar de concorrentes, se conheciam, mantinham boas relações e chegavam a cobrar até R$ 80 mil pelo golpe. A fraude era arquitetada em duas vertentes principais: uma pessoa com identidade falsa fazia a prova no lugar do candidato ou um gabarito era enviado, principalmente por meio eletrônico, ao estudante.

Enquanto as investigações estavam em curso, 54 vestibulares em 39 instituições privadas foram monitoradas. Era preciso pelo menos 20 interessados para que a ação fosse montada. Só no período, cerca de mil pessoas tentaram se beneficiar com o esquema. As escolas selecionadas tinham grande demanda de alunos e um sistema de segurança falho.

No DF, a Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac) foi vítima da tentativa de fraude em três certames. Na capital federal, foram expedidos cinco mandados de prisão e quatro haviam sido cumpridos até o fechamento desta edição. Dos cinco, quatro eram aliciadores, estudantes de medicina ou de cursinhos, e o outro, corretor — a pessoa que auxilia na elaboração do gabarito. O delegado-chefe do núcleo de inteligência da PF no Espírito Santo, Leonardo Damasceno, explica que os membros das quadrilhas exerciam diversas profissões, muitos ligados à área da saúde, incluindo médicos. Durante a tarde de ontem, a reportagem tentou contato com a Faciplac, mas não obteve resposta.

Segundo Damasceno, com o andamento das investigações, a maioria das tentativas foram frustradas. Entretanto, o órgão tem uma lista preliminar dos estudantes que tiveram êxito. “No momento oportuno, com a decisão judicial de compartilhamentos, vamos fazer a comunicação para as instituições adotarem providências que julgarem competentes”. A principal estratégia da PF foi dar prejuízo às quadrilhas, pois o dinheiro só era recebido após o aluno passar no vestibular. No período, mais de 60 pessoas foram presas, a maioria por falsidade ideológica, ao tentarem fazer o vestibular no lugar do candidato.

Reincidentes
Grande parte dos envolvidos na fraude já haviam sido presos por esquemas corruptos em vestibulares ou concursos. “Alguns atuavam há décadas e já ganharam muito dinheiro com isso. Inclusive, um já tinha sido preso este ano. Eles eram flagrados em casos isolados, mas com a operação mostramos um caso contínuo grave, de saúde pública. E voltarão a atuar, porque a lucratividade é muito grande”. A estimativa de ganho por vestibular era de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões. Os envolvidos responderão por fraude em processo seletivo, formação de quadrilha, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro. Os alunos também serão indiciados.

O delegado ressalta a necessidade de punição. “Foi uma operação longa, mas muito importante. Não é admissível que, em um país onde tem tanto problema de saúde, o nascedouro de um médico tenha problemas de ética, de comportamento. É algo sério para as instituições que tem seu nome prejudicado, para o meio médico, que acaba tendo de conviver com esse tipo de profissional e, principalmente, para a sociedade, que põe a vida na mão dessas pessoas”, critica Damasceno.

O presidente do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF (Sinproep-DF), Rodrigo de Paula, lamenta o fato. “Esses cursos tem poucas vagas e uma forte demanda. No meu entendimento, deveriam ter uma oferta maior, sem isso, acaba ocorrendo fraude. Espero que tenha punição exemplar”. Em nota, o Ministério da Educação informou que “já solicitou, via ofício, a íntegra dos autos do inquérito policial para as devidas ações de supervisão em todas as instituições apontadas, em cumprimento à legislação educacional e à indução de melhorias dos padrões de qualidade da educação superior”. O Conselho Federal de Medicina não se manifestou em relação a operação.

46
Quantidade de pessoas presas na operação

Memória

Fraudes via celular
Uma das primeiras operações realizadas pela Polícia Federal em torno de fraudes em vestibulares ocorreu em 2004. A investigação identificou um grupo de pessoas que fazia a chamada cola eletrônica —repassava os gabaritos aos candidatos por meio de mensagem de celular. Pelo menos 15 integrantes foram presos no Acre, Distrito Federal, Goiás, São Paulo e Espírito Santo.

As investigações da PF, inicialmente voltadas para apurar as fraudes no vestibular da Universidade Federal do Acre (Ufac), começaram em 2001. Durante a apuração das irregularidades, foi identificado que o grupo pretendia agir também em concursos públicos e o primeiro seria no da própria Polícia Federal. Desde a operação, que recebeu o nome de Pensacola, iniciou-se um processo que chegou a outros grupos instalados no país, inclusive com agentes públicos.

70
Mandados de prisão foram expedidos pela Polícia Federal
Tags:

publicidade

publicidade