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A desconstrução da Bailarina

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postado em 21/01/2013 13:08 / atualizado em 21/01/2013 13:25

O interesse pelomovimento levou a mestranda em arte e tecnologia da Universidade de Brasília (UnB) Julia Ghorayeb, 27 anos, a mergulhar em um mundo muito diferente do que ela está acostumada —o universo dos cálculos e das estruturas.Oresultadodaimersão ao longo de dois anos é uma obra de arte moderna e inusitada: um robô que surpreende o público ao demonstrar reações humanas, do sono aomedo.

Exposta na galeria Espaço Piloto daUnB, a mostra Cacotecnia é inspirada em uma bailarina de caixinha de música.Mas, ao contrário das bonecas tradicionais, ela não dança ao som da canção de Heitor Villa-Lobos, que ecoa no espaço. “Eu queria que ela tivesse alguma coisa de errado”, explica a artista. “O nome já mostra isso. Significa falta de arte”, emenda.

Na maior parte do tempo, o robô dorme, inspirando profundamente. Ao reconhecer um rosto dentro da sua caixinha, porém, ele desperta e assusta o público com uma variedade de movimentos. A criação da artista está programada para demonstrar diferentes sentimentos. Dependendo da reação do espectador, o boneco esboça tranquilidade, susto e medo. As pupilas dilatam e a respiração é forte.

A obra imaginada pela artista plástica não teria saído do papel sem a colaboração de nove alunos e três professores da Faculdade de Tecnologia. Foram as bases da ciência da computação, da engenharia mecânica e da mecatrônica que deram vida ao robô de Julia. “Não fazia ideia de tudo o que eu precisava para executar esse projeto”, reconhece a mestranda.

Assim que surgiu a vontade de lidar com o movimento em seu trabalho de pós-graduação, em 2011, a aluna daUnB procurou a professora de engenharia mecânica Dianne Viana. Foi ela que reuniu toda a equipe necessária para executar a proposta da artista. “Nós já temos na faculdade um processo para realizar projetos interdisciplinares. Eu estava mesmo procurando temas diferentes para levar aos alunos. Achei ótima a experiência”, comemora.

O estudante de mecânica João Gabriel Gomes, 20 anos, foi um dos que toparam o desafio. À época, no segundo semestre do curso, o jovem ajudou a elaborar a estrutura que dá corpo ao boneco. Para ele, além da satisfação de ver a obra atrair tantos curiosos, ficou o aprendizado conquistado no trabalho em grupo. “Foi muito bacana. Eu sempre via os conteúdosna teoria e, agora, pude vivenciar na prática”, resume. Na construção do robô, João Gabriel e os colegas utilizaram materiais alternativos. Até cabo de bicicleta e embalagem de desodorante ganharam espaço na obra pelas mãos dos futuros engenheiros.

Orçamento
O custo da mostra ficou alto. Julia estima ter gastado R$ 35 mil no trabalho de mestrado. Parte dos recursos — quase R$ 20 mil — veio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e outros R$ 5 mil, de bolsas concedidas pela própria Universidade de Brasília. Ainda assim, ela precisou desembolsar quase R$10 mil para ter o projeto concluído.

Os gastos são justificados pela complexidade do boneco, erguido principalmente em alumínio, aço e látex, e pela grande estrutura que dá suporte à mostra. Atrás da caixa de música gigante,um computador e vários equipamentos eletrônicos controlamos movimentos do robô.

Para que exista a interação com o público, a equipe precisou desenvolver um programa de computador com base em um software livre disponível na internet. É esse sistema que, a partir das imagens obtidas pela câmera instalada nos olhos da bailarina, faz o reconhecimento da face das pessoas e aciona os motores acoplados no interior do boneco.

Público

Os movimentos são tão reais que encantam os espectadores.“ Fiquei muito impressionado”, conta o aposentado Claylton Zanlorenci, 61,quevisitou a mostra na tarde ontem.“A gente sempre vê robô relacionado à ciência, à pesquisa. É interessante ver um assim, como trabalho artístico”, completa. A filha de Claylton, a estudante Maria Eduarda Leão, 10 anos, também ficou satisfeita com o que viu. A garota se divertiu tentando despertar diferentes reações no boneco. “Achei o máximo. Parece mesmo uma bailarina”, compara.

Na reação do público, estáuma das grandes recompensas da artista, que apresenta em março o trabalho para a banca de avaliadores. Mas, além do sucesso da peça entre os visitantes, o contato com os outros alunos e professores daUniversidade também fez o esforço de dois anos valer a pena. “Adorei trabalhar com engenheiros. Gostei muito do pragmatismo deles. É mais fácil do que lidar com os artistas”, brinca a jovem, que já alimenta o desejo de partir para um doutorado.

 

Eu queria que ela tivesse alguma coisa de errado. O nome (Cacotecnia) já mostra isso.Significa falta de arte”

Julia Ghorayeb, 27 anos, mestranda da UnB em arte e tecnologia

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