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Correio Braziliense

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Intolerância

Aluna homossexual é atacada

Estudante de 20 anos da Universidade de Brasília leva empurrão pelas costas no estacionamento do Instituto Central de Ciências. Caída, foi chutada por um homem e ouviu do suspeito ofensas relacionadas à preferência sexual dela

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postado em 20/02/2013 11:02

Gabriella Furquim

“Não quero ter que tirar meus piercings, deixar meu cabelo crescer, esconder minha opção sexual e quem eu sou para me sentir segura na sociedade em que vivo.” O desabafo é da estudante de 20 anos agredida no estacionamento do Instituto Central de Ciências (ICC) Sul da Universidade de Brasília, na tarde da última segunda-feira. A jovem foi atacada por um homem, quando caminhava em direção ao carro, por volta das 17h. “Senti um empurrão e caí no chão. Ele começou a me chamar de lésbica nojenta e a me chutar. Uma hora eu apaguei e só o vi fugir”, conta.

Apesar de ter sido atacada pelas costas, a estudante diz que é capaz de identificar o agressor, que, de acordo com ela, tem entre 18 e 25 anos. “Gostaria de poder olhar para o rosto dele é perguntar o porquê (da violência). Por que ele acredita que pode agredir alguém por causa da opção sexual? O que passa na cabeça dele? Por que me atacou pelas costas e correu quando outras pessoas apareceram?”, desabafa a estudante, que teve a perna esquerda e o braço direito enfaixados e está com hematomas espalhados por todo o corpo. “Estou sentindo muita dor, muita raiva, muito medo.”

A vítima diz que não tinha inimizades na universidade e que nunca foi hostilizada ou ameaçada por ser homossexual. “Sempre me senti aceita e querida. Não imaginava que alguém seria capaz de algo assim. Forçando a barra, nos meus dois anos de UnB, lembro-me de uma única vez em que me senti ofendida, mas não fui ameaçada. Foi em uma roda de debates sobre a homossexualidade, mas não foi nada demais”, relembra. Colegas de faculdade da vítima confirmam que ela não tinha inimigos. “Ela é querida por todo mundo. Sempre foi tranquila, alegre e prestativa. Todos sabem da opção sexual dela e a aceitam muito bem”, conta a estudante Mariana Barbosa, 19 anos.

Outra amiga disse que esteve com a vítima momentos antes da agressão e não houve qualquer briga ou discussão que pudesse ter motivado a violência. “Eu e ela iríamos apresentar um trabalho juntas na aula das 14h. Na hora da apresentação, o computador dela pifou. Ela conversou com o professor e acertou com ele que iria tentar recuperar o arquivo do trabalho para entregar até o fim da tarde. Assistimos à aula e ela foi embora com o computador. Acredito que ela foi agredida depois de voltar para entregar o trabalho”, conta Yanne Iara, 21 anos.

Ação efetiva
A mãe da vítima cobra um posicionamento da UnB em relação aos episódios de intolerância que acontecem dentro do ambiente escolar. “O caso da minha filha não é a primeira agressão motivada por homofobia na universidade e nunca vi uma ação efetiva da UnB de combate a crimes assim, nem mesmo de conscientização”, protesta. A mulher acredita que o agressor pode cometer outros crimes contra homossexuais. “Do que uma pessoa com uma cabeça dessas é capaz de fazer? Eu tenho medo da resposta e é por isso, por alguém assim circular na universidade, que é tão necessária uma atitude da UnB”, afirma. A assessoria de comunicação da UnB informou que a instituição não havia conseguido entrar em contato com a aluna porque ela não procurou a segurança da universidade e que, assim que conseguisse falar com ela, prestaria todo o apoio necessário.

A estudante agredida diz que ficará afastada da UnB. “Não quero pisar lá tão cedo. Tenho muito medo. Não tenho condições físicas nem psicológicas de voltar a frequentar um lugar onde sou espancada por ser quem eu sou”, desabafa. A mãe da aluna rechaça a possibilidade de a filha abandonar o curso. “De jeito nenhum, ela gosta tanto. Vamos procurar ajuda, psicólogos. Ela vai conseguir se recuperar e voltar para a universidade, sendo quem ela é”, afirma.

Para o estudante Hyago Drayhan, 20 anos, diretor do Subversiva, coletivo de combate à opressão de minorias da UnB, a falta de posicionamento institucional abre espaço para manifestações de preconceito contra homossexuais no ambiente acadêmico. “Foram diversos casos e nenhuma ação efetiva. No começo do ano, as paredes do Centro Acadêmico de Direito foram pichadas com mensagens ofensivas (veja Memória). Há duas semanas, um estudante foi perseguido por um carro da L2 até o ICC, o motorista o chamou de bicha e o ofendeu durante todo o trajeto”, conta. A agressão foi registrada e está sendo investigada pela 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). O delegado responsável afirmou que não dará detalhes sobre o andamento das investigações para não atrapalhar a apuração do caso.

Memória

Preconceito a parede


Em janeiro deste ano, a Universidade de Brasília (UnB) foi alvo, mais uma vez, de manifestações de ódio contra mulheres e gays. No retorno às aulas, alunos encontraram mensagens ofensivas pichadas nas paredes do Centro Acadêmico de Direito (Cadir). As frases, escritas com tinta guache vermelha, eram “Ñ aos gays” e “Quem gosta de dar, gosta de apanhar”. Outras mensagens, de apoio ao feminismo e ao movimento gay, que estavam nas paredes, foram apagadas no mesmo dia. O Diretor da Faculdade de Direito, George Galindo; o reitor da UnB, Ivan Camargo; e o Consuni, conselho máximo da universidade, repudiaram o caso. Acionar as polícias Civil e Federal foi uma possibilidade cogitada, mas apenas um inquérito administrativo acabou aberto. A investigação institucional ainda não foi concluída.
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