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Ressocialização

Na companhia dos bons livros

Pesquisa feita com 200 presos no Complexo da Papuda mostra que 70% dos internos tornaram-se leitores assíduos depois de entrar na prisão. No presídio feminino, o índice chega a 40%. Os resultados são de uma dissertação de mestrado em letras na UnB

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postado em 26/02/2013 08:00 / atualizado em 25/02/2013 11:11


Detentos participam de apresentação do projeto Portas Abertas: desenvolvido pela Universidade de Brasília, o programa tem participação da professora Maria Luzineide Costa Ribeiro  (Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Detentos participam de apresentação do projeto Portas Abertas: desenvolvido pela Universidade de Brasília, o programa tem participação da professora Maria Luzineide Costa Ribeiro

O último livro que Luiz Carlos*, 30 anos, leu foi Quando Nietzche chorou, romance de Irvin D. Yalom sobre o filósofo alemão do século 19. “Nietzche sabia aproveitar suas depressões, em vez de fazer delas um inferno. Por isso, gostei bastante”, comenta.

Luiz é um leitor comum. Talvez incomum seja o local onde ele aproveita a leitura. Atualmente, o rapaz cumpre o nono dos 12 anos e 10 meses de pena por homicídio e assalto, detido em regime fechado na Penitenciária do Distrito Federal I (PDF I), no Complexo da Papuda. Antes, costumava ler apenas o que era cobrado no ensino médio, mas, na prisão, os livros se tornaram um prazer, uma forma de preencher o ócio e uma via de escape. Não é raro isso acontecer. A conclusão é de uma pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB): Luiz não foi o único a mudar os hábitos de leitura depois de ir para a cadeia.

No ano passado, a então mestranda em letras pela UnB Maria Luzineide Costa Ribeiro aplicou questionários entre 200 internos da PDF I e da Penitenciária Feminina do Distrito Federal (Comeia) e mapeou os hábitos de leitura dentro das celas. O estudo constatou que, depois de serem presos, o interesse pelos livros por parte dos detentos da PDF I aumentou em 52%. “É considerado leitor assíduo quem lê entre dois e três títulos por mês. No presídio, em torno de 70% dos internos se encaixam nessa categoria”, garante Luzineide. Na Comeia, o índice alcança os 40%.

O que motiva a procura pelas obras varia. Joesley*, 30 anos, foi sentenciado a cinco anos e 11 meses de prisão por tráfico. Hoje, dedica o tempo a ler a Bíblia, mas também gosta de romances policiais e livros espíritas. “Eu leio para ocupar o tempo livre, mas também por prazer e para estudar”, resume.

O questionário mostrou que outros presos têm opiniões parecidas. Na PDF I, 54% associaram a leitura à busca de conhecimento formal, com objetivo de ampliar a visão de mundo e facilitar a convivência com pessoas. “Muitos vincularam o hábito com a possibilidade de sucesso profissional e de escrever melhor. Uma boa parte do grupo mostrou acreditar, também, que ler os torna informados e, consequentemente, menos agressivos”, esclarece a pesquisadora.

Condenado por tráfico, Joesley*, 30 anos, gosta de ler a Bíblia, romance policial e livros sobre  espiritismo 
Condenado por tráfico, Joesley*, 30 anos, gosta de ler a Bíblia, romance policial e livros sobre espiritismo

Outros 38% afirmaram que a atividade representa um prazer na rotina. “Para eles, é uma maneira de acalmar e diminuir a tensão do ambiente”, acrescenta Luzineide, ex-professora do sistema prisional. Na Comeia, os resultados apresentaram algumas diferenças. “Mais da metade das mulheres procura conhecimento na leitura. Cerca de 20%, no entanto, se apoiam nos livros para combater a depressão, principalmente causada pela saudade dos filhos e da família”, descreve a pesquisadora.

Remissão de pena
Os detentos Luiz Carlos e Joesley foram pré-selecionados, neste mês, para participar do primeiro ciclo do projeto Portas Abertas, desenvolvido pela Universidade de Brasília (UnB), a princípio, na PDF I, a fim de observar detentos que visam à remissão de pena por meio da leitura. O programa segue a orientação da Portaria n° 276 do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), aprovada em junho do ano passado, e determina que o preso pode diminuir até 48 dias de pena se ler um livro mensalmente e apresentar uma resenha sobre cada obra no fim do mês.

O projeto terá professores e alunos da UnB para elaborar uma lista de obras literárias recomendadas para internos a partir do 9º ano que queiram ganhar o benefício. A equipe se encarregará da correção das resenhas entregues pelos detentos, que precisam obter  média de 7.

Para o diretor da PDF I, Celso Wagner Lima, a remissão pode ser um incentivo. “Só podem participar do projeto aqueles que tenham bom comportamento, então, o programa já influencia nisso”, argumenta. “E é mais uma oportunidade trazida pela leitura, que também ajuda a melhorar o raciocínio e a escrita dos presos”, acrescenta Lima.

Luiz Carlos* cumpre pena por homicídio e assalto: leitura diminui o ócio 
Luiz Carlos* cumpre pena por homicídio e assalto: leitura diminui o ócio
No entanto, há quem se oponha à diminuição de pena por meio da leitura, como o promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) Newton Cezar Valcarenghi Teixeira. “Acho importantíssimo que os detentos tenham acesso à educação e aos livros, porque é importante para a ressocialização. Mas dar a possibilidade de remir pena graças à leitura, sendo que há outras formas, passa a imagem de que não existe efetividade no cumprimento das penas”, argumenta.
 
Bibliotecas
A PDF I possui duas bibliotecas, batizadas em homenagem aos escritores Graciliano Ramos e Monteiro Lobato. Ao todo, são oito mil títulos variados, desde clássicos da literatura brasileira e estrangeiras até livros de estudo de português e direito — excluindo obras com conteúdo pornográfico ou que incitem o crime.

A maior parte do acervo é produto de doações. Detentos que tenham bom comportamento ganham o direito de pegar um livro emprestado. Alguns internos, porém, reclamam de condições estruturais. “Gosto muito de ler, mas fica difícil, porque minha cela é muito lotada de gente. Com tanto barulho, é difícil se concentrar”, queixa-se Joesley. Para Luiz Carlos, a disponibilidade de títulos no acervo poderia melhorar. “Alguns livros são muito ultrapassados, principalmente os de estudo”, opina.

O  levantamento registrou que, entre os detentos na PDF I que se disseram não leitores, 60% argumentaram não ter o hábito por ausência de orientação e 40% por falta de condições psicológicas.

Segundo a pesquisa, as preferências de leitura entre os detentos mudam, inclusive, de acordo com o histórico criminal. “Internos cumprindo pena por assalto preferem livros de aventura; os condenados por tráfico ou homicídio são adeptos a obras de tom religioso, e os culpados por crimes sexuais têm preferências por autoajuda amorosa”, define Luzineide.

* Sem sobrenome para preservar a identidade dos detentos


"Internos cumprindo pena por assalto preferem livros de aventura; os condenados por tráfico ou homicídio são adeptos a obras de tom religioso, e os culpados por crimes sexuais têm preferências por autoajuda amorosa”

Maria Luzineide Costa Ribeiro, 30 anos, pesquisadora


Os preferidos

Veja os títulos mais populares em cada bloco das penitenciárias:
  • Comeia (feminino): Aprendendo a conviver com quem se ama, de Neale Donald Walsch
  • Bloco D (homicídio e tráfico): Ágape, de padre Marcelo Rossi
  • Bloco E (penas curtas): obras de Sidney Sheldon
  • Bloco F (crimes sexuais): Um estranho no espelho, de Sidney Sheldon
  • Bloco G (crimes contra o patrimônio): Divina revelação do inferno, de Mary Baxter


Depoimento

“Aprender a viver”
“Enquanto o mundo livre acelera-se na livre concorrência e nas regras comerciais do momento, o homem preso deita-se no nojento colchão, abre um empoeirado livro e lê. Em segundos, ele estará lutando em alguma cruzada do passado ou estará entendendo com Sócrates o mundo das ideias ou ainda estará resolvendo um problema matemático de geometria. Quando o sistema o libertar, ele se arrependerá das horas que passou sem a companhia do livro. Que ele tenha a sorte de conquistar um tempo de sua vida para continuar a crescer, aprender a viver, amar e dar mais um salto.”
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