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Polo de ideias e de atitude

Fechada por alunos em 1967, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB é marco de resistência e inovação em 50 anos de atividade. Um documentário e um guia histórico do câmpus da Asa Norte celebram o cinquentenário

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postado em 27/02/2013 17:00 / atualizado em 27/02/2013 13:42

Ariadne Sakkis

Publicação: 27/02/2013 04:00

Cláudia Naves Amorim e José Manuel Morales Sánchez, vice-diretora e diretor da FAU: espaço com pé-direito duplo (Daniel Ferreira/CB/D.A Press) 
Cláudia Naves Amorim e José Manuel Morales Sánchez, vice-diretora e diretor da FAU: espaço com pé-direito duplo

Lá se vão mais de 50 anos desde que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) abriu as portas. Foi uma das primeiras criadas na recém-inaugurada Universidade de Brasília. Nasceram quase juntas e personificaram a ousadia de quatro grandes intelectuais brasileiros. A FAU, apadrinhada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer, germinou o modelo de ensino visionário de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. Os ateliês — dos poucos espaços na UnB que ainda preservam o pé-direito duplo e a integração da convivência entre calouros e veteranos — são testemunhas de embates políticos, resistência à ditadura, vanguarda no ensino e defesa dos ideais que ergueram Brasília.

 Das salas que até hoje abrigam a faculdade, no centro da Ala Norte do Instituto Central de Ciências (ICC), partiu uma revolução na forma de ensino superior que mais tarde se estenderia a todo o país. O sistema de créditos, concebido por Teixeira e Ribeiro, vislumbrava um currículo acadêmico multidisciplinar. O prédio do instituto foi inspirado nesse conceito: diferentes faculdades partilham o mesmo espaço, facilitando o diálogo e o trânsito entre docentes e alunos de cursos variados.

Com a graduação, surgiu ainda o Centro de Planejamento (Ceplan), que seria tanto um curso de pós-graduação em arquitetura quanto um local de desenvolvimento de projetos dos docentes. Hoje, o órgão não está mais vinculado à instituição, mas continua sendo o responsável pela construção dos edifícios novos do câmpus da Asa Norte.

O viés político da escola floriu cedo. Talvez pela força de seus patronos. Tanto é que o golpe de Estado que destituiu João Goulart em 1964 implicou na demissão sumária de 15 professores por motivos políticos. Outros 200 deixaram os cargos em solidariedade — inclusive Oscar Niemeyer. A interferência das Forças Armadas dentro da UnB empurrou a qualidade do ensino ladeira abaixo. Em resposta, os estudantes fecharam a faculdade em 1967.

Em 1968, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) foi convocado pelo movimento estudantil para tentar reabrir a escola. Professores de universidades de todo o país reuniram-se em Brasília liderados por Miguel Pereira — o primeiro diretor pós-reabertura da faculdade — para discutir o retorno das atividades diante do olhar vigilante dos militares. De volta às aulas, a FAU continuou sendo um dos pilares da oposição à ditadura.

“Na década de 1970, havia um coletivo de alunos que queria o mesmo ensino de excelência que havia no início. Por isso, houve um movimento de resistência a Azevedo (capitão-de-mar-e-guerra José Carlos Azevedo, reitor imposto à UnB) muito forte, inclusive dos professores. Isso obrigou a arquitetura a ter uma postura firme”, explica o diretor da instituição, José Manuel Morales Sánchez.

Os ateliês integrados devem ser mantidos, aliados à renovação tecnológica: poucos alunos em sala (Daniel Ferreira/CB/D.A Press) 
Os ateliês integrados devem ser mantidos, aliados à renovação tecnológica: poucos alunos em sala

Telefone grampeado
O atual presidente do IAB-DF, Paulo Henrique Paranhos, cursou arquitetura na UnB entre 1978 e 1982. Envolvido com movimentos sociais, ele lembra bem como a perseguição aos estudantes se estendeu por anos a fio. “O telefone da minha casa era grampeado. Não cheguei a ser preso, mas havia muitas formas de repressão e a FAU era o carro-chefe da resistência”, recorda.

Com a instituição do Estado democrático no Brasil, em 1985, e a evolução tecnológica dos últimos 30 anos, a FAU precisou se adequar às novidades. Isso refletiu, inclusive, na intensidade da militância política dentro da escola. “A vida acadêmica mudou muito. Hoje, os professores têm dedicação assoberbadamente ao ensino e à pesquisa. O foco é maior em conhecimento do que na vida política. Mas acredito que a faculdade mantém esse gérmen, que se traduz na força cultural que a FAU tem”, analisa Sánchez.

O elo entre a universidade e a cidade não se perdeu. Mudou com o contexto. A força a que Sánchez faz referência é a que aparece quando projetos ameaçam os ideais de criação de Brasília. Os acadêmicos constituíram uma das frentes mais resistentes à criação da Quadra 901, do Setor Hoteleiro Norte, por exemplo. Professores também se opuseram ao polêmico projeto de construção de um obelisco próximo à Rodoviária do Plano Piloto — mesmo que a autoria do croquis fosse de Oscar Niemeyer.

O professor Niemeyer abandonou o cargo em solidariedade aos 15 colegas demitidos pelo golpe (Lúcio Bernardo/CB/D.A Press - 14/8/86) 
O professor Niemeyer abandonou o cargo em solidariedade aos 15 colegas demitidos pelo golpe

Alguns aspectos do passado, porém, precisam ficar para trás. Um dos principais desafios da instituição, hoje, é justamente adequar o espaço físico às necessidades impostas pelo dinamismo tecnológico. A ideia é requalificar a estrutura sem destituir as características que se tornaram marca da faculdade, como os ateliês integrados, separados por divisões tênues. “Esse espaço é emblemático. Mas é um problema porque mudou a forma de ensinar. Existe mais demanda por aulas teóricas. O mobiliário tem 20 anos, quando a tecnologia era outra”, explica o diretor.

Os instrumentos para ensinar arquitetura e urbanismo podem até ter mudado, mas a faculdade ostenta certo orgulho por um traço particular ter se mantido com o passar do tempo. “Nosso ensino ainda é quase tutorial, feito com poucos alunos em sala de aula. Isso não existe fora há muito tempo. Virou ensino de massa”, acredita a coordenadora da pós-graduação e vice-diretora da FAU, Cláudia Amorim. A qualidade dos arquitetos formados na UnB ainda é referência no Brasil inteiro.

Entre os desafios para o presente e o futuro da instituição, talvez o mais urgente seja a equiparação da qualidade do ensino oferecido no curso diurno e no noturno. Neste ano, será implementado o sétimo semestre aos alunos da noite. Com o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), o número de estudantes cresceu mais rápido do que o corpo docente.

Para comemorar

Como a FAU tem a mesma idade da UnB, no ano passado as comemorações de aniversário se centralizaram no cinquentenário da universidade em si. Ainda assim, a faculdade conseguiu celebrar. Em 2012, em parceria com a Casa de Cultura Latino-Americana, organizou uma mostra de cinema sobre Brasília — filmada por pioneiros e brasilienses — no Museu Nacional. No fim de janeiro, uma solenidade teve a participação de Miguel Pereira, diretor da reabertura da FAU em 1968. A oportunidade também serviu para o documentário produzido por professores e pela UnBTV sobre os primeiros 25 anos da faculdade, como destaca uma das coordenadoras do projeto, Juliana Saboia: “Esse recorte histórico não foi documentado, ele existe apenas nos relatos orais. E essa história não pode se perder”. Além disso, os estudantes do curso compuseram um miniguia histórico do câmpus da Asa Norte. A execução do mapa aguarda recursos. “Temos obras de artistas brasileiros importantes espalhadas pela UnB e essa informação deve ser democratizada”, conclui Juliana.
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