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Pioneirismo para que os idiomas se perpetuem

Universidade de Brasília inaugura, hoje, o primeiro instituto de línguas indígenas do Brasil. Foi batizado em homenagem a Aryon Dal Igna Rodrigues, pesquisador paranaense que reuniu acervo de 20 mil peças ao longo de seis décadas

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postado em 07/03/2013 12:00 / atualizado em 07/03/2013 12:39

Mariana Laboissière

Janine Moraes
Num contexto em que a identidade do índio no país é subjugada pelos avanços dos novos tempos, Brasília inaugura, hoje, dia 7, o primeiro instituto de línguas indígenas do Brasil, uma marco na história nacional. A instituição leva o nome do linguista brasileiro Aryon Dall’Igna Rodrigues, professor da Universidade de Brasília (UnB). A solenidade ocorre a partir das 9h30, no auditório da reitoria da universidade e reunirá acadêmicos, estudantes e sociedade civil.

A programação inicia-se pela manhã e tem previsão de se estender até o fim da tarde, por volta das 16h30. Ela envolve explicações sobre as metas e as perspectivas da associação sem fins lucrativos, depoimentos de professores, como o próprio Aryon, coquetel e lançamento de publicações, além da defesa de uma dissertação de mestrado sobre a nandewa-tambeop, da família linguística tupi-guarani. O autor, Mauro Luiz Carvalho, é aluno de pós-graduação e indígena nativo.

Rodrigues, um paranaense de 88 anos, (ver Memória) declara-se honrado e feliz com a iniciativa: “Todos os colegas e pessoas do mundo todo manifestaram-se a favor dessa bandeira e isso mostra o reconhecimento do trabalho para a sobrevivência das línguas indígenas”, pontuou. O pesquisador estima que, atualmente, existem 200 delas país. Segundo ele, no transcorrer de um século, aproximadamente 50 idiomas desapareceram. Entre os mais falados, hoje, estão ticuna, guajajara, maué, mundurucu e ianomami. Elas se conservam, principalmente, nos estados do Amazonas, de Rondônia, do Pará, do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.

Biblioteca

Um dos objetivos do instituto é preservar um acervo de aproximadamente 20 mil livros e revistas sobre línguas e culturas indígenas estruturado por Aryon Rodrigues ao longo de 60 anos. “Ele ficou preocupado com a preservação desses documentos e assim tivemos a ideia do instituto. Professores de instituições acadêmicas do Brasil juntaram-se a fim de criá-lo”, explicou a especialista em línguas indígenas Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, secretária-geral do instituto. Ela acrescenta a importância da biblioteca. “É algo fora do comum, pois reúne correspondências, fotos, vídeos, manuscritos e trabalhos que o professor fez e ainda não publicou, além de doações”, detalhou.

Além de salvaguardar os registros históricos, outra ação é tornar a memória documentada algo acessível à sociedade, permitindo a interação com as comunidades para fortalecer línguas e culturas ameaçadas de extinção. “Queremos nos tornar um centro de documentação viva, dinâmico e não um acervo estático. Além disso, é imprescindível que os arquivos sirvam às escolas para a recuperação de informações sobre rituais e estruturas linguísticas que se perderam”, frisou a especialista. Há previsão também para investimento na formação de professores. “Temos que estimular a didática no ensino das línguas indígenas, pois infelizmente não temos métodos para isso no Brasil”, completou.

Por ora, o instituto não tem sede estabelecida, mas os professores envolvidos na iniciativa prometem pleitear um espaço dentro da Universidade de Brasília. Para tanto, ele precisará de uma biblioteca, de salas de aula e de um auditório. Enquanto a ideia não ganha vida, o instituto funciona de maneira improvisada em dois locais diferentes: no Laboratório de Línguas Indígenas (Lali), na UnB, de onde parte o trabalho administrativo; e na residência do professor Aryon Rodrigues, também presidente honorário, onde ocorre a catalogação inicial dos livros. Na presidência executiva da associação, está o especialista Wilmar da Rocha D’Angeles, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Vocabulário

» Língua zo’ é: família linguística
tupi-guarani (tronco tupi)
Palavra     Tradução
Ory     alegria ou alegre
Kirahi     não índio
Erekwat     esposa ou a que faz alguém ficar com ela

» Asurini do Tocantins: família tupi-guarani
(tronco tupi)
Palavra     Tradução
Se memyra     meu filho
Se mena     meu marido
Oroesapota    quero te ver

» Surui paiter: família mondé (tronco tupi)
Palavra     Tradução
Ikahp    dente
Ikyhp    dentinho
Arimê xim    macaquinho

Memória
Laboratório desde 1999

A Universidade de Brasília foi a  primeira a abrir uma linha de estudos de línguas indígenas no Brasil. Desde 1963, a convite do antropólogo mineiro Darcy Ribeiro, o professor Aryon está à frente desses trabalhos com a criação de um centro específico. Interrompida durante a ditadura, a atividade na UnB foi retomada após o fim do regime, em 1988. E, em1999, Rodrigues criou o Laboratório de Línguas Indígenas (Lali). Hoje, o acervo do professor, somado ao do laboratório, reúne 40 mil peças.

 

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