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Correio Braziliense

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Histórias de violência contra as mulheres

Documentário produzido em diferentes classes sociais por aluna de serviço social da Universidade de Brasília mostra três casos de agressão física e psicológica. O curta-metragem com enfoque em duas narrativas foi premiado pela Câmara dos Deputados

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postado em 14/03/2013 19:00 / atualizado em 14/03/2013 13:29

Iano Andrade
As vidas de Sara, Verônica e Taís se cruzam no documentário Trajetórias marcadas pela violência. A estudante da Universidade de Brasília (UnB)  Jackeline Soares Lima, de 22 anos, apresentou o vídeo, de 30 minutos, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de serviço social neste semestre. O filme conta como as três mulheres lidaram com anos de agressões físicas e verbais dos ex-companheiros. Por serem de classes sociais diferentes, elas demonstram que a violência doméstica pode ocorrer em qualquer meio ou circunstância. Os relatos, em muitos trechos emocionados, culminam com o discurso de superação.

O interesse da estudante pelo tema surgiu com o estágio no Ministério Público e as aulas de videoativismo e de fotografia na faculdade. “Na turma de Débora Diniz, professora famosa por seus documentários, foram ensinadas técnicas de utilizar o vídeo para causas políticas, principalmente ligadas a direitos humanos. E, no Ministério, eu fazia as entrevistas com as mulheres e o estudo da família nos processos. Sempre quis trabalhar com essa questão de gênero”, justifica Jackeline.

No início, ela achou que o projeto não emplacaria, já que as monografias são tradicionalmente mais valorizadas que os produtos no curso. O incentivo para a filmagem veio quando a professora Débora aceitou ser a orientadora.

Depoimentos

Antes do desafio de convencer a banca sobre a qualidade do documentário, Jackeline precisava encontrar personagens que aceitassem revelar suas histórias em frente às câmeras. “Não queria usar técnica nenhuma para escondê-las. Violência contra a mulher tem um rosto, uma história, uma carga que não pode ser negada”, defende. Como havia tido contato com algumas vítimas no estágio, ela cogitou conversar com elas, mas logo desistiu por acreditar que seria inconveniente misturar os dois trabalhos. Qual seria a alternativa para encontrar testemunhas de uma realidade tão mascarada? Promovendo, no boca a boca, a iniciativa. Sempre que falava sobre seu TCC com conhecidos, havia alguém para dizer que sabia de um caso.

Aos poucos, ela conseguiu quatro entrevistadas. Uma delas desistiu por achar que a exposição poderia ser perigosa para ela e para a família. As outras permaneceram firmes no propósito de contar sobre o que passaram.

Sara sofreu a primeira agressão quando pediu ao marido que cuidasse do filho pequeno, pois ela estava cansada. Mesmo depois de separados, ele foi à casa dela embriagado. Para fugir dos tapas que recebia, Sara pulou da janela. A irmã, da Polícia Federal, a encorajou a registrar uma ocorrência, mas os planos de que ele fosse punido não saíram como o planejado. “Ele me agrediu com palavras na frente do delegado, e ele não fez nada. Tive crise emocional”, relembra no vídeo Trajetórias marcadas pela violência.

História semelhante aconteceu com Verônica. “A gente vê aquela pessoa, que jurou amar para sempre, abusar da gente e bater. Eu casei para ser feliz e não fui feliz”, lamenta a mulher de 39 anos. Para Jackeline Lima, o relato mais emocionante tem detalhes de causar indignação. Se o ex-companheiro chegasse e não encontrasse comida, ele descontava a raiva nela. Segundo a vítima, tudo era motivo para bater. No fim, ela acabou punida e ele não. “Verônica sofreu várias tentativas de assassinato. Ela foi se defender um dia, atingiu-o gravemente, foi parar na DP (Delegacia de Polícia) e teve de cumprir a pena de trabalho comunitário. Passou 20 anos sofrendo e foi presa”, conta a universitária.

Taís completa o trio. De classe média alta, o caso dela ocorreu depois de a Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, ser promulgada. Taís percebeu que o ex-companheiro era agressivo em uma viagem para o exterior. Assim que ele cometeu a primeira agressão, ela procurou a polícia.

Com a lei, sentiu que o procedimento era ágil, e ela era logo encaminhada para fazer o exame de corpo de delito. Por outro lado, ficou insatisfeita com a punição: o ex-marido teve de cumprir apenas serviço comunitário.

Concurso

Com versão menor do documentário, de 10 minutos, a formanda se inscreveu no 1º Concurso de Curta Documentário sobre a Lei Maria da Penha, da Câmara dos Deputados (ver Para saber mais). No vídeo editado especialmente para a disputa, estão as histórias de Sara e Verônica. Por ter menos 20 minutos que no original, Jackeline decidiu tirar o depoimento de Taís para manter a qualidade das outras duas narrações, anteriores à Lei Maria da Penha.

O evento de premiação aos cinco vencedores ocorreu na semana passada. O primeiro lugar ficou com Fernando Francisco Antunes, responsável pelo curta Maria Maria, que conta a rotina de mulheres que participam de um projeto de educação popular em São Paulo. Divas — Vozes femininas; Uma lei para todas e Sílvia são segundo, terceiro e quarto lugares, respectivamente. Trajetórias marcadas pela violência ficou com a quinta posição.

A disputa foi acirrada. Houve uma diferença de apenas cinco pontos entre Fernando Antunes e Jackeline. Entre os critérios jornalísticos e técnicos para a classificação estavam adequação ao tema, potencial para atrair o interesse do público, originalidade, roteiro, som e trilha sonora, fotografia e edição. Os vídeos serão exibidos pela TV Câmara e pelo Banco Mundial em hot sites que ainda serão colocados no ar.

Terapêutico

A estudante da UnB, que não tinha formação em audiovisual, ficou com o roteiro, a pesquisa e a direção do curta. Para a edição e as filmagens, ela contou com ajuda.

Nos registros, é possível perceber a intenção da jovem e das vítimas. “Hoje sou feliz, meus filhos estão criados e eu curto a vida”, ressalta Sara. “Hoje, me considero uma mulher vencedora, cuido da minha família, trilho meus caminhos, mesmo se chegar ao final e eu não alcançar meu objetivo, fui eu que fiz. Não aceito intromissão de homem nenhum mais na minha vida”, emenda Verônica.

Jackeline só deu um empurrão para que as três contribuíssem para a causa. “Elas acharam importante contar a história delas para que outras mulheres não passem pela mesma coisa. É quase terapêutico”, conclui.

Para saber mais
22 concorrentes

A Procuradoria Especial da Mulher e a Secretaria de Comunicação da Câmara dos Deputados, com apoio do Banco Mundial, promoveram a disputa. Para a final, foram selecionadas 22 produções inéditas de São Paulo, do DF, de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, do Maranhão, da Paraíba, do Amazonas, do Mato Grosso do Sul e do Piauí. O concurso tinha como slogan “Tem uma história relacionada à Lei Maria da Penha? Conte para o mundo!” e determinava que o vídeo devia ter entre cinco e 10 minutos de duração. O produto audiovisual era obrigado a tratar do alcance da lei por meio de casos reais. Apesar de o edital classificar os vídeos como reportagens, ele incentivava as narrativas detalhadas, inovadoras e com linguagens fora do padrão do telejornalismo diário. Os cinco primeiros colocados receberão R$10 mil pelos direitos de concessão das imagens.
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