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UnB desenvolve novo método de datação de impressões digitais

Estudo feito por perito da Polícia Civil avalia envelhecimento de marcações. Técnica foi utilizada em laudo do crime da 113 Sul

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postado em 22/03/2013 14:43

Agência UnB

O pesquisador da UnB e perito em papiloscopia da Polícia Civil do DF Rodrigo Meneses desenvolveu método que estima há quanto tempo uma impressão digital foi produzida. O estudo aperfeiçoa técnicas usadas em laudo da polícia sobre o triplo homicídio do casal Villela e da empregada da família ocorrido em 2009, conhecido como crime da 113 Sul.

Durante o mestrado em Ciências Médicas, Rodrigo analisou o processo de envelhecimento de impressões de 20 indivíduos num período de 30 dias. Observou que a partir do 10º dia o desenho das impressões começa a apresentar mudanças significativas. “Houve mudança em padrões morfométricos, ou seja, redução na largura e no percentual das cristas visíveis [linhas mais escuras do desenho da digital]”, explica.

Marcelo Reis Jatobá/UnB Agência
 

Ao reproduzir em laboratório impressões deixadas pelo suspeito e condições do local do crime, como umidade e temperatura, a técnica calcula um intervalo de tempo no qual as marcações podem ter sido produzidas. Não é possível, no entanto, fornecer o momento exato em que isso aconteceu porque algumas variáveis como a pressão do contato e a quantidade de suor do suspeito dificilmente são reproduzidas com precisão.

“É uma estimativa de há quanto tempo pode ter sido produzida. Em uma investigação, cada prova tem a sua importância. Por mais que a estimativa aponte para um intervalo de alguns dias, ela pode se somar a outras provas reforçando uma determinada linha da investigação. O que condena uma pessoa é um conjunto de provas”, esclarece Rodrigo.

O perito conta que o estudo começou em 2010 quando investigava o assassinato do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, sua esposa Maria Villela e a empregada Francisca Nascimento Silva. Eles foram encontrados mortos a facadas dentro de um apartamento no 113 Sul. A polícia investigava se a filha do casal, Adriana, estivera no apartamento no momento do crime. Pelo tempo passado desde as mortes, a análise química das digitais era inviável. Rodrigo fez então um levantamento da literatura forense sobre a datação a partir de avaliações morfológicas e encontrou poucos artigos. Com colaboração da UnB, uma equipe de peritos avaliou alterações da impressão palmar (da mão) de Adriana coletada na porta de um armário. Concluíram que ela esteve no local entre 24 e 30 de agosto. As mortes aconteceram no dia 28. Adriana alegou que esteve pela última vez no apartamento no dia 13.

O laudo é considerado uma forte evidência do envolvimento de Adriana. Segundo a delegada Mabel de Faria, da Coordenação de Investigação de Crimes Contra a Vida (Corvida), o álibi da suspeita já havia sido derrubado e testemunhas diziam que ela estivera no prédio, mas faltava uma prova material. O fragmento da impressão palmar chamou atenção pela qualidade de visualização, equivalente à chamada impressão padrão, que corresponde à imagem exata da mão de cada pessoa. “Os peritos levantaram vários quesitos neste sentido, como que poderia ter sido produzido com excesso de suor. Ou situação a mais provável é que tenha tido uma produção mais recente do que ela alegava. O laudo veio então coroar o questionamento que vinha sendo feito”, afirma a delegada.

Atualmente, o processo do crime está na fase final de alegações dos réus, quando eles ainda podem requerer diligências. Nesta fase, bastam indícios para que o juiz decida se os réus devem ser julgados ou não por júri popular. Mas na etapa seguinte, no julgamento final, a Justiça exige que as provas de condenação sejam contundentes. A delegada Mabel acredita que o sucesso dos experimentos de Rodrigo pode ajudar nesse sentido. “Com certeza a contribuição científica fortalece. A defesa contratou peritos, ainda que não sejam papiloscopistas, para desconstruir o laudo. Falaram que a técnica não era passível de utilização porque não é conhecida. Mas ninguém se debruçou e conseguiu desconstruir tecnicamente o laudo. Foi só um questionamento da novidade”, afirma.

De acordo com a orientadora da pesquisa, Selma Kuckelhaus, a pesquisa foi avaliada e aprovada por “um corpo de revisores de alto gabarito”. “Nós identificamos um perfil de envelhecimento que pode ser mensurado. A importância do trabalho está em usar métodos convencionais acadêmicos para dar suporte à area técnica.”, avalia.

REPERCUSSÃO – O método já tem atraído a atenção da polícia. Em junho do ano passado, ajudou a solucionar o assassinato de um funcionário do restaurante Xique-Xique. Mabel conta que um perito encontrou a digital do agressor, um ex-funcionário demitido há algum tempo, numa porta de vidro. “A porta era limpa diariamente. Mas pela qualidade da digital, o papiloscopista afirmou que ela havia sido produzida recentemente. Mesmo sem o laudo, essas informações foram relevantes para que a gente chegasse ao autor em menos de 24 horas”.

Na última terça, 19, a defesa da dissertação de Rodrigo foi assistida por diversos representantes dos Institutos de Medicina Legal, Criminalística e Identificação do DF e da Federação Nacional dos Papiloscopistas.

 

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