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Educação

UnB menos rigorosa na seleção

A partir do próximo vestibular, as questões discursivas não serão mais eliminatórias. Direção da Universidade de Brasília diz que a alteração foi feita para garantir o preenchimento das vagas do sistema de cotas sociais. Professores criticam a medida

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postado em 03/04/2013 19:00 / atualizado em 03/04/2013 12:50

Mariana Laboissière

Viola Júnior
O 2º vestibular 2013 da Universidade de Brasília (UnB) passará por mudanças, conforme o Correio adiantou na edição de ontem. A partir de agora, as temidas questões discursivas, do tipo D, não terão mais caráter eliminatório. Desde o 1º certame de 2012, era exigido dos candidatos acertar, no mínimo, 20% na totalidade dessas perguntas, que, além do conteúdo, exigem habilidades de escrita dos estudantes. No próximo exame, esse percentual deixará de ser cobrado. Portanto, o fato de o candidato obter resultado nulo não inviabilizará a aprovação no vestibular. A divulgação do edital está prevista para hoje. Com o novo entendimento, as questões discursivas passam, então, a ser classificatórias (Leia quadro). As informações são da Secretaria de Comunicação (Secom) da UnB.

Um dos motivos do ajuste no edital foi o grande número de vagas ociosas nos últimos exames. O decano de Ensino de Graduação da instituição, Mauro Luiz Rabelo, afirmou que, no primeiro vestibular das cotas sociais, o número de aprovados vindos de escolas públicas foi pouco expressivo. “Com a inclusão desse segmento, a universidade observou que não conseguiu preencher os 12,5% das vagas destinadas aos alunos oriundos da rede pública, tanto no PAS (Programa de Avaliação Seriada), como no vestibular”, justificou. “Um dos pontos que causou isso foi justamente essa barreira de entrada criada em 2011. Ela elevou a nota mínima para ingresso nos cursos da UnB”, completou.

O decano mencionou ainda que, a partir de simulações, ficou comprovado que o resultado seria outro ao desconsiderar o caráter eliminatório das questões tipo D. “Nesses testes, foi verificado o preenchimento da totalidade das vagas”, esclareceu. “Se a universidade não rever essa pontuação, não cumpre o que determina a Lei das Cotas. Então, para fazer valer uma política de Estado, é necessária a revisão. Além disso, precisamos desenvolver uma função social”, emendou. Segundo Rabelo, quando a mudança foi inserida pela primeira vez no vestibular, 55% dos candidatos acabaram eliminados.

Contrassenso
O coordenador de português do Centro Educacional Sigma, Josino Nery, analisa a mudança como um contrassenso. “O percentual aplicado a essas questões surgiu de uma reclamação interna. Como o nível dos alunos não estava bom, veio essa novidade. Agora, se o argumento é o preenchimento das vagas, eu entendo que o método de avaliação, que antes estimulava o aluno a escrever melhor, não é mais importante”, pontua. O professor não concorda com a alteração. Para ele, todos serão afetados. “De alguma maneira, isso pode ajudar os beneficiados pelas cotas sociais, mas não acredito que seja algo exclusivo. Todos serão atingidos”, concluiu.

A medida não é vista com bons olhos também pelas calouras do curso de letras da UnB Stella Hadassa,17 anos, e Selene Sodré, 18. “Vai facilitar a vida de muita gente, afinal, muitas pessoas deixaram de ingressar na universidade por causa disso. Acho que deveria ser mantido o critério”, argumentou Stella. “Se esse era um pré-requisito, os candidatos, consequentemente, se esforçavam mais para escrever melhor. Então, a medida vai abrir uma vantagem para aqueles com resultados melhores nas questões fechadas. Esses, não necessariamente sabem se expressar bem. Os alunos de escolas públicas podem ser os mais beneficiados”, emendou Selene.

Novidade
No 1º vestibular 2011 da UnB, os itens do tipo D foram inseridos na prova. Antes disso, as seleções da universidade só traziam itens dos tipos A, B e C. A partir 1º de 2012, as questões discursivas passaram a ter caráter eliminatório, com exigência de, no mínimo, 20% de acertos.

Baixa ocupação
Aprovação pelo sistema de cotas
nos últimos certames da UnB:

Programa de Avaliação
Seriada (PAS)
Vagas ofertadas Preenchidas
305 100

Vestibular convencional
Vagas ofertadas Preenchidas
305 209

Regras

Como era
Nas exigências do edital anterior, para o candidato ser aprovado, ele deveria acertar 20% das questões discursivas (tipo D). O critério fazia com que esse tipo de pergunta tivesse caráter eliminatório.

Como vai ficar
As questões discursivas (tipo D) não serão mais eliminatórias. O percentual de 20% de acertos, exigido antes, deixará de existir. Assim, esses itens passam a ser classificatórias.

Facilidade questionada

A estudante Júlia Ornelas Kramer, 17 anos, vai prestar o vestibular da UnB no segundo semestre. Ela busca vaga no curso de engenharia química e analisa a medida como temerária. “Tem os dois lados da moeda. Como vestibulanda, não posso deixar de achar isso bom, mas tendo uma visão a longo prazo, pensando no futuro, creio que isso fere o princípio da seleção, que é afunilar o nível dos candidatos”, pontuou. Júlia também preocupa-se com o nível dos profissionais inseridos no mercado de trabalho. “Em todas as áreas, você precisa de pessoas que saibam argumentar, defender pontos de vista. Então, é importante avaliar aqueles que sabem escrever logo na academia”, frisou.

Vinte e quatro alunos do colégio Pompílio Marques de Souza, escola de Planaltina, ingressaram em universidade públicas com louvor este ano. Boa parte deles passou na UnB, como Kamila Karem Gomes, 17 anos. Ela foi a primeira colocada em arquitetura no PAS pelo sistema cotas sociais. “Vai ficar mais fácil não apenas para pessoas que passam pelas cotas, mas para todos os candidatos. Mesmo assim, não sei se essa é a melhor opção”, comentou.

O diretor do colégio onde Kamila estudava tem opinião parecida. “Na escola, trabalhamos com a preocupação de o aluno ser completo: ler, interpretar e escrever corretamente. Acreditamos que ele deva ser bom em tudo. Com essa mudança, imagino que a UnB vá dar margem a críticas”, argumenta Welton Rabelo. Na opinião dele, é necessário selecionar os melhores candidatos em uma universidade. “Quando você melhora o nível, forma profissionais mais capacitados”, defendeu.

O Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cesp) da UnB não confirmou a data de divulgação do edital ou as mudanças previstas. A entidade ratificou a informação de que o documento será lançado até o fim desta semana. Outra novidade será a abertura de 35 vagas em um novo curso: fonoaudiologia, que será ministrado no câmpus de Ceilândia. (ML)

 

 

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