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Ensino Superior

Reitor da UnB rebate críticas

Universidade de Brasília garante que mudanças no vestibular e no PAS não vão afetar a qualidade da formação dos alunos e serão adotadas para cumprir o que determina a Lei das Cotas. Especialistas e alunos questionam a medida

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postado em 04/04/2013 19:00 / atualizado em 04/04/2013 11:48

Mariana Laboissière

Viola Júnior
O edital do 2º vestibular 2013 da Universidade de Brasília (UnB) ainda não saiu, mesmo assim, docentes, pais e alunos demonstram preocupação diante das mudanças sinalizadas pela instituição, como mostrou o Correio na edição de ontem. A partir de agora, as questões discursivas, conhecidas como tipo D, passam a ser classificatórias e não mais eliminatórias, tornando, de certa forma, mais fácil a ingresso dos candidatos à universidade. Os 20% de acertos exigidos nesses itens deixam de existir. Resultado nulo nessas perguntas, portanto, não inviabiliza a aprovação. Por trás da novidade, está o baixo índice no preenchimento das vagas nos últimos certames, principalmente as destinadas aos alunos de escolas públicas, enquadrados nas cotas sociais.

O reitor da UnB, Ivan Camargo, é categórico ao dizer que não haverá um relaxamento no vestibular. “Nós continuaremos selecionando os melhores. Não mudou em nada, só não temos interesse em deixar vagas ociosas. Não podemos abrir 40 oportunidades e ver passar apenas quatro pessoas”, explicou. Camargo acredita que o percentual de 12,5% das cotas sociais seja, então, atingido com a adoção da medida tomada pela instituição (Leia O que diz a lei). “Não vamos deixar o vestibular fácil, afinal, todos sabem que a prova é difícil. Não faz sentido você criar uma prova em que não passe ninguém”, justificou. O reitor salientou que a instituição busca, cada vez mais, melhorar o acesso à universidade pública.

O professor do Colégio Elefante Branco, Luciano de Sousa Silva, que dá aulas de matemática, analisa a medida como uma forma de “nivelar por baixo” os candidatos. “É um estrago o que a UnB está fazendo. Afinal, muitos alunos podem entrar na universidade sem preparo. Quanto mais exigente for o vestibular, melhor. Assim, o estudante estará mais capacitado para enfrentar o mercado de trabalho”, argumenta.  Para o docente, a base do ensino deveria ser priorizada. “Já pensou se os concursos fossem assim, se pensassem em facilitar as provas? E nas concorrências de emprego, se fizessem uma seleção menos rígida?”, questiona.

O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Claudio Megiorin, demonstrou preocupação diante da sinalização da UnB. “Estamos temerosos em saber onde isso vai parar. Todos têm esperança de o filho passar em uma universidade pública, mas têm pais já se perguntado se investir em uma escola particular vai valer a pena diante dessa medida. Afinal, daqui a pouco, quem paga pela educação vai ficar a ver navios.” Ontem, a entidade divulgou nota sobre o assunto e fez uma reflexão diante da Lei de Cotas. Um dos trechos do documento destaca que a legislação ainda não teve o mérito de, por si só, aprovar alunos de escolas públicas nos vestibulares mais concorridos.

Menos qualificação

Alunas do Centro de Ensino Médio Setor Oeste, Amanda Pereira Castro, 16 anos, e Layane Andrea Ferreira Marra, 15, também questionam a proposta da UnB. Para elas, o argumento apresentado  para sustentar a mudança no vestibular fará com que aumente o preconceito em relação aos estudantes oriundos de escolas públicas. “Parece que estão chamando a gente de burro. Acham que não temos capacidade de entrar na UnB por conta das questões do tipo D? Interpreto dessa forma e não concordo”, reclama Layane. Para ela, a medida trará sérias consequências, pois a academia poderá formar profissionais menos qualificados.

Amanda concorda com a colega. Para ela, todos os aspirantes às universidades públicas do país deveriam ser analisados de forma igual. “Acabam criando cotas e mais cotas e acho que esse não é o caminho. Tornar as questões do tipo D classificatórias deixará a prova mais fácil, mas, com isso, mais pessoas despreparadas vão entrar na UnB”, justificou.

Autonomia

A Constituição de 1988 prevê a autonomia das universidades. Com base no texto, essas instituições gozam de liberdade didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e devem obedecer ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, mas têm liberdade para estabelecer os critérios de seleção de candidatos.


O que diz a lei

A lei das cotas sociais, nº 12711/2012, em vigor desde agosto do ano passado, estabelece que 12,5% das vagas existentes nas instituições federais de ensino ficam reservadas para alunos que estudaram em escolas públicas, pertencem a famílias com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo ou se autodeclaram negros, pardos ou de origem indígena. No ano que vem, esse percentual vai dobrar, até atingir 50% em um prazo de quatro anos. Para se beneficiado pela legislação, os candidatos devem ter cursado o ensino médio integralmente em instituições públicas. No caso da Universidade de Brasília, em especial, a instituição decidiu ainda manter os 20% para os afrodescendentes. Porém, em 2014, esta política será revista pelo Conselho Universitário (Consuni) e pode ter o percentual reduzido ou ser extinta. De acordo com o governo federal, em 10 anos, será implementado um programa de acompanhamento para avaliar a necessidade de continuação da ação.

 

"Revisão necessária"


 

 
"Não vamos deixar o vestibular fácil, afinal, todos sabem que a prova é difícil. Não faz sentido você criar uma prova em que não passe ninguém"
Ivan Camargo, reitor da UnB


De acordo com o texto da Lei de Cotas, as universidades públicas devem destinar 12,5% das oportunidades existentes a alunos que vieram de escolas públicas, mas não existe sanção caso as vagas não sejam totalmente preenchidas. Procurado, o Ministério da Educação (MEC) preferiu não comentar o assunto, com base na autonomia da UnB.

Em entrevista ao Correio na última terça-feira, o decano de Ensino de Graduação da UnB, Mauro Luiz Rabelo, destacou a importância de “fazer valer uma política de Estado”. “Tivemos cursos em que foi preenchida apenas uma vaga e isso aconteceu por conta da pontuação mínima exigida. Então, a revisão é necessária. Não adianta ofertar as vagas e não preenchê-las com os candidatos a que elas foram designadas”, analisou na ocasião.

O membro do Conselho de Governança da ONG Todos pela Educação Mozart Neves Ramos confessa que é difícil julgar a decisão da UnB. “Eu vejo como crime deixar vagas ociosas na universidade, tendo em vista a grande demanda reprimida. Então, acho que esse foi o caminho encontrado por eles para o problema não persistir. Não acredito que vá cair a qualidade do vestibular drasticamente, mas, naturalmente, isso ocorrerá”, frisou. Depois da instituicionalização da mudança, Ramos acredita que seja importante a instituição avaliar o custo da medida. “É preciso verificar de que forma isso impactará na qualidade. Afinal, não adianta colocar muita gente para dentro da universidade se essas pessoas não tiverem uma base mínima. Também devem se preocupar com evasão”, sugeriu.

O professor aposentado de cursinho Luiz Fernando Fonseca acredita que é preciso fazer mais pelos alunos das escolas públicas. Para ele, é necessário investir no que ele chama de “base da pirâmide”, isto é, no anos iniciais do ensino fundamental. “Não é com decoreba e macetes que os candidatos vão estar aptos”, comenta, destacando que dados mostram justamente falhas no sistema. “Eu gostaria muito que todos tivessem condições de pagar um curso para se aperfeiçoar, mesmo assim não deixo de pensar que, no vestibular, deveria haver uma condição mais equânime entre os candidatos”, acredita. Ele também não é favorável a mudança sinalizada pela UnB. (ML)

 

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