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Educação

Em prol das cotas sociais

Para garantir o preenchimento das vagas reservadas aos estudantes de escolas públicas, Universidade de Brasília decide abrandar as regras das questões discursivas. No 2º vestibular de 2013, elas deixarão de ser eliminatórias

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postado em 08/04/2013 10:00 / atualizado em 08/04/2013 12:36

Ana Pompeu

Ed Alves
Depois dos primeiros resultados das provas de ingresso na Universidade de Brasília (UnB) com a vigência da Lei das Cotas Sociais (veja O que diz a lei), a instituição decidiu retomar regras mais brandas em relação às questões tipo D. No 2° vestibular de 2013, essa modalidade deixa de ser eliminatória e volta a contar apenas para a classificação do candidato. Na última edição do certame, das 305 vagas destinadas aos estudantes de escolas públicas, apenas 209 foram preenchidas. No Programa de Avaliação Seriada (PAS), só 100 foram ocupadas. Em análise feita pela reitoria, os itens tipo D foram os vilões de muitos candidatos.

O modelo vigorou em três vestibulares da universidade. As questões tipo D se tornaram eliminatórias no 1° semestre de 2012. Naquela edição e nas duas seguintes, os candidatos deveriam acertar pelo menos 20% dos itens discursivos para terem as provas corrigidas. No mesmo período, essas questões passaram de duas para quatro em cada dia de prova. A decisão foi tomada para evitar que os estudantes pulassem esse tipo de avaliação tanto no vestibular quanto no PAS. No entanto, nos primeiros testes com 12,5% das vagas reservadas para os estudantes de escolas públicas, a instituição teve alto índice de oportunidades não preenchidas.

A administração central entendeu, então, que a política pública não seria efetivada caso nenhuma medida fosse tomada para reverter esse quadro. “As mudanças ocasionaram o não preenchimento das vagas em diversos cursos da universidade. Antes, sobravam apenas 2%. A UnB não estava cumprindo a política”, afirma o decano de Ensino de Graduação, Mauro Luiz Rabelo. A reserva de oportunidades aos estudantes de escolas públicas vai crescer para 50%. Para o decano, sem a alteração, mesmo com mais espaço, esse público não aumentaria dentro dos câmpus.

“Fizemos análise estatística dos resultados do PAS e do vestibular e constatamos que o causador do problema foi principalmente a barreira estabelecida nos itens tipo D”, detalhou Rabelo. O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) votou para o retorno ao modelo anterior. “Isso não interfere nos cursos de alta demanda, mas é vital nos outros. Se fizermos análise curso a curso, vários, como licenciatura em matemática, preencheram apenas uma vaga no PAS. Praticamente duplicamos o número de vagas, incluímos uma barreira, e o universo de candidatos é o mesmo”, explica.
 
Elaboração igual
Quem aspira a uma vaga na UnB não precisa mudar os métodos de estudo. De acordo com o diretor-geral do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), Paulo Henrique Portela, a forma de elaboração das perguntas será a mesma. “Os aspectos da construção do instrumento de avaliação não mudam. As questões ainda são contextualizadas, interdisciplinares e têm o mesmo peso”, explica o chefe do órgão que elabora os cadernos de prova. “Os tipos D são contabilizadas no escore bruto e este tem que ser sempre positivo”, alerta.

Estudante do Centro de Ensino Médio Setor Leste, Vinícius Mendes, 15 anos, temia não entrar na universidade por conta das questões discursivas. “Tenho chances de passar para administração, mas já fiz a questão em simulados e ela poderia me atrapalhar”, avalia. Aline Vera, 16, quer cursar relações internacionais. “É difícil chegar nos 20%. Não é sempre que a gente consegue responder a essas perguntas”, diz. Para ela, não existe o risco de que a mudança nivele os estudantes por baixo, como sugeriram alguns diretores de escolas e cursinhos ouvidos pelo Correio. “De todo jeito, só vai entrar quem se empenhou”, afirma. Amiga dela, Vanessa Moura, 16, concorda. “Quem conseguiria passar quando era tipo D, vai entrar agora. Para nós, além das cotas, teremos essa facilidade”, argumenta. Vanessa deseja se graduar em psicologia.


"As mudanças ocasionaram o não preenchimento das vagas em diversos cursos da universidade. Antes, sobravam apenas 2%. A UnB não estava cumprindo a política"

Mauro Luiz Rabelo,

decano de Ensino de Graduação 


O que diz a lei

A lei nº 12711/2012, em vigor desde agosto do ano passado, estabelece que 12,5% das vagas existentes nas instituições federais de ensino ficam reservadas para alunos que estudaram em escolas públicas, pertençam a famílias com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo ou se autodeclaram negros, pardos ou de origem indígena. No ano que vem, esse percentual vai dobrar, até atingir 50% em um prazo de quatro anos. Para se beneficiado pela legislação, os candidatos devem ter cursado o ensino médio integralmente em instituições públicas. No caso da Universidade de Brasília, em especial, a instituição decidiu ainda manter os 20% p]ara os afrodescendentes. Porém, em 2014, esta política será revista pelo Conselho Universitário (Consuni) e pode ter o percentual reduzido ou ser extinta. De acordo com o governo federal, em 10 anos, será implementado um programa de acompanhamento para avaliar a necessidade de continuação da iniciativa.

Sem queda no nível

Na opinião do conselheiro do Conselho Nacional de Educação Erasto Mendonça Fortes, a mudança nas questões de tipo D “é uma forma de resolver o problema do ingresso, sem prejuízo de qualidade”. “Há uns 15 anos, o vestibular deixou de ser seleção de pura memorização para levar em consideração alguns elementos como compreensão, síntese, aplicação de conhecimentos, avaliação. A prova está cercada de elementos que não vão permitir o ingresso de pessoas despreparadas, como a própria redação”, afirma o especialista.

Raphael Meireles, 16 anos, estuda no Colégio Marista, na 615 Sul. Ele ainda não se decidiu entre arquitetura ou engenharia civil. Independentemente de curso, ele também não acredita na queda da qualidade dos calouros. “Já vi pessoas aprovadas sem terem se esforçado tanto e conseguiram isso pelas questões tipo A”, alerta.

O professor de educação da UnB Remi Castioni enfatiza que as questões não perdem dificuldade com as novas regras. “É melhor, inclusive, que completar as vagas remanescentes com o Enem, pois estávamos abrindo a porteira, porque são estudantes que não conseguiram colocação em nenhuma outra instituição”, afirma. Também para ele, o mecanismo de avaliação não é o responsável pela qualidade do ingresso. “O problema está no ensino médio. Um país que deseja promover acesso ao ensino superior precisa ter instituições que se voltem para a educação básica”, pondera.

 

 

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