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Ensino Superior

Cotas raciais dividem a UnB

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postado em 30/04/2013 19:00 / atualizado em 01/05/2013 10:57

Thaís Paranhos

Gustavo Moreno
A implantação do sistema de cotas sociais na Universidade de Brasília (UnB)coloca em questionamento as vagas exclusivas para negros e divide a comunidade acadêmica. A nova política reserva vagas para estudantes de escolas públicas, afrodescendentes, indígenas e pessoas de baixa renda. Com isso, alunos e professores se dividem sobre a manutenção do modelo de ingresso diferenciado para negros, adotado há 10 anos pela instituição. Em meio à polêmica, o Decanato de Ensino de Graduação (DEG) criará uma comissão para discutir o futuro da política afirmativa.

Das vagas oferecidas a cada vestibular, 20% estavam reservadas para o sistema de cotas para negros. De 2003 até hoje, a UnB ofereceu 7.805 cadeiras para os afrodescendentes. Desse total, cerca de 15% não foram preenchidas por alunos cotistas e voltaram para outro tipo de seleção, como o vestibular convencional ou o Programa de Avaliação Seriada (PAS), de acordo com o número de registros da Secretaria de Comunicação da UnB e do total de vagas informado pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe).

O reitor da UnB, Ivan Camargo, explica que a reavaliação do sistema já estava prevista desde a implantação da política. “Estamos cumprindo uma determinação do Consuni. Esperamos que os trabalhos comecem o mais rápido possível”, afirma, destacando que não data para a criação do colegiado. O titular do cargo mais alto da instituição de ensino se posiciona a favor das cotas raciais, mas afirma que cabe ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão decidir o futuro da ação. “A minha avaliação pessoal é que o sistema de cotas é um sucesso, mas isso deve ser uma avaliação institucional”, completa.

Enquanto o futuro das cotas não é definido, a comunidade acadêmica diverge. A estudante do 8º semestre de ciências sociais Rafaela Dantas, 22 anos, moradora de Taguatinga, entrou na universidade pelo sistema de cotas e defende a manutenção das duas formas de ingresso diferenciado na instituição, a racial e a social. “As duas se equilibram. O negro da classe média e alta não é privilegiado pela nova lei porque não estudou em escola pública, mas também sofre preconceitos no dia a dia”, opina. “A UnB ainda é muito elitista, mas é notória a trajetória que a universidade tem tomado com a aplicação do sistema de cotas raciais”, acredita.

Colega de Rafaela, a estudante do 7º semestre de letras/francês Thânisia Marcella Cruz, 21 anos, moradora de Ceilândia, compartilha a mesma opinião. “As cotas têm contexto diferente. As raciais servem para reverter um processo de exclusão, isso não ameniza, mas cria oportunidades. Os dois sistemas devem existir, um não pode ser excluído em detrimento do outro”, diz. Ela também entrou na UnB pelo sistema.

Já o estudante do 5º semestre de pedagogia Mário Jorge da Silva Jaymowich, 25 anos, não concorda com a política que reserva vagas para negros. “Hoje, o problema maior do país é o financeiro, o que gera mais desigualdade não é a raça, é a condição social. Conheço negros nas classes média e alta”, acredita. O jovem defende que não há uma dívida histórica do país com os negros. “Isso é besteira, se for assim, a gente cai no vício das cotas e todas as minorias vão reivindicá-las”, sugere. Para o professor de ciência política da UnB Paulo Kramer, o ingresso diferenciado para afrodescendentes também não deveria existir. “O ensino superior deve estar aberto ao mérito individual”, aponta.

Para o especialista em história e política da educação e professor da pós-graduação da UnB Célio da Cunha, ainda é cedo para fazer uma avaliação completa do sistema de cotas. “Nestes 10 anos, ficou evidente que foi uma política acertada, porque os egressos das escolas públicas têm índice muito baixo de matrículas na educação superior. Aquele receio de que os cotistas poderiam reduzir a qualidade do ensino não se confirmou, mas ainda é um projeto relativamente novo.”
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