Ensino Superior

Mesmo conteúdo, provas distintas

Com a inclusão do Enem no rol de processos seletivos para o ingresso na Universidade de Brasília, além do vestibular e do PAS, especialistas analisam como deve ser a preparação do candidato. Para alguns professores, cada exame exige um treinamento específico

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postado em 14/05/2013 12:40 / atualizado em 14/05/2013 12:42

Thaís Paranhos

A adesão ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) abre mais uma porta para a Universidade de Brasília (UnB). Mas, com a nova forma de ingresso, por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os estudantes do Distrito Federal deverão se adaptar à abordagem diferente dos conteúdos. Para alguns especialistas e professores ouvidos pelo Correio, a preparação para as provas desse processo seletivo deve ser igual à do Programa de Avaliação Seriada (PAS) ou à do vestibular tradicional. Para outros, cada exame exige um treinamento específico. Enquanto isso, os candidatos traçam estratégias a fim de conseguir uma vaga nos cursos de graduação.

Do ponto de vista da abordagem do conteúdo, para o coordenador de redação do Centro Educacional Sigma, Eli Guimarães, o Enem é mais simples. Mas, segundo ele, isso não quer dizer que a prova seja menos difícil. “É fácil para todo mundo. Temos que lembrar que o Enem é nacional e os bons alunos têm a oportunidade de ingressar na UnB”, disse. De acordo com Guimarães, as provas divergem mais em formato do que em conteúdo. “Ambas têm pontos de convergência, avaliam a capacidade do aluno nas habilidades e competências. Divergem mais no formato e não devem ter preparação distinta”, avaliou.

O coordenador de redação sugere aos candidatos que, para fazer as provas com confiança, mantenham uma produção textual constante, leiam revistas e jornais e intensifiquem aos poucos a rotina de estudos. “Há duas formas de se estudar: rever, no mesmo dia, as matérias que aprendeu na escola e, se possível, antecipar o conteúdo seguinte; ou escolher duas matérias por dia para poder aprofundar um determinado assunto”, sugeriu.

Já para o professor de língua portuguesa Marcelo Freire, as provas têm elaboração de itens e abordagens diferentes, e os alunos devem se preparar de forma distinta. Para o Enem, Freire sugere que os estudantes priorizem a leitura de textos que tratem de questões sociais e culturais, e tentem resolver questões com tempo cronometrado, uma vez que a resolução dos itens é mais demorada. “Já o PAS tem uma abordagem mais analítica do conteúdo. O candidato tem muito tempo para um item, sem contar que exige uma lista de obras”, explicou.

Diante de formas de avaliação diferentes, o especialista em políticas educacionais e professor colaborador da UnB Carlos Augusto de Medeiros faz uma crítica a esses modelos. “Esses sistemas padronizados de avaliação acabam preparando o candidato para a prova e minimizam os avanços em termos de conteúdo”, opinou. De acordo com ele, os processos de seleção devem ter questões mais contextualizadas. “Não é só a questão de saber um conteúdo, mas saber como associá-lo. Os candidatos devem se preocupar com a contextualização, ler muito, ter a capacidade de fazer a ligação de conteúdo com questões mais amplas”, completou.

Preparação

A estudante do 3º ano Marcelle Martins Lemes, 16 anos, sonha em entrar na UnB. Em 2013, ela fará, pela primeira vez, a prova do Enem. Também vai se preparar para a última etapa do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e para o vestibular tradicional do meio do ano. “Acho interessante ter outra forma de avaliação, vai democratizar o acesso às universidades”, opinou. A jovem acredita que o nível de dificuldade entre as provas é o mesmo, apesar de a abordagem dos assuntos ser diferente. “Mesmo que a prova do Enem seja mais fácil, a concorrência é elevada e acho que esse processo exige preparação maior ainda. Vou focar nos exercícios, a forma de cobrança é outra, não fica só na teoria”, completou.

Colega de Marcelle, o aluno do 3º ano do ensino médio Igor Duarte, 17 anos, quer cursar medicina. Ele se prepara para as provas do PAS e do vestibular, mas vai concentrar os estudos no teste do Enem, porque pretende fazer a graduação no Rio de Janeiro. “Fiz o Enem no ano passado e achei mais fácil do que a UnB, mas a preparação não diminui, porque é fácil para todo mundo e isso exige mais de você. Vou focar na base do conhecimento para conseguir resolver as questões mais difíceis, percebi isso na prova”, disse. O rapaz diz estudar cerca de oito horas diárias para ingressar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O vestibular da UnB exige dos candidatos conhecimentos específicos e pontuais, enquanto a prova do Enem aborda temas amplos e cobra mais interpretação de texto. Nos exames elaborados pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), há questões discursivas e do tipo B, nas quais o concorrente deve apresentar um resultado numérico que vai de 0 a 999. Isso não aparece no novo sistema de ingresso adotado. Nas provas do Enem, as questões são de múltipla escolha, cada uma com cinco itens. Em todas as avaliações, os candidatos devem fazer redações.

Novidade

O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da UnB decidiu, em abril deste ano, adotar o Sisu a partir do primeiro semestre de 2014. Com a nova regra, haverá três formas de ingresso: o vestibular tradicional no meio do ano, o PAS e o Enem.

Palavra de especialista

Nova forma de estudo
“As provas do PAS e do vestibular, ambas feitas pelo Cespe, são exames com elaboração de itens e abordagens diferentes. Já abordamos em sala de aula, de forma diferente, o mesmo conteúdo. A preparação para o Enem exige outro nível, predomínio de questão diferente a que o candidato não está acostumado, como a de múltipla escolha. O Enem tem questões em que há várias possíveis alternativas de serem consideradas corretas. UnB e PAS são provas de seleção, já o Enem é prova de avaliação, e isso faz diferença porque a nota do aluno, no caso do Enem, não é só fruto das questões que acerta, é fruto de um padrão de resposta desse estudante. O sistema considera qual é o desvio da resposta certa, se é muito ou pouco, critérios que não estão na prova da UnB. Ele está sendo avaliado pelo desempenho nas questões, se erra por muito ou por pouco. O bom aluno que sabe como é feita a questão chega mais bem preparado, no dia do exame, do que aquele que estudou só o conteúdo e não o formato da prova. O Enem nos mostra uma situação-problema que só o aluno que tenha preparação adequada vai conseguir chegar na prova e entender o que ele está fazendo ali. As escolas sempre ministraram o mesmo conteúdo, mas essa situação que vivemos agora é inédita, precisamos de estrutura diferente de ensino médio que preveja preparação para o Enem. Falando de cursinhos, vamos ter que criar um produto novo, não temos o pré-Enem.”

Marcelo Freire,
professor de língua portuguesa

 

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