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Vítimas depõem na Comissão da Verdade

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postado em 21/05/2013 18:00 / atualizado em 21/05/2013 13:12

Gustavo Moreno
Começa hoje a fase de depoimentos de vítimas e testemunhas da ditadura pela Comissão de Memória e Verdade Anísio Teixeira da Universidade de Brasília (UnB). Assim como a Comissão Nacional da Verdade (CNV), a da UnB remonta ao período militar, mas o foco são as perseguições e os abusos sofridos por alunos, professores e funcionários da instituição. O grupo de trabalho também deve se dedicar aos casos de desaparecimento, como o do estudante de geologia Honestino Guimarães, e de mortes em circunstâncias obscuras, por exemplo, a de Anísio Teixeira (leia quadro).

O primeiro a contar a sua versão é o ex-reitor Antonio Ibañez, nesta terça-feira, às 14h30, no Auditório da Reitoria. Sessões com o ex-reitor Cristovam Buarque e mais oito integrantes da comunidade acadêmica estão previstas até junho. Os relatos serão feitos em audiências públicas.

Para isso, serão convocados ex-funcionários, professores, estudantes, familiares de vítimas, advogados dos perseguidos políticos e suspeitos de colaboração com o regime, segundo a coordenadora de Redação e Sistematização da comissão, Simone Rodrigues Pinto. “Nós queremos ouvir todos, tanto quem foi perseguido e torturado quanto quem pode ter tido participação nas atrocidades daqueles tempos. Nós vamos fazer tudo de forma pública para que a sociedade se mobilize”, revelou.

Iniciada em agosto de 2012, a comissão deve seguir até janeiro de 2014. Até lá, bem mais do que os 10 primeiros depoentes relembrarão as ações empreendidas no Câmpus Darcy Ribeiro (leia Memória). “Os relatos dessa fase abrirão caminho para relacionarmos outras pessoas”, contou Simone. “Costuma-se pensar que a repressão foi intensa em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas aqui também foi dramática. A UnB, em especial, foi profundamente atingida.”

Uma parceria com a CNV prevê a troca de informações e a investigação de casos como o do estudante de geologia Honestino Guimarães, desaparecido, à época, com 26 anos. “Nós queremos complementar aquilo que a comissão não conseguir apurar”, esclareceu Simone.

O sobrinho de Honestino, Mateus Guimarães, 24 anos, tem esperança de que a comissão da UnB preencha algumas lacunas em relação ao destino do tio. “São muitas: Quais foram as circunstâncias do seu sequestro em 10 de outubro de 1973? Por quantos dias ele foi torturado? Quantos dias o mantiveram em cárcere? Como ele reagiu à tortura? Que palavras pronunciou? Quem dava as ordens e quem as executava? Qual é a data da morte? O que foi feito com o seu corpo?”, enumerou Mateus.

Para os familiares do educador Anísio Teixeira, entender as circunstâncias da queda no fosso do prédio do amigo Aurélio Buarque de Hollanda, em 1971, no Rio de Janeiro. “É fundamental esclarecer tudo o que aconteceu naquela época”, avaliou a filha de Anísio Teixeira e presidente da fundação que leva o nome do pai, Anna Christina Teixeira.

Personagens da história


Honestino Guimarães

 (Arquivo pessoal/Divulgação) 

Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1974, em Itaberaí (GO). Em 1960, a família se mudou para Brasília, onde iniciou a militância política por meio da Ação Popular. Em 1965, passou em primeiro lugar no vestibular da UnB para geologia. Integrou o Diretório Central de Estudantes, instância batizada com o nome dele após o desaparecimento. Em 1968, acabou preso e desligado da UnB. Em 10 de outubro de 1973, já na clandestinidade, foi novamente preso e nunca mais visto. Em 1996, foi declarado morto.


Anísio Teixeira
 (Agência o Globo/Divulgação) 

Anísio Spínola Teixeira nasceu em 12 de julho de 1900, em Caetité (BA). Jurista e educador, foi responsável por reformas educacionais na Bahia e no Rio de Janeiro, por meio da Escola Nova. Os princípios dela previam o desenvolvimento do raciocínio por meio da capacidade de julgamento e não de memorização. Nos anos 1950, dirigiu o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep) e, em 1961, idealizou a UnB com Darcy Ribeiro. Em 1971, foi encontrado morto no fosso do elevador do prédio de Aurélio Buarque de Hollanda. Não houve investigação.


Memória

9/4/1964
A primeira invasão à UnB aconteceu nove dias após o golpe militar. Tropas do Exército e policiais chegaram em 14 ônibus e três ambulâncias preparados para o confronto. Doze professores foram detidos para interrogatório e diversos estudantes revistados em busca de armas e material de propaganda subversiva. Anísio Teixeira, reitor, e Almir de Castro, vice, acabaram demitidos.

11/10/1965
A segunda invasão ocorreu como forma de encerrar as manifestações de alunos e professores contra a demissão dos docentes Ernani Maria de Fiori, Edna Soter de Oliveira e Roberto Décio de Las Casas. Após a invasão, 15 profissionais foram demitidos, o que provocou vários desligamentos por parte dos educadores: 223 dos 305 assinaram a demissão.

29/8/1968
A terceira e mais violenta invasão do Câmpus Darcy Ribeiro tentou suspender os protestos contra o assassinato do estudante secundarista do Rio de Janeiro Edson Luis de Lima Souto. Pelo menos 3 mil alunos se concentraram na praça entre a Faculdade de Educação e a quadra de basquete. O resultado foi o decreto da prisão de sete universitários, entre eles, Honestino Guimarães. Ao todo, 60 foram presas, e o estudante Waldemar Alves acabou baleado na cabeça.

6/6/1977
A quarta invasão serviu para encerrar a greve de estudantes e professores, que protestavam contra as agressões sofridas ao longo dos anos.
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