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Médico é excluído do programa

Após denúncia do Correio, profissional que atuaria em Águas Lindas de Goiás pelo Mais Médicos foi desligado. Carlos Cury é suspeito de mutilar mais de 15 mulheres e de ter causado duas mortes. Ministério e CFM não assumem a responsabilidade pela contratação

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postado em 04/09/2013 11:46 / atualizado em 05/09/2013 12:46

Daniela Garcia /Correio Braziliense , Grasielle Castro /Correio Braziliense

Dóris Areal

O Ministério da Saúde excluiu ontem do programa Mais Médicos o profissional Carlos Jorge Cury Masilla, 56 anos, acusado de mutilar e causar lesões em mais de 15 mulheres em Manaus. Há ainda a suspeita de que ele seja responsável por duas mortes de pacientes na capital amazonense (leia mais abaixo). A decisão foi tomada depois de o Correio Braziliense mostrar que o médico, que também é ex-deputado federal, havia sido selecionado para trabalhar em Águas Lindas de Goiás (GO). Ao apurar as denúncias com os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), o governo federal decidiu invalidar a inscrição de Cury.

Nem o Ministério da Saúde, nem o Conselho Federal de Medicina (CFM) se responsabilizaram pela contratação de Cury. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que cabe ao CFM fiscalizar a integridade ética dos profissionais, enquanto a entidade informou que não foi consultada pelo órgão sobre a idoneidade do médico.

Por causa das acusações de erro médico, Carlos Cury estava com o registro no Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam) interditado desde julho e não poderia exercer a profissão por pelo menos seis meses. De acordo com Alexandre Padilha, o profissional só foi selecionado para o programa porque contava com um registro válido pelo CRM de Rondônia. “Ele só pôde se inscrever porque ele tem o CRM ativo para exercer a medicina”, afirmou na manhã de ontem. O ministro exigiu explicações oficiais do CFM, que teria mantido o cadastro de Cury ativo. O ministro ressaltou que a entidade é a responsável por acompanhar os registros dos profissionais quando eles estão locados em mais de um estado, como é o caso de Cury. A inscrição do médico no CRM de Rondônia constava como ativa até a manhã de ontem, mas, à noite, as duas apareciam como interditadas cautelarmente.

Para o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital, o ministério deveria usar não somente o cadastro dos CRMs como fonte para as inscrições, mas também o banco de dados de situações éticas. Em nota, o CFM frisou que disponibiliza informações sobre o histórico dos profissionais, quando solicitado por médicos ou eventuais empregadores. A entidade destacou ainda ter sugerido formalmente ao Ministério da Saúde que se exigisse de todos os candidatos do Mais Médicos a apresentação de atestados de bons antecedentes éticos e criminais. No entanto, o programa usa o critério apenas para profissionais estrangeiros.

 

Ed Alves

Rejeição
Carlos Cury deveria ter começado a trabalhar ontem em um posto de saúde de Águas Lindas de Goiás. Após as denúncias, a Secretária Municipal de Saúde enviou nota ao Ministério da Saúde rejeitando a prestação de serviços do médico. Ao saber da repercussão, o ex-deputado federal pagou a conta no Hotel das Alterosas, onde estava hospedado, e deixou a cidade ainda pela manhã. A reportagem não conseguiu mais entrar em contato com o suspeito.

O médico responde a 15 inquéritos policiais no Amazonas. Segundo o investigador do caso, o delegado Mariolino Brito, as vítimas sofreram sequelas físicas e mentais após cirurgias realizadas por Carlos Cury. O próprio médico assume não ter especialidade em cirurgia, apesar de ter atuado por 28 anos na área. Segundo ele, na região Norte do Brasil, os médicos são especializados em “tudologia”.

 

O presidente do Cremam, Jefferson Jezini, decidiu pela interdição do CRM de Cury após realizar auditorias e sindicâncias sobre o caso. “É um absurdo um profissional realizar cirurgias sem que tenha especialização. Temos relatos de que ele fazia diversos procedimentos ao mesmo tempo, como a aplicação da anestesia e a condução da operação”. Em Rondônia, o suspeito já havia sofrido suspensão do registro por 30 dias, pois contou com a ajuda de um anestesista sem CRM durante um procedimento.

“Ele só pôde se inscrever porque ele tem o CRM ativo para exercer a medicina”

Alexandre Padilha, ministro da saúde

Memória

Iniciativa polêmica
O Programa Mais Médicos foi lançado em 8 de julho pela presidente Dilma Rousseff. O projeto estava em elaboração há pelo menos seis meses, mas teve o lançamento acelerado após a série de manifestações ocorridas em junho. O projeto veio com três eixos principais: editais de convocação para profissionais formados no Brasil e no exterior; a abertura de novas vagas de graduação e residência médica; e o aumento no tempo do curso de medicina — medida que já teve alterações.

A iniciativa foi lançada para aumentar a quantidade de médicos no país, considerada insuficiente pelo governo, principalmente, em cidades do interior e periferias das grandes cidades. No Brasil, a proporção é de 1,8 profissionais para cada mil habitantes, inferior a da Argentina (3,2), por exemplo.

Após os resultados da primeira chamada do programa, que atendeu somente a 8,9% da demanda de 15.460 médicos gerada pelo cadastro de 3.511 municípios, o governo anunciou um contrato para trazer 4.000 profissionais cubanos até o fim do ano. Do total, 400 já estão no Brasil.

Entre os pontos polêmicos da proposta, estão o contrato dos cubanos, que inclui um repasse de dinheiro ao governo de Cuba, por intermédio da Organização Pan-americana de Saúde (Opas) e a dispensa da revalidação do diploma para médicos estrangeiros.

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