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Transporte celular rende o Nobel de Medicina

Dois americanos e um alemão ganham o prêmio por decifrar como as moléculas são carregadas no interior da célula. O estudo ajudou a ciência a compreender o mecanismo de doenças como o diabetes e a epilepsia e tem potencial terapêutico

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postado em 10/10/2013 15:24 / atualizado em 10/10/2013 16:43

Rodrigo Craveiro

Na 104ª edição, o Nobel de Medicina homenageou, ontem, três cientistas que se focaram nas estruturas mais básicas da vida e solucionaram o mistério de como a célula organiza seu sistema de transporte — uma façanha capaz de ajudar a explicar várias doenças, como o diabetes e o tétano. Os norte-americanos Randy W. Schekman, 64 anos, e James E. Rothman, 62, e o alemão Thomas C. Südhof, 58, entraram para a seleta lista de 204 laureados e dividirão, em partes iguais, o prêmio de 8 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,3 milhão). Segundo o comunicado do Comitê Nobel do Instituto Karolinska, os três foram agraciados pelas “descobertas do mecanismo que regula o tráfego na vesícula, um importante sistema de transporte em nossas células”. Cada célula é uma fábrica que produz e exporta moléculas, carregadas dentro de pequenos pacotes chamados de vesículas. Em pesquisas complementares, os laureados explicaram os princípios que governam o modo com que essas moléculas são enviadas até o local correto na hora certa.

Pioneiro dos estudos, Schekman — professor de biologia molecular e celular na Universidade da Califórnia, Berkeley — detectou um conjunto de genes essenciais para o trânsito celular. Diretor do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Yale, Rothman elucidou o mecanismo proteico que permite às vesículas se fundirem a seus alvos, possibilitando a transferência da carga molecular. Südhof, especialista da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, revelou como sinais instruem a vesícula a liberar a carga com precisão. Quaisquer distúrbios nesse sistema contribuem para o surgimento de doenças neurológicas, diabetes e desordens imunológicas.

“Schekman, Rothman e Südhof descobriram poderosos mecanismos celulares, importantes para todos os tipos de processos que regem a vida. Mas os estudos são particularmente impressionantes no que diz respeito às células nervosas do cérebro, às células produtoras de hormônios e àquelas presentes no sistema imunológico”, afirmou ao Correio, por telefone, o sueco Göran K. Hansson, diretor do Instituto Médico Nobel. “As pesquisas são importantes para a biologia das células e têm muitas consequências para a medicina”, acrescentou.

Hansson acredita no surgimento de abordagens terapêuticas baseadas no trabalho do trio. “Sabemos que algumas enfermidades são causadas por problemas nesse mecanismo celular. Certas doenças do cérebro, como a epilepsia, e defeitos congênitos em recém-nascidos, além do diabetes, são alguns exemplos”, observa. Os mecanismos já se aplicam a ferramentas de diagnóstico e de prevenção, mas ainda não resultaram em tratamentos médicos. “O prêmio foi muito bem merecido. Esperamos o uso médico de seus estudos no futuro”, disse o diretor. O italiano-americano Mario Capecchi, geneticista da Universidade de Utah que foi laureado com o Nobel de Medicina em 2007, comemorou a decisão do comitê. “Cada um deles deu contribuições muito importante sobre como as células transportam a carga molecular, um processo fundamental da biologia. Um prêmio há muito esperado. Fabuloso!”, afirmou ao Correio, por e-mail.

Tão logo soube que acabava de se tornar Nobel de Medicina, Schekman telefonou para o gerente de seu laboratório e encomendou-lhe garrafas de champanhe. Queria celebrar com os colegas. Em entrevista ao Correio, ele demonstrou humildade ao falar sobre o prêmio. “Tudo o que eu esperava era descobrir esse mecanismo. Não alcançar um reconhecimento assim”, admitiu, por volta de 4h (hora local) e algumas horas depois de chegar de uma viagem à Alemanha. Rothman contou a uma rádio sueca que se sentia extremamente honrado. Horas antes de participar de um seminário na Universidade Internacional de Andaluzia (Unia), em Baeza, Südhof dirigia um carro pelas estradas da Espanha quando foi informado pelo Comitê Nobel de que tinha sido um dos escolhidos. “Eu estou absolutamente surpreso. Todo cientista sonha com isso. Eu não percebi que tinha uma chance de ser agraciado com o prêmio. Estou atordoado e realmente feliz em partilhá-lo com James Rothman e Randy Schekman”, comentou o neurocientista de Stanford, por meio de um comunicado divulgado por sua assessoria.

“Navios” carregados

As vesículas são minúsculas bolhas de gordura que agem como um serviço de transporte interno da
célula. Elas podem mandar materiais como enzimas, neurotransmissores e hormônios para outras partes da células ou se fundir com a superfície externa dessa estrutura e liberar o conteúdo para outras áreas do corpo. Alguns especialistas as comparam a uma frota de navios que transporta a mercadoria para o destino final.

Um apaixonado pela ciência
Robert Galbraith

“É isso! É isso!”, gritava a mulher de Randy Wayne Schekman, quando o telefone tocou por volta de 1h30 (5h30 em Brasília), apenas uma hora antes do anúncio dos laureados. “Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!” era tudo o que o professor da Universidade da Califórnia, Berkeley conseguiu falar ao ser informado de que a ligação partia do Comitê Nobel do Instituto Karolinska, em Estocolmo. Às 8h de ontem (hora de Brasília), um dos três laureados com o Prêmio Nobel de Medicina falou ao Correio por cerca de 10 minutos, também ao telefone, de sua casa em El Cerrito, na Califórnia. Aos 64 anos, Schekman contou que jamais sonhava em ser agraciado com a mais alta honraria da ciência. Segundo ele, o amor pela pesquisa foi a força motriz de seus estudos. “Eu apressaria os jovens interessados em ciência a seguirem sua paixão”, afirmou. Schekman explicou que sua pesquisa tornou possível a produção de um terço da insulina mundial, a partir de células de levedura e abriu caminho para a prevenção da hepatite.

Quando o senhor começou seus
estudos, imaginava ganhar um Nobel?

Não, certamente não. Você nunca tem expectativas como essa no início. Eu comecei esses estudos porque eu amo fazer ciência. Eu estudei esse problema por um interesse básico. Queria ver como as células funcionavam. Eu escolhi os meios para estudar isso. Eu sabia de um modo poderoso para dissecar esse processo. Tudo o que eu esperava era descobrir esse mecanismo. Não alcançar um reconhecimento assim.

Como a descoberta dos genes codificadores de proteínas pode nos
ajudar a entender processos complexos, capazes de levar a doenças?

Apesar de estudar esse processo, durante muitos anos em leveduras, eu tomei consciência de que ele era compartilhado pelas células humanas. Há alguns anos, mudamos o foco de nossa pesquisa para as células humanas. Algumas doenças apareceram com mutações genéticas nos genes que tínhamos descoberto. Eu me interessei cada vez mais por elas, tentando entender esse mecanismo nas células humanas. Quando se faz isso, existe a possibilidade de aplicações práticas em doenças. Talvez o mais dramático exemplo tenha ocorrido no começo de minha pesquisa, quando eu ainda estudava a levedura. Quando reconhecemos que as células de levedura usam vias metabólicas que podem surgir em células humanas, torna-se possível transformá-las em uma espécie de fábrica capaz de produzir e de secretar importantes proteínas humanas. Por exemplo, eu prestei consultoria a uma empresa de biotecnologia chamada Kyron que produz insulina humana em células de levedura. É muito mais simples e menos caro crescer insulina humana em fermento. Um terço da insulina mundial é produzida e secretada por células de levedura, usando o mecanismo que descobrimos.

Qual é o potencial de seu estudo para
o desenvolvimento de novas terapias? Ele poderia ajudar na cura do diabetes?

Bem… Ele não curou o diabetes, mas permitiu que as células da levedura se tornassem uma fábrica muito mais eficiente de insulina. Muitas outras companhias de biotecnologia utilizam essa mesma lógica. Nosso estudo tem sido usado também na produção de vacinas de peptídeos. Todas as vacinas disponíveis que previnem a hepatite de se tornar uma infecção são produzidas por meio da liberação de proteínas da hepatite em células de levedura, que exploram o mecanismo de sinalização celular usado nos antígenos, durante a imunização. Então, as células de levedura têm uma enorme importância e o mecanismo de via metabólica que descobrimos também.

As grandes descobertas na ciência
foram acidentais. O mesmo aconteceu com a sua pesquisa?

Foi um acidente interessante que aconteceu de modo muito técnico. Ao desenhar o modo com que a genética levaria a esse grande avanço, nós tivemos sorte de descobrir que há maneiras simples de descobrir os genes corretos. Foram estudos bem precoces e eu sou maravilhosamente grato ao estudante de graduação Peter Helvick, que fez essas descobertas incríveis, levando à criação de meu estudo.

O que representa o Nobel  de
Medicina para o senhor?

Bem, é claro que é algo emocionante. Eu tenho pensado nisso há um bom tempo. As pessoas ficavam dizendo para mim que eu supostamente receberia o Nobel. Mas há tantas outras pessoas incrivelmente competentes, e eu nunca imaginava que isso fosse acontecer. Mas isso aconteceu e, agora, vou seguir minha vida e tentar continuar com meu trabalho.

O senhor crê que sua vida vai mudar?
Sim, é claro que muda muito. Você sabe… Serão mais convites, então… (risos) É claro que continuarei minhas pesquisas. Meu trabalho é financiado pelo Howard Hughes Medical Institute. Eles esperam que eu continue fazendo a minha ciência e é realmente isso que farei. Eu amo a ciência e devo essa oportunidade à Universidade da Califórnia, que fomentou minha educação. Foi onde eu cresci…

Que mensagem o senhor deixaria
para os estudantes de medicina?

Eu apressaria os jovens interessados em ciência a seguirem sua paixão. Se eles estão excitados com a perspectiva de descobrir novas coisas e ávidos em fazer ciência básica, eu os aconselho a desenvolverem essa habilidade e essa paixão. Fazer as coisas motivados pela compreensão real e não necessariamente tendo em mente aplicações práticas. É da ciência básica que vêm os mais importantes desenvolvimentos na tecnologia. Nós realmente precisamos continuar investindo nas pesquisas básicas em todo o mundo. (RC)

 

 
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