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MAPA DA DITADURA »

Muito além da universidade

Não foram só estudantes da UnB que participaram da resistência durante o regime militar. Secundaristas fizeram parte do movimento

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postado em 05/11/2013 14:00 / atualizado em 05/11/2013 10:43

Ana Pompeu

Marcelo Ferreira
Nem só de universitários viveu a resistência contra a ditadura militar em Brasília. Os secundaristas movimentaram as escolas do Distrito Federal, inclusive com paralisação de aulas e tomada de gestão. O Clube da Imprensa também tornou-se reduto de opositores. Com movimentos sindicais ainda incipientes e as sedes muito vigiadas, restou aquela alternativa. O Centro Cultural de Brasília (CCB), casa de jesuítas, abrigava a Pastoral da Juventude e se envolveu em questões policiais. Padres chegaram a visitar estudantes nas delegacias e o próprio CCB serviu de espaço para reuniões.

Álvaro Lins, hoje dono de uma empresa de marketing político, chegou a Brasília em 1961. No fim da educação básica, passou no concurso para o Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), onde hoje funciona o ambulatório do Hospital Universitário de Brasília (HUB). O colégio era uma iniciativa pioneira, capitaneada por Anísio Teixeira. A ideia era formar cidadãos com capacidade crítica. Por esse motivo, o Ciem também tornou-se foco de atenção por parte do governo. “Acabei expulso em 1967 por questionar uma decisão arbitrária do diretor adjunto”, lembra Álvaro. O diretor era conhecido como padre Montezuma e expulsou a aluna Hileana Menezes Pinto, por ela ter uma postura “avançada”.

O engajamento iniciado no colégio não morreu com a expulsão. Em junho de 1968, em meio a uma passeata na altura da 506 Sul, foi preso pela primeira vez. “Fomos cercados. Corri pra um prédio e estávamos entrando no elevador quando veio mais um cara. Achei que fosse outro estudante, mas ele jogou uma bomba de gás dentro. Mais homens chegaram e me bateram muito”, conta.

O Diretório Central dos Estudantes Secundaristas de Brasília (DCESB) era acusado de atuar nas manifestações de 1968, bem como de vinculação com organizações clandestinas de esquerda, como o Partido Revolucionário Trotskysta (Port), a Ação Popular (AP), a Ala Vermelha do Partido Comunista e a Aliança Libertadora Nacional. O movimento secundarista tinha atitudes mais agressivas e estava espalhado por todo o DF. No Colégio Agrícola de Planaltina, 106 alunos, que moravam e trabalhavam no local, consideravam estar submetidos à exploração de mão de obra sem proveito educacional. Depois de conversas sem resultado com a direção, os alunos decidiram, em 4 de julho, tornar a escola um território livre. Expulsaram o diretor e passaram a controlar a escola. A polícia chegou na madrugada. Os líderes fugiram pelo cerrado. O Ministério da Educação e Cultura, ao qual o colégio era ligado, desligou 80 estudantes. Logo depois, veio a ocupação do Elefante Branco, que também terminou com a expulsão de alunos, desta vez revertida pela Justiça.

Manifestações

Em 28 de março de 1968, a morte do estudante secundarista Edson Luís, no Rio de Janeiro, provocou comoção em todo o país. No mesmo dia, na W3 Sul, manifestações espontâneas surgiram. O vestibulando João Lima Ferraz levou um tiro no peito, mas sobreviveu. O confronto virou um Inquérito Policial Militar. O documento registra “estado de verdadeira desordem no ato”. Já em 12 de outubro de 1968, o Exército dissolveu o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), onde se encontravam lideranças estudantis de todo o país (leia Para saber mais). Novas manifestações surgiram. Álvaro Lins tomou a frente de um comício relâmpago em uma quermesse de oficiais do Exército e do Serviço Nacional de Informação. Apanhou e foi preso mais uma vez. Depois de livre, continuou militando. Viveu na clandestinidade, em São Paulo e Rio de Janeiro, até 1981, com nome falso, trabalhando em fábricas e fugindo da polícia.

Para saber mais
A queda
da UNE

Mais de 800 estudantes que participavam do 30° Congresso da UNE — iniciado clandestinadamente num sítio em Ibiúna, no Sul do estado de São Paulo — foram presos por soldados da Força Pública e policiais do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Entre os detidos, as principais lideranças eram do movimento universitário: Luís Travassos (presidente eleito), Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins e Jean Marc van der Weid. Desde o início da semana, a população de Ibiúna notou a presença de jovens desconhecidos, que aumentaram consideravelmente o faturamento diário dos estabelecimentos da cidade. As informações foram transmitidas ao Dops e à Força Pública. Depois de avançar alguns quilômetros de carro e outro trecho a pé, por causa da lama da estrada, 215 policiais chegaram ao local às 7h15. Organizaram o cerco aos estudantes e dispararam rajadas de metralhadora para o ar, a fim de intimidá-los. Sem resistir, os congressistas foram colocados em fila e levados aos ônibus requisitados para transportá-los para a capital. A ação da polícias fragilizou ainda mais o movimento estudantil brasileiro.
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