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Adeus a Bianchetti, mestre e amigo

O corpo do artista foi cremado ontem, em cerimônia reservada apenas aos familiares. Amigos recordam a importância dele para o ensino das artes plásticas e para a cultura brasiliense. A UnB homenageia o pioneiro e destaca o relevante papel dele para a instituição

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postado em 20/02/2014 14:00 / atualizado em 20/02/2014 10:42

Daniel Ferreira

‘‘… A saudade da ligação dele para comer um macarrão de alho e óleo da vó de madrugada.
A saudade da gente passando mal por ter comido demais de madrugada. A saudade dele criticar uma receita que ele me ensinou e eu nunca consegui fazer direito…’’


A mensagem de despedida postada em uma rede social é uma homenagem de Mariana Bianchetti, ao avô, ao artista plástico Glênio Bianchetti. O texto retrata momentos simples da convivência em família de um dos maiores artistas do Brasil. A morte dele, na noite da última segunda-feira, deixa de luto não apenas familiares, amigos e a classe artística, mas também a Universidade de Brasília (UnB), instituição que ajudou a construir no início dos anos 1960, a convite de Darcy Ribeiro.


A missão dada a Glênio era ajudar a criar o Instituto Central de Artes, hoje Instituto de Artes (IdA). Ele deixou para trás a cidade natal de Bagé (RS). Desembarcou na nova capital em construção com mulher e seis filhos pequenos e, aqui, se dedicou a tornar real o sonho de Darcy e de Anísio Teixeira por três anos. A universidade fervia. E o pensamento que ele ajudava a consolidar incomodava o governo militar, que, em represália, demitiu parte dos professores. Em solidariedade aos colegas, 222 docentes pediram demissão, entre eles, Bianchetti. “No começo, ele titubeou. Tinha a Ailema (mulher dele) e seis filhos para criar. Mas, quando falou sobre isso com Ailema, ela perguntou: ‘E se não fôssemos nós, o que você faria?’ Ele respondeu: ‘Eu assinava a demissão’. Ela então disse: ‘Vai lá e assina porque nós vamos dar um jeito’”, conta José Carlos Coutinho, professor emérito da Faculdade de Arquitetura da UnB e amigo da família do artista.


O corpo de Bianchetti foi cremado ontem em uma cerimônia somente para os familiares. Segundo o professor José Coutinho, a simplicidade e a coerência — na vida pessoal e profissional — do amigo são um grande legado, assim como o jeito de ensinar arte. “Ele e a Ailema eram professores de arte que conheciam profundamente o assunto. Sabiam de arte contemporânea e ensinavam com bastante liberdade. E isso foi muito inspirador para mim e influenciou uma geração inteira”, lembrou Coutinho.

O retorno
O retorno de Bianchetti para a UnB se deu duas décadas depois do seu desligamento. Nesse tempo, o artista se consolidou no Distrito Federal, ganhou destaque no Brasil e recebia encomendas até do exterior. Nos anos 1970, participou da criação do Museu de Arte de Brasília (MAB) e lecionou no Centro de Reabilitação Criadora (Cresça), fundado pela mulher dele e por Maria do Socorro Coutinho, em 1976. E, assim, sustentou a família.


Professora do IdA, Suzete Venturelli chegou à UnB em 1986 e conta que a história de Bianchetti era bastante valorizada. Na avaliação dela, o artista foi responsável por dar estabilidade e consistência para a área cultural. “A cultura e a arte passaram a ter a mesma importância na universidade que a ciência e a tecnologia. Glênio e seus companheiros da década de 1960 mostraram que arte não é só para apreciação. Ela pode ser ensinada e ser uma profissão reconhecida”, afirma Suzete.


A Universidade de Brasília divulgou no site uma reportagem em que ressalta a importância de Bianchetti para a instituição e para as artes plásticas do Brasil. Em 2012, nas comemorações dos 50 anos, a UnB lançou o livro UnB 50 anos: história contada e reservou um capítulo do livro à história de Bianchetti. Naquele mesmo ano, 50 professores foram escolhidos para receber uma homenagem da universidade. Cada um recebeu de presente uma obra de Bianchetti. Antes disso, em 1999, o artista gaúcho foi homenageado no Palácio Itamaraty com uma retrospectiva dos 50 anos de sua carreira.


O reconhecimento mais recente da importância do artista ocorreu no ano passado, quando ele recebeu o título de cidadão honorário de Brasília. “O curioso é que o título havia sido votado no fim do século 20, mas o diploma nunca havia sido entregue. Fiquei muito emocionado quando a família me convidou para saudá-lo como cidadão honorário”, relata com os olhos cheios de lágrimas o amigo José Carlos Coutinho. “Não choro o pintor. Choro o amigo, a personalidade de um caráter sem nenhuma jaça”, completa.

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