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Recém-formado aos 83

Morador de Brasília há mais de quatro décadas, Emar Rodrigues Chaves realiza o sonho de se formar em arquitetura

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postado em 17/03/2014 11:40 / atualizado em 17/03/2014 12:20

Ana Paula Lisboa

A diferença de idade entre Emar Rodrigues Chaves, 83 anos, e os colegas com que estudou durante os cinco anos do curso de arquitetura e urbanismo era grande, mas não o impediu de se formar com louvor. A graduação, feita na Iesplan Faculdades Planalto, foi concluída no fim de 2013 e a colação de grau ocorreu em 27 de fevereiro. Durante a cerimônia, no ginásio da faculdade, na W5 Sul, ele segurou o primeiro diploma de ensino superior em meio a 10 jovens que poderiam ser seus netos ou filhos. Agora, animado, começa a atender os primeiros clientes.

Natural de São Gonçalo (RJ), morador da 105 Norte há mais de 45 anos, casado, pai de dois filhos, de 50 e de 52 anos, e avô de um neto, de 10 anos, ele não pensa em parar. Convidado pela faculdade em que estudou, Emar vai até começar a dar aulas. Entre os planos, estão abrir um escritório de projetos e de maquetes e fazer mestrado em restauração. O doutorado não está entre as metas porque ele pensa que não vai resistir até lá.  

O talento com as mãos enche as paredes do apartamento onde mora, na forma de quadros. A habilidade manual está presente em trabalhos que realizou, mesmo sem formação, em publicidade e em arquitetura ao longo da vida. “Eu acho que a minha inspiração está dentro de mim, é minha mesmo, é da minha natureza, é dom de Deus”, disse, em entrevista concedida à TV Brasília. O mar, uma parte de seu nome, é o tema sobre o qual ele mais gosta de pintar. A paixão pelo litoral também está presente em seu trabalho final de graduação, projeto arquitetônico de um museu sobre construções militares à beira-mar.

Oscar Niemeyer é o maior exemplo de Emar. A aparência das linhas sinuosas e a plástica do arquiteto o encantam. Os projetos de Emar, porém, são diferentes. Talvez fruto da rígida educação que teve, suas linhas são retas e clássicas. Em entrevista concedida à TV Brasília, ele explicou porque o sonho de cursar arquitetura só foi realizado agora: “Não foi só agora que eu resolvi estudar. É que estava guardado para mim este momento”. Estudar na velhice foi difícil e ele chegou a pensar em desistir, mas conseguiu essa proeza graças ao incentivo dos professores, do apoio dos colegas e da força de vontade. O exemplo positivo de Emar não será esquecido, e ele começa a ganhar fãs nas redes sociais. Na página Arquitêta, no Facebook, mais de 12 mil pessoas curtiram a foto do senhor recebendo o diploma.

Aluno exemplar


Durante os 10 semestres de arquitetura, o fluminense sempre inspirou respeito, tanto em professores, quanto em alunos. Quem conviveu com ele aprendeu muito, garante o professor  de arquitetura e urbanismo Márcio Vianna, 57 anos, que foi orientador do trabalho final de graduação de Emar. O tema escolhido foi o projeto de um museu militar. “Ele cresceu no litoral e estava acostumado a ver fortes e outras construções militares litorâneas. Ele desenvolveu o projeto de um museu que reúne maquetes, fotos e outros documentos que contam a história militar do litoral”, explica o orientador. A dificuldade para usar o computador poderia ter sido um empecilho, mas o aluno deu conta do recado. “Ele desenha muito bem, mas não recusou a informática. Pelo contrário, se embrenhou nesse novo mundo. Ele é muito dedicado, atuante e tem uma grande maturidade. Eu aprendi muito com ele”, revela.

Nas disciplinas história da arquitetura e planejamento urbano, o professor Marcílio Sudério, 40 anos, foi testemunha do exemplo de vida de Emar. “Foi uma surpresa gratificante ter um aluno tão mais velho. Isso me fez rever conceitos sobre a capacidade que o ser humano tem de se reinventar, de se adequar à tecnologia, de estudar com quem poderia ser neto ou filho dele”, relata. A dificuldade de lidar com a informática foi dominada e ele foi um aluno exemplar. “O lastro de vivência cultural dele é muito grande. Nas provas teóricas, argumentava bem, fazia críticas… Ele sempre foi uma presença muito positiva para a turma. Foi uma honra ser professor dele”. O fato de um senhor com mais de 80 anos realizar um sonho, também incentivou os colegas. “Por causa dele, os alunos exigiam mais de si mesmos”, analisa.  

Trajetória profissional

As habilidades de pintura levaram Emar a ser vitrinista e designer de letreiros e fachadas. Quando trabalhou como operador de carga na Varig, seu talento não passou despercebido. Um dos quadros de Emar foi exposto na companhia e abriu portas para que ele trabalhasse durante 10 anos com publicidade. Na década de 1960, a paixão por arquitetura falou mais alto e ele bateu na porta da Arqtel, única empresa brasileira a fazer maquetes na época. Ali, trabalhou durante oito anos, até ser convidado para ser maquetista do Banco Central (BC). São de autoria dele as maquetes das sedes do BC em Recife, em Fortaleza, em Curitiba e em Belém, e da gráfica do Banco Central em Brasília. Depois de vir morar na capital federal, em 1968, trabalhou na gráfica do Senado e ajudou a montar a gráfica do Palácio do Itaramaty. Entre 1989 e 2009, manteve um escritório para trabalhar com arquitetura e com publicidade. Depois de formado, Brasília pode aguardar seu trabalho sendo posto em prática com ainda mais maestria.
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