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A história em jovens mãos

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postado em 28/04/2014 12:20 / atualizado em 28/04/2014 12:22

Rodrigo Clemente
Belo Horizonte—Quando Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, o período militar acabava no Brasil após 25 anos da ditadura instaurada com o golpe em 1964. Uma parte dos pesquisadores que hoje escrevem sobre a história do período ainda nem havia nascido quando o país respirava os ares da redemocratização. São estudantes de graduação,mestrado e doutorado do curso de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que subsidiam com pesquisas e relatórios a Comissão Nacional da Verdade (CNV). O trabalho dessa turma, formada por 18 pesquisadores, já conseguiu algo inédito: levou as Forças Armadas a investigar os crimes cometidos dentro dos quartéis, principalmente, as mortes e torturas.

“É o sonho de todo pesquisador. Conjugar a pesquisa com uma intervenção prática”, afirma a historiadora JulianaVentura, 32 anos, uma das mais experientes do grupo. Juliana participou dos estudos para os dois relatórios produzidos pelo Projeto República— criado em 2003— e publicados pela CNV. O primeiro detalha como os quartéis das Forças Armadas foram palco de violações graves de direitos humanos. O segundo, publicado ainda parcialmente, lista os centros clandestinos de tortura e execução, entre eles a Casa da Morte, em Petrópolis, e uma casa no bairro Renascença, na região Nordeste de Belo Horizonte.

O trabalho é coordenado pela historiadora e professora Heloísa Starling, que, além de ser doutora em Ciências Políticas, é uma das assessoras da CNV. “Pela responsabilidade da pesquisa, a exigência é muito alta, mas aqui é um aprendizado de mão dupla. Várias soluções são pensadas pelos alunos”, garante Heloísa, que foi vice-reitora da UFMG entre 2006 e 2010.

No Projeto República, Pauliane Braga, 26 anos, coordena as pesquisas sobre a questão agrária e desenvolve estudos sobre os camponeses que foram vítimas da ditadura. “É um assunto que desperta pouco interesse e, por isso, entendo que a responsabilidade é grande”, afirmaPauliane. O estudo sobre os camponeses ainda não foi publicado e fará parte do relatório final da CNV. A comissão foi instituída em 16 de maio de 2012 e no fim do ano passado foi prorrogada até dezembro deste ano.

Além de pesquisarem documentos e cruzarem informações com outras fontes, como livros e reportagens, os historiadores também vão a campo em busca das fontes.Maria Cecília Vieira, 23 anos, foi até a região da Guerrilha do Araguaia, no Norte do Brasil, entrevistar os camponeses. Outro grupo viajou para Paraguai e Argentina. Foram a Assunção pesquisar os chamados “documentos do terror”, que trazem informações sobre a Operação Condor, a aliança política e militar entre os regimes militares da América do Sul.

Descontração
Quem visita a sala do Projeto República, no anexo recém construído do prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, surpreendese com a idade dos garotos, mas não deixa de observar a decoração descolada do espaço. As parede são repletas de pôsteres de filmes clássicos, como o russo Encouraçado Potemkin (1925) e o suspense de Alfred Hitchcock Psicose (1960). Na porta, uma mensagem convoca os estudantes: “Às artes, cidadãos”.
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