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Correio Braziliense

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Obituário

Aryon Rodrigues, professor

O corpo do primeiro brasileiro doutor em linguística, doutor honoris causa da Universidade de Brasília e fundador do Laboratório de Línguas Indígenas do Instituto de Letras da UnB será cremado hoje em Valparaíso

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postado em 28/04/2014 18:02 / atualizado em 28/04/2014 18:28

Roberta Pinheiro , Luiz Calcagno

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Brasília se despede, hoje, do professor e doutor em Línguas da Universidade de Brasília (UnB) Aryon Dall'Igna Rodrigues, 88 anos. O corpo dele foi velado ontem, na Capela 1 do Campo da Esperança, e será cremado no Cemitério Jardim Metropolitano, em Valparaíso (GO). A cerimônia ocorrerá entre as 11h e as 11h30. Aryon é o primeiro brasileiro doutor em linguística. Ele era especialista em línguas indígenas e fundador do Laboratório de Línguas Indígenas do Instituto de Letras (Lali) da UnB. O professor chegou ao Distrito Federal, em 1962, com o um grupo de estudiosos, a convite de Darcy Ribeiro, para dar início à universidade e ser o consultor do Instituto de Letras da UnB, cuja criação estava em estudo sob a coordenação do escritor Ciro dos Anjos. Divorciado e pai de três filhos, Aryon parou de trabalhar há um ano e estava sob os cuidados da família.

O doutor das línguas morreu na última quinta-feira. Ele foi internado, na véspera, para uma cirurgia de desobstrução intestinal mas, antes do procedimento, sofreu uma parada cardíaca. Na Unidade de Terapia Intensiva, os médicos diagnosticaram falência múltipla dos órgãos. O filho mais velho do professor, Marcelo Bruno Rodrigues, 47 anos, atribuiu ao pai a influência cultural durante toda a vida. “O meu pai sempre proporcionou apreciação de música erudita, amor à leitura e às diversas áreas do conhecimento. Foi um homem honrado, que influenciou decisivamente na constituição do meu caráter”, lamentou.

Os filhos mais novos, Berenice Helena Rodrigues, 45 anos, e Tiago Renato Rodrigues, 37, também rendem homenagem. “O maior presente do meu pai para minha vida foi o exemplo de caráter e integridade moral, o respeito e a atenção com cada pessoa que ele encontrava em seu caminho”, disse Berenice. “Ele foi um grande homem. Um excelente pai, exímio pesquisador, indigenista e professor. Seu trabalho praticamente iniciou e impulsionou a pesquisa em línguas indígenas no Brasil. Com os seus ensinamentos, muito além dos relacionados às línguas, aprenderam não apenas seus alunos, mas também os filhos, netos e demais parentes, bem como colegas, professores, muitos dos quais foram seus alunos. Agradeço a ele por tudo o que ele me proporcionou”, completou Tiago.

Acervo precioso
Aryon Rodrigues trabalhou até os 87 anos, e deixou uma importante herança, resultado de 60 anos de trabalho: compôs 17 obras, entre 1951 e 1992, e reuniu um acervo com mais de 20 mil livros e revistas sobre línguas e culturas indígenas. “Aryon era uma pessoa importante. Está nas origens da nossa universidade, é um dos fundadores da UnB, professor emérito e doutor honoris causa da instituição. A área de linguística sofre uma perda enorme com essa morte. Felizmente, ele deixou um legado, a sua biblioteca. Agora, trabalharemos para disponibilizar todos esses tratados, toda essa bibliografia para a comunidade”, afirmou o reitor da Universidade de Brasília, Ivan Camargo. O material reunido pelo professor está no Instituto Aryon Dall'Igna Rodrigues, o primeiro voltado para línguas indígenas no Brasil, fundado em 7 de março de 2013.

O ex-professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), Julio Cezar Melatti, conheceu o mestre Aryon Dall'Igna Rodrigues quando era estagiário do Museu Nacional do Rio de Janeiro (RJ), nos anos 1960. “Seu trabalho, sempre muito próximo à antropologia, contribuiu muito para mudar a imagem do índio no nosso país. Oferecendo a oportunidade dos povos indígenas estudarem a própria cultura e língua, elevou o padrão de vida das etnias. Não há dúvidas do seu legado”, destacou o antropólogo.

Além  da extensa bibliografia, o professor é lembrado por amigos pelo que transmitia oralmente. Aryon cativou alunos e professores com a dedicação ao trabalho, com conhecimento e, principalmente, com a humildade, uma das características mais marcantes do pesquisador, segundo os amigos mais próximos. “A instituição perdeu o cientista mais importante da línguas indígenas do Brasil. Uma pessoa internacionalmente conhecida pela competência, pela ética, pelo humanismo, pelo amor aos índios e o conhecimento e respeito a essas culturas. Ele é parte da história da UnB e de Brasília”, afirmou emocionada a professora de línguas Ana Suelly Cabral, que foi aluna de Aryon e, a convite dele, chegou à UnB em 2002.

Ela conta que o mestre militou para transformar a linguística em ciência no Brasil, e conseguiu abrir os primeiros mestrados na área no país. “Todo o conjunto de pessoas envolvidas com o conhecimento científico das línguas no país perde. Aryon era um homem que não discriminava, era simples, tratava todos da mesma forma. Era uma genialidade, um homem diferente dos demais, que unia muitas qualidades que dificilmente se agrupam na mente de um cientista. Era a pessoa mais humana que eu conhecida”, declarou a estudiosa.

O senhor dos idiomas
Carlos Moura/CB/D.A Press

Aryon Dall'Igna Rodrigues nasceu  em Curitiba, 4 de julho de 1925. O interesse pelo estudo de línguas indígenas do pesquisador começou cedo, ainda no ginasial, com Rosário Farani Mansur Guérios, pioneiro dos estudos da área no Brasil. Aryon era fluente em seis línguas indígenas do tronco tupi e da família tupi-guarani, e conseguia se comunicar em várias outras. Poliglota, também falava alemão, inglês, francês, italiano e espanhol, holandês e polonês e conhecia sânscrito, latim e grego. O mestre e doutor levantou a hipótese do relacionamento genético entre três dos maiores agrupamentos linguísticos do continente: a família karib e os troncos macro-jê e tupi. Um dos livros que escreveu, Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas (Edições Loyola), está lado a lado com obras clássicas brasileiras, como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Os sertões, de Euclides da Cunha.

>>A trajetória

1950

Gradua-se em letras clássicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

1959

Termina o doutorado em linguística pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha

1960

É professor de linguística e de etnografia do Brasil na UFPR

1962

É chamado por Darcy Ribeiro para ser consultor do Instituto de Letras da UnB, cuja criação estava sendo estudada sob a coordenação do escritor Ciro dos Anjos

1963

Torna-se professor efetivo da UnB, após encerrar as obrigações com a UFPR

1964

Quatorze meses após a sua chegada à UnB, ocorre o golpe militar de 1964. Iniciam-se as repressões à universidade, tida como subversiva pelo regime militar

1965

Em razão das duras ações da ditadura militar, Aryon e demais professores da instituição se reúnem e decidem deixar a instituição, como tentativa de salvar a UnB. São protocolados na Reitoria 225 pedidos de demissão. Terminado o aviso prévio, Aryon Rodrigues segue para o Uruguai, onde participa de cursos no Programa Interamericano de Linguística

1967

Organiza o Programa de Pós-Graduação em Linguística do Museu Nacional do Rio de Janeiro e colabora, um ano depois, com Roberto Cardoso de Oliveira na criação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social no mesmo museu

1973

Sai do museu e vai para a Unicamp, onde reorganiza a pós-graduação em linguística e se torna coordenador de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

1977

É o primeiro coordenador do recém-criado Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

1988

Reintegra-se à UnB como professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP)

1996

Ganha o título de professor emérito pela Universidade de Brasília

1999

Cria o Laboratório de Línguas Indígenas da UnB

2012

Recebe a maior honraria acadêmica da UnB: o título de doutor honoris causa
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