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Um espetáculo de formatura

Baseada na obra de Mia Couto, Abensonhar marca o fim da graduação e o início da carreira teatral de 14 estudantes da UnB. Com entrada franca, a peça estreia na quinta-feira e foi aprovada pelo próprio escritor moçambicano

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postado em 20/05/2014 10:34 / atualizado em 21/05/2014 08:35

Ana Paula Lisboa

Os alunos de artes cênicas, com músicos convidados e a professora e orientadora Rita de Almeida Castro (à frente): três semestres de preparação  (Carlos Moura/CB/D.A Press) 
Os alunos de artes cênicas, com músicos convidados e a professora e orientadora Rita de Almeida Castro (à frente): três semestres de preparação


Uma turma de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) se aproxima da formatura. Antes de dizerem adeus ao câmpus e de começarem a vida profissional como atores, os 14 alunos apresentam ao público a peça Abensonhar, fruto de um ano e meio de pesquisa, de criação e de produção em conjunto. O trabalho é baseado nos livros de contos Estórias abensonhadas e O fio das missangas, do autor moçambicano Mia Couto, ganhador do Prêmio Camões 2013, e, mais do que um projeto de conclusão de curso, ganhou a benção do próprio escritor. Estudantes, professores e colaboradores se encontraram com Mia Couto durante a 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em abril. Além de conversar com os alunos, ele assistiu a um trecho do espetáculo e disse estar muito feliz por prestigiá-lo.

O feedback do criador das histórias adaptadas mostrou que os estudantes estão no caminho certo. “O encontro com o autor foi muito importante. O Mia Couto disse que ele não aprova todas as adaptações que já fizeram de sua obra. Ele assistiu a um fragmento do espetáculo e disse ter gostado muito da nossa”, disse a professora Rita de Almeida Castro, 49 anos, chefe do Departamento de Artes Cênicas e uma das professoras responsáveis por orientar o grupo de formandos.

Caixinha
 
O grupo se prepara para apresentar a peça entre quinta-feira e domingo, em um espaço cedido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). “Nossa expectativa de público é a maior possível. O teatro do Departamento de Artes Cênicas da UnB está interditado desde 2011, sem previsão de ser reaberto. Por isso, a parceria com o Sesc é muito importante”, conta Rita. A cada semestre, a turma tinha uma caixinha para juntar dinheiro para comprar roupas, maquiagens e outros materiais. Os estudantes não podem cobrar pela peça, já que é um projeto de conclusão de curso. Eles oferecem o trabalho à comunidade, em retribuição aos anos de estudo numa instituição de ensino pública.

A paixão dos jovens pelo teatro fica clara assim que a primeira cena começa e é traduzida num trabalho de alta qualidade na atuação, na dramaturgia, na maquiagem, no figurino, na música, na cenografia, na iluminação. Tudo está perfeitamente sincronizado para prender a atenção em cenas de drama e de comédia. “Queríamos contar histórias de gente de verdade. Os contos do Mia Couto se encaixaram nessa vontade. A linguagem do autor está muito presente no espetáculo, mas nós transformamos o material, porque há coisas da literatura que não funcionam em cena”, explica Lorena Pires, 24 anos, uma das responsáveis pela dramaturgia. Tulio Starling, 24, também foi um dos criadores do roteiro. “Fomos fiéis aos personagens, mas nos apropriamos e criamos em cima. Havia um grupo responsável pela dramaturgia, mas o processo todo foi feito com a colaboração de todos os outros alunos”, esclarece.

Conciliar as vontades e opiniões de 14 estudantes não é tarefa fácil, mas eles souberam se organizar. “Tudo foi votado. Tivemos discussões mais acaloradas, mas não brigas”, garante Tulio. O que ajudou a apaziguar o turbilhão de ideias foi a direção democrática de Rita de Almeida Castro. “Dei completa liberdade aos alunos para criar. Ao mesmo tempo, havia rigor com os prazos e com a qualidade. O papel do professor é ajudar a conduzir, é descobrir o que eles querem fazer no último trabalho da faculdade”, descreve.

 
"Quando entrei na UnB, continuei trabalhando até o 4º semestre, mas chegou a um ponto em que eu precisava escolher entre o estudo e o trabalho. Foi aí que resolvi, de vez, que iria viver de teatro" Wanderson de Sousa, 24 anos


Roteiro


A peça Abensonhar é uma livre adaptação de nove contos de Mia Couto e introduz o cego Estrelinho. Na primeira parte do espetáculo, o amigo dele, Gigito, é seu guia visual e apresenta uma visão utópica e alegre do mundo. Gigito conta para o deficiente visual diversas histórias que são também acompanhadas pelo público. A postura feliz de Estrelinho muda quando Infelizmina, irmã de Gigito, passa a lhe servir de guia. Ela não é uma pessoa má, mas, por ter uma visão realista do mundo, seu jeito de ver é compreendido como cruel. Estrelinho está sempre no palco e é o fio condutor entre as diversas histórias encenadas.

Flávio Café, 24 anos, que dá vida ao cego Estrelinho, explica que seu personagem passa por uma súbita mudança na forma de encarar a realidade. “O Estrelinho se acostumou a sentir o mundo pela visão fantasiosa do Gigito. Quando a irmã passa a guiá-lo, ele não se agrada nem um pouco disso”, descreve. “O termo ‘miraginar’, um dos neologismos do Mia Couto que é usado na peça, significa olhar com os olhos de dentro. É ver com os olhos que sonham, é enxergar o que você imagina. Cenicamente, o que é imaginado acaba se concretizando”, define Wanderson de Sousa, 24.

“Optamos por fazer o cenário todo de bambu, em parceria com o Centro de Pesquisa e Aplicação de Bambu e Fibras Naturais (CPAB) da UnB, para remeter à natureza. O local em que se passa o espetáculo não é definido: poderia ser qualquer cidade de interior de qualquer país. À medida que as histórias são contadas, o espaço se transforma”, relata Renata Rios, 34 anos. A música também tem um papel no espetáculo. “Ela entra em cena para contar a história, para criar a atmosfera das cenas. Usamos o conceito de paisagem sonora. Além de alunos do projeto, também contamos com alguns músicos colaboradores”, explica Anahi Nogueira, 27, responsável pela direção musical.


Confira

Espetáculo teatral Abensonhar
Teatro Sesc Garagem (913 Sul)
22 e 23 de maio, às 20h30
24 e 25 de maio, às 18h e às 20h30
Classificação indicativa: 12 anos
Entrada franca
Mais informações: (61) 8247-4730

Para ler
Estórias abensonhadas,
de Mia Couto
Companhia das Letras,
160 páginas, R$ 37
O fio das missangas, de Mia Couto
Companhia das Letras,
152 páginas, R$ 37
Timidez superada pelo desejo de fazer arte


Intérprete de três personagens na peça Abensonhar, Wanderson de Sousa, 24 anos, começou a caminhada pelos palcos no ensino médio. Aos 16 anos, quando estudava no Centro Educacional 1 do Cruzeiro, a escola oferecia oficinas de diversas modalidades artísticas. Apesar de muito tímido, resolveu participar de uma sobre teatro, influenciado pelos amigos. Ali, um novo destino foi traçado. “Foi a oportunidade de descobrir o que eu queria fazer no futuro. O teatro mudou muita coisa da minha vida: consegui superar a timidez e passei a me expressar melhor. Um tímido pode fazer teatro: é um desafio maior porque você tem que enfrentar um monstro todos os dias, mas vale a pena”, garante.

“O professor Getúlio Cruz, que conheci no CED 1, foi um grande incentivador. Pelo menos cinco colegas que tiveram aula com ele naquela época continuaram no teatro, na UnB ou na Faculdade Dulcina de Moraes. Até hoje, faço parte do grupo Cutucarte com ele. Não pretendo interromper a parceria com o meu primeiro professor de teatro, mesmo depois de formado”, conta. Para o professor, Wanderson foi uma surpresa. “Ele tinha ótimas notas, mas era muito tímido: nem sequer falava. Todos ficamos surpreso com a escolha dele e com o desempenho dele, que vem sendo cada vez mais aprimorado com técnicas”, conta Getúlio Cruz, 54 anos. O grupo Cutucarte conta com 10 membros e foi fundado há seis anos. “O Wanderson é a estaca deste grupo, a base. Ele nunca desiste, é muito esforçado”, completa o educador.

Se a trajetória profissional no teatro é difícil, era ainda mais incerta para Wanderson, morador da Estrutural, filho de uma dona de casa e de um eletricista. “É uma carreira difícil, ainda mais em Brasília, cujo cenário ainda engatinha, em comparação com Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo assim, minha mãe sempre me apoiou”, diz. Como tinha que trabalhar, o ingresso de Wanderson na Universidade de Brasília demorou um pouco.

“Trabalhei três anos como atendente de telemarketing, depois de terminar o ensino médio. Passar na UnB é difícil, ainda mais para quem estuda em escola pública, mas não é impossível. Eu passei no primeiro vestibular que prestei. Quando entrei na UnB, em 2011, continuei trabalhando até o 4º semestre, mas chegou a um ponto em que eu precisava escolher entre o estudo e o trabalho. Foi aí que resolvi, de vez, que iria viver de teatro”, lembra. Wanderson apostou na graduação e passou a receber um auxílio para estudantes de baixa renda da UnB, de R$ 465 por mês. “Na UnB, há alunos de todas as classes sociais. Há os que precisam trabalhar e os que não. Por isso, nunca me senti diferente aqui. Estou muito contente com a formatura e ansioso pelo que está por vir”, comemora.
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