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Câmeras encobertas e mascarados na UnB

Estudantes com os rostos escondidos ocupam a reitoria há quatro dias para protestar contra a abertura de processos administrativos que apuram responsabilidade em vandalismo no câmpus da Asa Norte. Professores e servidores realizam hoje ato pela paz na instituição

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postado em 09/06/2014 10:17

Mariana Laboissière

Publicação: 09/06/2014 04:00

Para integrantes do movimento, protesto com caráter político tem como objetivo impedir a criminalização e o jubilamento de oito alunos (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 
Para integrantes do movimento, protesto com caráter político tem como objetivo impedir a criminalização e o jubilamento de oito alunos


A Universidade de Brasília (UnB) vive um clima de guerra civil, nas palavras do reitor da instituição, Ivan Camargo. Diante da ocupação do prédio da reitoria por estudantes, desde quinta-feira passada, e de episódios recentes de festas que terminaram em quebra-quebra e pessoas feridas, a coordenação promete manter a medida administrativa de responsabilização de oito estudantes por um “catracaço” no ano passado, além de medida judicial de reintegração de posse do edifício. O prazo para a desocupação dos estudantes terminou ontem, às 20h30, mas até esse horário cerca de 50 pessoas permaneciam no local.

Por conta dos últimos incidentes, Camargo decidiu antecipar a restrição de entrada de pessoas a partir das 22h no Instituto Central de Ciências (ICC), o Minhocão. Desde o início da gestão dele, há um ano e meio, esse sistema funcionava a partir das 22h30 — quando termina o período noturno na instituição. A antecipação do horário ocorre junto ao incremento no número de funcionários da segurança, cujo objetivo é coibir as ações de vandalismo e violência no espaço.

Uma vertente de estudantes, servidores e professores, descontentes com os últimos episódios, realizam um ato, hoje, às 10h, na reitoria da UnB. Nomeada “Democracia contra a Violência”, a ação visa repudiar a invasão e a transgressão às regras de convivência na universidade. Em entrevista exclusiva concedida ontem ao Correio, o reitor Ivan Camargo confirmou presença na manifestação. Um texto escrito pelo docente da universidade Roberto Ellery foi publicado em uma rede social numa página que convoca pessoas para a mobilização.

Num dos trechos, o professor reforça: “Não é aceitável que grupos insatisfeitos com decisões tomadas dentro dos trâmites legais, portanto democráticos, se sintam no direito de impor suas demandas, mesmo que legítimas, por meio da força e da intimidação”. Ellery citou ainda os tiros disparados durante uma das festas realizadas na última sexta-feira, quando um jovem de 22 anos foi agredido com socos e pontapés, além de ter escapado de ser atingido por três tiros.

Punições

Os estudantes acampados na reitoria pedem a extinção dos processos contra os estudantes e os centros acadêmicos, descritos por eles como “atos de criminalização do Movimento Estudantil”. Ontem, três integrantes do movimento falaram com a reportagem do Correio. Eles estavam mascarados e preferiram não se identificar. “Esse processo identifica oito pessoas que, supostamente, estariam participando, sendo que, na verdade, havia outras pessoas envolvidas nesse processo. E ele (reitor) tenta colocar a penalidade civil do pagamento de R$ 29 mil de multa para esses estudantes ou, criminalmente, tenta enquadrá-los no artigo 157 do Código Penal (roubo), com possibilidade de reclusão de três a cinco anos. E há a possibilidade de jubilamento”, explicou um dos encapuzados.

Segundo eles, as medidas têm caráter de coibir um “protesto político”. “Os estudantes da assistência, querendo direitos para continuar estudando, foram criminalizados na sua luta. Tem um processo contra vários Centros Acadêmicos que realizaram festas no ano passado e estas são proibidas em nível institucional. Existe, sim, um procedimento para realizar festa, mas se proíbe qualquer tipo de festa, pois a burocracia é tamanha que não se pode realizá-las. Não se podem realizar, inclusive, eventos acadêmicos de acordo com as regras de convivência da instituição”, completou o mesmo representante do movimento. A entrada da reportagem na reitoria não foi permitida. Câmeras de segurança do prédio estavam encobertas com fitas adesivas.

Estudantes, envolvidos no protesto, organizam uma assembleia amanhã, ao meio-dia, para reavaliar as propostas da reitoria e os rumos do movimento.

Abstenção de 11,48% no vestibular

O segundo dia de vestibular da Universidade de Brasília, ontem, foi tranquilo no Bloco de Salas de Aula Sul, do câmpus Darcy Ribeiro, onde os estudantes realizaram as provas de biologia, física, química e matemática. Os candidatos chegaram mais cedo, em comparação à correria do primeiro dia. O índice de abstenção do segundo dia do vestibular 2014 foi 11,48% (o que representa algo em torno de 2,6 mil estudantes faltosos). O índice é menor do que do segundo dia do vestibular passado, igual a 12,43%.

>> entrevista Ivan camargo

 (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 

Agressão à universidade

Como está o clima na Universidade de Brasília hoje?
É assustador ver que existe um movimento mascarado na universidade. Estamos vivendo um momento de muita violência, contrário a tudo o que nós pregamos: democracia, decisões colegiadas e respeito à diversidade. Estamos vendo essa violência cotidianamente em festas. A administração faz tudo para não permitir que se transforme o ambiente acadêmico numa bagunça, e a gente não consegue. Temos cercas, entradas subterrâneas, caminhos que as pessoas fazem para ocupar o ICC. A descrição que se tem no ICC e as visitas que faço são de guerra civil. Laboratórios são quebrados, todos os banheiros depredados. A gente encontra bebida e todo o tipo de lixo espalhado, além de pessoas no início da manhã alcoolizadas, completamente inúteis, completamente passadas.

O que se pode fazer?
A administração não pode permitir uma situação dessas. E há uma postura institucional não só do reitor. Tivemos uma reunião do nosso Conselho de Administração para responsabilizar as pessoas que organizam essas festas. Ninguém pode imaginar que a ação de estudantes dentro da universidade, que são donos da universidade, pode ser uma ação criminal. Então, o primeiro ponto é a não criminalização da ação. O ponto muito importante é a responsabilização. Se você faz um dano ao patrimônio público, deve ser responsabilizado por ele. Então, estamos passando a conta da quebradeira, da limpeza, as várias contas do dano ao patrimônio público, aos CAs (Centros Acadêmicos) que divulgaram as festas.

Mas isso vem da última festa e do último episódio?
Não, de vários outros episódios. Inclusive, as questões ligadas ao Restaurante Universitário. Fizemos uma mudança significativa na forma de contrato. Nós contratamos uma empresa para fazer todo o processo. Quanto aos estudantes gostarem ou não, aí é um direito deles. Eles não gostaram, então, foram fazer um “catracaço”. Quebraram as coisas, pularam as catracas. Causaram prejuízos.

A reitoria tem informações de quanto foi isso?
R$ 27 mil. Foram oito estudantes identificados. E esse como todos os outros na universidade é um processo administrativo. Os estudantes têm amplo direito à defesa. Estávamos começando esse processo de responsabilização, que acho indispensável. E aí houve essa revolta. Uns 80 estudantes invadiram o prédio da reitoria. Exigiram que o reitor extinguisse esse processo. Fui lá. Sempre estou presente, apto e pronto para qualquer tipo de conversa, diálogo. Os filmes que mostram essa reunião são de uma violência, uma agressividade inacreditável para um ambiente universitário. Alguns seguiram para minha sala e quebraram todas as portas. É o mesmo grupo, como tinham feito em setembro do ano passado. É uma agressividade de cunho fascista mesmo.

O senhor acredita que tenha movimento político por trás disso?
Não tenho dúvida, mas não consigo identificar. O que é assustador é que nossos colegas voltaram à reitoria hoje (ontem) para conversar e encontraram um outro grupo que eles não conseguem identificar: todos encapuzados. São pessoas que não se identificam. Então, hoje há uma ocupação da reitoria da universidade que a gente não pode nem dizer que é de estudantes. E, assim, queria enfatizar que acho gravíssimo.Considero uma agressão à Universidade de Brasília, na figura do reitor.

Em toda a história da UnB você diria que é um dos episódios mais graves?
Parece-me um dos mais graves, um caminho nunca antes percorrido. A história da UnB é de respeito às pessoas que pensam diferente, de respeito sempre, contra a violência e esse movimento, essa vanguarda do atraso que está dentro da nossa universidade e que está atuando, diga-se de passagem, no Brasil inteiro. Não podemos admitir que um patrimônio como o da Universidade de Brasília, em que a sociedade coloca R$ 1,5 bilhão todo ano para custear aquilo ali, seja depredado. Que meia dúzia de black blocs, ou que nome podemos dar a essas pessoas, impeça o seu funcionamento. O funcionamento está completamente impedido.
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