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Correio Braziliense

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A vitória do esforço

A dedicação de Mateus Xavier Guimarães aos estudos foi recompensada com uma vaga no disputado curso de medicina da UnB. Filho de uma diarista e um caminhoneiro, o jovem sempre frequentou escolas públicas

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postado em 26/02/2015 12:08 / atualizado em 26/02/2015 12:13

A partir de amanhã, a rotina de Mateus Xavier Guimarães,16 anos, vai mudar. Às 6h, ele deixa a cidade de Cristalina (GO) e segue para a realização do sonho de ser médico. O menino, que sempre estudou em escolas públicas, conseguiu uma vaga para o concorrido curso na Universidade de Brasília (UnB) por meio do sistema de cotas do Programa de Avaliação Seriada (PAS). “Estou muito ansioso. O tempo mais longo que fiquei longe da minha mãe foi quando viajei para Caldas Novas (GO), foram cinco dias”, afirma Mateus. Na casa da família, a alegria toma conta de todos. Mas há uma preocupação: como pagar a estadia do menino.

Filho de uma diarista e de um caminhoneiro, Mateus e a família de mais cinco pessoas tentam organizar as contas para o egresso da UnB conseguir estudar na capital federal. “Fácil não vai ser, mas, para a realização do sonho dele, vale qualquer esforço. Sei que o dinheiro está sendo bem aplicado”, disse José Carlos Guimarães, 46 anos, pai do jovem. A baixa renda ajudou que o menino chegasse à universidade, porém, cria empecilhos para a permanência na cidade. Para iniciar os estudos, a família, com o apoio de amigos e parentes, vai desembolsar pelo menos R$ 600 com o aluguel de um quarto numa república na 302 Norte. “Estou muito feliz pelo meu filho. Quero que ele se torne um bom médico”, estima Mércia Aparecida Xavier, 50 anos, mãe do estudante.

Uma das alternativas para afrouxar o orçamento da família é a Casa do Estudante da UnB. Apesar do esforço, o menino procura opções para diminuir os custos. “Vou buscar saídas para economizar com alimentação, por exemplo”, detalha Mateus.
Na Rua Arlindo Aguiar, a melancolia também toma conta da família Xavier. Os pais, os avós e o irmão já pensam na partida de Mateus para Brasília. A mala está quase pronta e o coração de Mércia, cada vez mais apertado. “Meu filho sempre foi um bom exemplo. Nunca tive problema com ele. Fico pensando na violência e nos riscos que ele vai correr. O meu conselho é que tenha cuidado com tudo e todos.”

Para conseguir a tão sonhada e disputada vaga, Mateus precisou de muita dedicação. Eram de cinco a seis horas por dia de estudo, além das aulas na escola. Para se ter uma ideia, a concorrência no segundo vestibular de 2014 para o curso de medicina foi de 3.620 candidatos para 36 vagas. De rotina simples e acostumado com o aconchego da cidade “pequena”, o garoto tem como uma das principais preocupações a locomoção em ônibus na capital. Habituado a fazer tudo a pé ou de bicicleta, ele pretende trazer a bike na mala. “Não tenho costume de pegar ônibus, mas vou me adaptar. Quero continuar a pedalar”, diz.

Para os avós, esse é o primeiro passo de uma longa caminhada até o menino conquistar o diploma. Mesmo assim, a iniciativa ainda não foi bem aceita pelos patriarcas da família. “Vou ficar pensando no meu neto. Sempre esteve aqui com a gente e agora vai ficar longe. A família fica pensativa, pois ele é muito novo”, justifica Benedita de Sousa Xavier, 90 anos. O avô, além de orgulhoso, pensa no futuro do rapaz. “Eu cresci e me criei aqui. Ver um filho da cidade trilhar um caminho desses é uma satisfação. Vi muitos jovens se perderem na vida por opções erradas, mas ele está procurando um futuro melhor”, pondera Germano Francisco Xavier, 94 anos.

Estímulo

O incentivo das professoras foi parte fundamental para a trajetória do estudante. Na sala de aula, as docentes já reconheciam o potencial do garoto. “Desde sempre ele foi comprometido. Em qualquer lugar que ele for vai se destacar. Ele está à frente de alunos com mais condições de acesso ao ensino superior graças à dedicação dele”, ressalta a professora de português Rose Azambuja. A colega Liamar Vignoto destaca que alunos como Mateus são exemplos para outros estudantes. “São histórias como essa que estimulam a gente a continuar nosso trabalho. Meninos assim marcam a nossa memória. Tantos têm várias oportunidades, mas as desperdiçam”, pondera a professora de história.

Para Mateus, a liberdade que os pais deram para ele estudar foi primordial para alcançar a sonhada vaga. “Mesmo com as dificuldades não tive que trabalhar. Pude estudar durante o período contrário das minhas aulas enquanto a escola não era de período integral. Isso influenciou no meu desempenho nas provas”, explica.

O secretário de educação de Cristalina, José Orlando de Paiva, acredita que Mateus é o reflexo do investimento no ensino público. “A valorização da educação traz frutos ao povo e ao município. Queremos transformar a cidade num polo estudantil”, prevê o chefe da pasta. A capacitação dos profissionais da educação e o fomento da profissionalização fizeram que outros seis estudantes do ensino público também conseguissem vagas em universidades federais este ano.

 

“Eu cresci e me criei aqui. Ver um filho da cidade trilhar um caminho desses é uma satisfação”
Germano Francisco Xavier, Avô de Mateus

 

 

“Desde sempre ele foi comprometido. Em qualquer lugar que ele for vai se destacar” Rose Azambuja, professora de português

 

 

Terra dos cristais

» Cristalina (GO) fica a 130km de Brasília. A cidade do leste goiano foi fundada em 18 de julho de 1916 e é conhecida pelo minério de cristal. As pedras, por sua qualidade, costumam ser exportadas para Europa como peças de decoração, em joias e artigos de artesanato. De acordo com o censo IBGE 2013, na região há 51mil habitantes. Atualmente, o município é destaque nacional na produção de grãos e a economia fortalecida coloca a cidade como uma das maiores geradoras de emprego de Goiás. Milho, trigo, alho, cebola, batata e café estão na lista de produção.


Mapa do ensino

» A cidade conta com 33 escolas entre instituições municipais, estaduais e particulares. A escola onde Mateus Xavier estudou, Centro de Educação Integrada Zulca Peixoto de Paiva, está entre as que mais se destacam em termos de notas e infraestrutura no município. No ensino superior, Cristalina conta com quatro faculdades.

Quantidae    Tipo    Local   
11    Escolas municipais    Cidade   
5    Escolas estaduais    Cidade   
1    Escola especial (Apae)    Cidade   
11    Escolas municipais    Zona Rural   
8    Creches até 5 anos    Cidade   
5    Escolas particulares    Cidade   
4    Faculdades    Cidade   

Fonte: Secretaria de Educação de Cristalina

 

 

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