SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

EDUCAçãO »

Portas abertas ao cidadão

Por meio da extensão, a UnB busca formas de devolver à sociedade o investimento feito nos estudantes. O custo por aluno é de R$ 15 mil ao ano e chega a R$ 47 mil na medicina. Em janeiro, foi lançada uma carta de serviços para promover a aproximação com a comunidade

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/03/2015 10:41 / atualizado em 05/03/2015 11:32

Mariana Niederauer

Antonio Cunha
Ana Rayssa
Ana Rayssa
As ações de extensão são a principal maneira de os estudantes de universidades públicas darem um retorno à sociedade do investimento feito neles. No entanto, esse tem sido o braço mais fraco do tripé da educação superior no país — composto ainda por ensino e pesquisa. Para avançar na aproximação entre a comunidade e a academia, a Universidade de Brasília (UnB) lançou, em janeiro, a Carta de serviços da UnB ao cidadão, que informa sobre as formas de acesso, os cursos oferecidos e como a população pode participar dos projetos.

Na UnB, o custo médio por aluno de graduação é de R$ 15 mil ao ano. Esse valor sobe para mais de R$ 47 mil na Faculdade de Medicina. O mais baixo é o da Faculdade de Ciência da Informação, de menos de R$ 5 mil. As ações de extensão da universidade, por sua vez, envolvem aproximadamente 158 mil pessoas das comunidades interna e externa.

Para o reitor da UnB, Ivan Camargo, a publicação da carta é apenas uma parcela do esforço para ampliar e divulgar a extensão na universidade. “Sempre precisamos tentar estar em sintonia com a sociedade, porque temos essa tendência quase natural ao corporativismo”, afirma. A transparência e a precisão dos dados divulgados são formas de melhorar até mesmo a posição da UnB em rankings de educação superior. “Esse cuidado com as informações corretas, na minha maneira de ver, é uma forma de atender a sociedade.”

Obrigação
No início do ano, o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Marco Antonio Zago, causou polêmica ao sugerir que os estudantes da instituição prestassem serviços à sociedade depois de formados, como contrapartida do investimento feito neles. A proposta foi apresentada na reunião do Conselho Universitário da USP em novembro de 2014, mas a ata só foi divulgada meses mais tarde. Contatada pelo Correio, e assessoria da USP informou que o reitor prefere não se pronunciar, por enquanto, porque ainda não há um projeto específico da instituição sobre o tema.

Segundo o professor Reginaldo Moraes, do programa de pós-graduação em ciência política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), qualquer resolução nesse sentido seria revogada pela Justiça. “A Constituição Brasileira diz que o ensino é gratuito. Não se pode cobrar em dinheiro e não se pode cobrar em serviços. Isso é tão problemático do ponto de vista legal quanto cobrar mensalidade”, afirma.

Ivan Camargo, da UnB, acredita que a normatização não seja a melhor saída. “Seria muito bom ter esse retorno, que não precisa ser à universidade, mas, sim, à sociedade. O que eu acho difícil é conseguir regulamentar isso. Se você faz uma lei, aí obriga e prende muito o aluno”, diz.

Longe de serem obrigados a prestar serviços à comunidade, muitos estudantes da UnB mostram que é possível devolver à sociedade, ainda durante a graduação, as expectativas depositadas neles. O projeto de extensão Universitários Vão à Escola (UVE) foi criado em 2005 e, hoje, tem como foco promover a autonomia de estudantes de 6 a 14 anos do Itapoã. Com jogos, teatro e filmes, eles tratam de temas como homofobia e racismo. Os resultados são a melhora no desempenho escolar e menos agressividade em casa.

A estudante do 7º semestre de direito Laís Dutra, 20 anos, participa do projeto desde 2012. “Decidi entrar porque tinha vontade de trabalhar com crianças e com adolescentes. Também gostava da proposta do UVE, de tentar despertar o conhecimento de uma forma prazerosa”, conta.

Um projeto mais recente e também criado por alunos de direito da UnB é o Veredicto, que promove simulações jurídicas com alunos do Centro de Ensino Médio 1 de Sobradinho. Durante um semestre, são apresentados aos estudantes temas relacionados ao direito e, no fim, eles participam do Tribunal Especial (TE). “Mais do que o senso crítico, queremos levar à emancipação social”, afirma Maria Paula Borges, 20 anos,  cocoordenadora da área social do projeto.

Também são feitas simulações de cortes como o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Corte Interamericana de Direitos Humanos (IDH), que contam com a participação de alunos de graduação.

Já o Vestibular Cidadão é uma iniciativa própria de um grupo de estudantes de relações internacionais, criado em 2003. Eles conseguiram expandir o número de alunos matriculados de 30 para 120 por semestre. A iniciativa funciona como curso preparatório para o vestibular da UnB e para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O pré-requisito para se candidatar a uma vaga é ser aluno de escola pública ou bolsista integral na rede privada.

“Queremos dar uma chance para alunos da rede pública de competirem em pé de igualdade com os da rede privada”, afirma Ana Luísa Cazetta, presidente do projeto.

Benefícios
A extensão costuma ser menos valorizada na universidade do que a pesquisa, por trazer menos resultados práticos para a ascensão na carreira acadêmica. No entanto, o contato com a comunidade ainda durante a graduação é uma maneira de preparar o estudante para o mercado de trabalho e também serve como apoio ao professor nas atividades de pesquisa. “Hoje, não dá para ficar apenas no mundo da pesquisa, porque tudo tem aplicação real. A extensão permite isso”, avalia o professor do câmpus do Gama Rudi van Els, diretor de Desenvolvimento e Integração Regional do Decanato de Extensão (DEX).

A decana de Extensão da UnB, Thérèse Hofmann, explica que as atividades de extensão são propostas por departamento e envolvem projetos, cursos, seminários e outros eventos. “Os alunos devem procurar os coordenadores de extensão em cada unidade acadêmica e se informarem sobre os projetos vigentes e sobre como eles podem participar. É uma complementação importante da formação profissional”, incentiva.

O que a UnB oferece
Vestibular Cidadão

A turma do primeiro semestre de 2015 já foi selecionado. A próxima edição do curso preparatório será no segundo semestre. Informações: www.vestibularcidadao.com.br.

Veredicto
As inscrições para a 2ª Simulação Jurídica vão até 13 de março, para alunos do ensino superior. Informações: www.veredictounb.com.br.

Experimentoteca
Mantém uma exposição permanente de experimentos e de fenômenos físicos para dar suporte a pesquisas escolares. Atendimento com agendamento de visita guiada, pelo telefone
3107-7749. Site: www.fis.unb.br/exper.

Núcleo de Prática Jurídica (NPJ)
Presta consultoria, assessoria e assistência jurídica a pessoas com renda mensal de até três salários mínimos. Atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Contato: 3581-1433.

Serviço de Apoio Linguístico (SAL)
Tira dúvidas de português e oferece sugestões para melhorar textos. Atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Contato: 9972-7131.

UnB-Idiomas
Oferece curso de 14 idiomas com preço mais acessível. Tem unidades em todos os câmpus. Site: www.unbidiomas.unb.br.

Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos
Oferece serviços de atendimento psicológico. Contato: asscaep@unb.br.

Hospital Veterinário (HVET)
Atende animais de pequeno (no câmpus Darcy Ribeiro) e grande porte (na Granlja do Torto). A triagem é realizada por ordem de chegada, de segunda a sexta-feira, das 8h às 13h. Contato: 3107-2801.

Outros serviços e contatos estão disponíveis na Carta de serviços da UnB ao cidadão, no link bit.ly/1wI6MOJ.

 

Desafio na Europa

Na Europa, as universidades públicas também enfrentam o desafio de aprimorar e de valorizar a extensão. “É verdade que os licenciados contribuem para o desenvolvimento econômico e cultural, mas o retorno social é ainda muito limitado”, avalia a professora Dulce Esteves, diretora do curso de licenciatura em ciência do desporto da Universidade da Beira Interior (UBI), em Portugal.

A pressão para apresentar resultados científicos — como artigos, patentes e inovações — é cada vez maior, em detrimento de programas que se relacionem com a sociedade. O continente europeu já definiu, no entanto, regras que mostram o que a comunidade espera da formação universitária. Os ministros da Educação de 29 países assinaram, em 1999, o Tratado de Bolonha, que determina a adoção de um sistema único para sintonizar e comparar o ensino superior na comunidade europeia.

Apesar disso, os estudantes têm mostrado desconhecimento e desinteresse pela adoção de uma cidadania interventiva, na visão da professora Dulce. “Deve haver a clara noção de que a sociedade investe na formação universitária: ‘investe’, não ‘doa’, pois investir pressupõe um retorno”, atesta. “Ao estudante é exigido um papel muito mais ativo, o que só é possível se houver uma consciência de que, na sociedade atual, não basta ‘saber’, é necessário ‘saber fazer’.”
 

publicidade

publicidade