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O que o Thor nos ensinou

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postado em 24/03/2015 12:05 / atualizado em 24/03/2015 12:21

Agência UnB

Tive o privilégio de ser orientadora do Heitor por duas vezes, tanto em sua graduação em Jornalismo quanto em Publicidade. O Thor, como os amigos o chamavam, é daquelas pessoas que marcam a gente de várias formas. Inicialmente pelo grande sorriso, sempre estampado no rosto. Depois, pelo seu comprometimento e responsabilidade. Ainda, e principalmente, conhecendo-o mais um pouquinho, pela doçura e por sua humanidade.

O ofício de orientar tem destas coisas boas: acompanhar o despertar dos interesses de um aluno é vê-lo descobrir um pouco mais sobre si mesmo e caminhar junto com ele nesse processo. Em sua primeira monografia, o Heitor queria investigar a narrativa transmídia. Um assunto interessante e atual, mas o que atraía o Heitor não era apenas a novidade. Ele queria entender como as narrativas geram engajamento. Este era seu real interesse: as pessoas. Como envolvê-las? Como motivá-las?

Veio a primeira formatura e, alguns anos depois, já trabalhando na área e tendo amadurecido ainda mais a compreensão acerca da origem de seus interesses, chega o momento da segunda monografia. Ele queria ir além na questão do engajamento e procurou investigar as dinâmicas de crowdsourcing, que envolvem a criação de comunidades e, principalmente, a colaboração. Heitor não só se interessava pelas pessoas como acreditava nelas. Ele queria compreender o poder transformador do engajamento participativo. Era um sonhador, mas que conseguia unir tal característica às de um pesquisador. E, assim como buscava no objeto de sua investigação exemplos de vontade que se transformavam em obras,  também ele sabia unir sonho e ação, procurando entender como os frutos de seu trabalho poderiam servir ao outro.

Sua trajetória acabaria levando o menino sonhador a encarar de frente uma forte realidade: a da leucemia. A descoberta repentina, a perda do chão e a busca da força necessária para agir e seguir adiante, tudo isso aconteceu em poucos meses. Ele precisava de um transplante de medula. A compatibilidade total entre receptor e doador acontece apenas em um caso a cada 100 mil e nem sempre se encontra um doador aparentado. A espera pode durar anos, mas, com sorte, em alguns meses haviam conseguido encontrar um doador 100% compatível, um alemão que já havia chegado ao Brasil para a realização do procedimento. Porém, infelizmente, Heitor não resistiu até o dia da cirurgia.

Ele acreditava no poder transformador da colaboração, principalmente quando nossas motivações se voltam ao outro. Essa mesma motivação provavelmente foi o que levou seu doador um dia a se cadastrar e a converter vontade em ação. No site do REDOME (Registro Nacional de Doação de Medula), do Instituto Nacional de Câncer, encontra-se a informação de que o Brasil já se tornou o terceiro país com maior número de doadores de medula cadastrados (3.5 milhões, em novembro de 2014). No entanto, vemos que ainda é preciso maior participação, pois, no caso do Heitor, por exemplo, o doador compatível só foi encontrado em outro país.

O Thor vai, sim, fazer muita falta, mas sua lembrança continuará viva em todos que o conheceram. Em minhas aulas sei que ele permanecerá, tal como aconteceu dois dias antes de sua partida, quando citei seu nome em sala. Trouxe o exemplo de sua paixão por tudo a que se dedicava, bem como de sua consciência acerca do comprometimento de um comunicador com as pessoas. Reproduzo um trecho tirado de sua última monografia: “Criar, fazer parte, se engajar e se envolver são características que podem determinar um caminho pelo qual a sociedade pode seguir em busca de um desenvolvimento sustentável, consciente e eficiente”. Isso (e muito mais) o Thor nos ensinou. Não nos esqueceremos dele.

Um sonhador e pesquisador. Talvez até mesmo numa ação dessas tenha conseguido o doador que lhe possibilitaria continuar a vida. Uma fatalidade, mas ele continua conosco, na lembrança e nos ensinamentos. No que aprendi com ele. Me disse que queria ser mais pesquisador que sonhador. Um não prescinde o outro. Precisamos ser os dois. O sonho, a esperança e a ação.

Quantos outros às vezes estão à espera de medula. O trabalho colaborativo deve extrapolar as redes e comunidades e ir pra vida real, assim como no caso do Heitor.

 

Gabriela Freitas é professora da Faculdade de Comunicação. Foi orientadora de Heitor Albernaz, ex-discente da UnB que morreu em 12 de fevereiro em decorrência de leucemia. 

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