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Correio Braziliense

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Da periferia para o mundo

Estudante da UnB é o único brasileiro selecionado por uma instituição do Reino Unido para fazer apresentações artísticas nas ruas de cidades da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda. As perfomances do morador do Gama durarão dois meses

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postado em 10/04/2015 10:50 / atualizado em 10/04/2015 10:53

Rafael Campos

 

 (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
 

Mesmo em um ambiente tão liberal quando o de uma universidade pública, Lucas Roger, 19 anos, destaca-se. Um grande turbante, casaco puído, calças com motivos tribais e um colar de flores metálicas — que só não chama mais atenção que a tatuagem: uma fina linha negra que desce do pescoço até o peito. Muito mais que o estilo, porém, o que impressiona mesmo sobre o estudante de teoria crítica e história da arte, da Universidade de Brasília (UnB), é a sua produção artística.

Desde que foi aprovado no vestibular, em 2013, foram mais de 30 projetos, envolvendo performance, fotografia e vídeo. “Sou a primeira pessoa da minha família a estudar em uma faculdade pública. Nunca tive nenhum background em relação à arte. E, até entrar na UnB, nunca tinha vivido esse lado produtivo de forma tão intensa e consciente”, diz Lucas, que nasceu e sempre morou no Gama. Essa centelha não trouxe vantagens apenas na capacidade de se expressar. Lucas foi o único brasileiro selecionado para o programa Tanteo, coordenado pelo MilesKM, instituição do Reino Unido que explora estruturas alternativas no campo das artes, com foco em colaboração, intercâmbio e aprendizagem.

A partir de junho, ele e mais nove artistas participarão de uma residência-mochilão: passeando por cidades da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda, eles apresentarão projetos artísticos que pretendem questionar as formas de ensino tradicionais da arte, discutindo novas maneiras de educação que não se limitem ao universo acadêmico. Em seu trabalho performático, Lucas tratará questões de gênero e de comunicação, criando outras maneiras de se conectar com as pessoas sem o uso da fala. Ele ficará 15 dias em silêncio, usando um vestido de noiva. “Quero explorar isso em um lugar que é estranho a mim. A ideia é experimentar novas formas de comunicação que não se limitem à linguagem falada”, justifica. A residência terá dois meses de duração e Lucas precisa bancar as passagens aéreas. Para tanto, tem promovido uma “vaquinha” on-line.

Quem ouve o jovem conversar hoje não imagina que seu contato com a produção artística teórica é algo novo. Lucas recorda-se que demorou a escolher que curso ia fazer, justamente por não conseguir se ver encaixado em nada que existia até então. “Nessa época, a UnB criou o curso de teoria crítica e história da arte. Vim com a pretensão de ser um teórico, de trabalhar como historiador da arte. Mas, aqui dentro, tive acesso a matérias práticas. Isso me fez começar a produzir e a me descobrir.” O impacto não foi apenas na forma como ele se enxerga. O jovem da periferia havia descoberto a arte e isso causou atritos entre os familiares. “No começo, havia uma resistência por parte deles. Muitos não comentavam sobre o assunto. Mas sempre tive muito apoio da minha mãe e da minha irmã.”

Lucas acredita que a seleção no MilesKm ajuda também a tornar essa relação mais amena, pela resposta positiva ao seu trabalho. “Isso me faz entender melhor as perspectivas da minha família em, de repente, não compreender o que e por que estou fazendo arte e não direito. Ou por que passo batom sendo homem.”

Outro aspecto importante foi quando percebeu que, mesmo sem a teoria, sua história de vida era um campo fértil para que ele desenvolvesse suas ideias. “Sou jovem, pobre e periférico: a arte é um espaço que encontrei para explorar todas essas questões. Ser ouvido e entendido é importante. Só que mais importante são os debates que o trabalho pode causar.” Estes, inclusive, permeiam a relação entre os artistas e o público do DF. Lucas conta que, no ano passado, uma das perfomances quase foi parar na delegacia: despidos em um “tubo de ensaio”, ele e outros membros do coletivo Algodão Choque sofreram ameaças dos estudantes e foram denunciados para a polícia. “Isso é bem louco porque, dependendo do espaço, posso ser louvado ou tratado como criminoso. E o que sinto do DF é sempre essa relação meio dúbia: há contextos que permitem a expressão e outros em que elas sofrem opressão”, acredita.

Potencial
Ainda assim, Lucas segue em sua prolífica produção. Nora Silva, codiretora e cofundadora do MilesKM, disse que, ao conhecer Lucas em uma entrevista on-line para a residência, viu sua energia e convicção de forma imediata. “Embora seja o mais jovem do grupo, acreditamos que ele poderá trazer seu dinamismo para o trabalho e que a residência será bastante interessante para canalizar sua vitalidade.”

Além disso, ela explica que ter um jovem artista brasileiro no grupo os ajuda a compreender melhor o que é produzido no país, além de garantir que o jovem possa compartilhar sua experiência aqui. “O objetivo do Tanteo é questionar os modelos atuais de arte-educação, fazendo da nossa própria experiência uma escola. Ele é nômade porque queremos redefinir o conceito de sala de aula; não tem hierarquias, porque queremos questionar os papéis de professor e aluno: todos ensinam e todos aprendem.” Ao voltar para o Brasil, Lucas pretende continuar a divulgar seu trabalho — desde 2013, ele já foi selecionado em várias premiações, inclusive no exterior.

“A desenvoltura do Lucas é impressionante e supera todas as expectativas. Desde o primeiro semestre ele vem transitando por diversas linguagens artísticas e tem uma dedicação constante em produzir e experimentar”, garante a professora Ruth Sousa, do Departamento de Artes Visuais da UnB e orientadora do projeto do estudante. Mesmo com tantas expectativas sobre si, Lucas continua vivendo como um adolescente de 19 anos. “Venho sentindo um turbilhão de emoções. São várias realidades com que terei contato durante a viagem. E isso vai me influenciar bastante.”

Escola de arte
O projeto Tanteo tem como objetivo criar um espaço de aprendizagem e de partilha de conhecimentos: um ambiente radical para estimular a criatividade e o potencial de poder político da arte. O projeto é tanto uma investigação sobre a natureza da educação em arte quanto o papel da colaboração na aprendizagem. Uma tentativa de forçar os limites do que constitui uma “escola de arte”.

Sou jovem, pobre e periférico: a arte é um espaço que encontrei para explorar todas essas questões”
Lucas Roger, Estudante de teoria crítica e história da arte, na UnB

A desenvoltura do Lucas é impressionante e supera todas as expectativas
Ruth Sousa, professora do Departamento de Artes Visuais da UnB

Serviço

Quer conhecer mais o trabalho de Lucas?

Acesse a sua página na internet: lucasroge4.wix.com/arte

31
Número de trabalhos artísticos realizados por Lucas Roger de 2013 até hoje.

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