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Sem fronteiras e sem dinheiro para universitários

Atraso na transferência de recursos para bolsistas inscritos em programa federal prejudica estudantes. Instituto responsável por repasses a alunos pede que eles contornem a crise apelando ao "jeitinho brasileiro". Capes diz que situação foi regularizada

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postado em 12/05/2015 14:27 / atualizado em 12/05/2015 14:30

 

Depois das controvérsias envolvendo o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) desde o fim do ano passado, alunos relatam problemas no Ciência sem Fronteiras (CsF). Carta de instituto norte-americano que intermedeia o repasse de verbas do CsF nos Estados Unidos — o Institute of International Education (IIE) — expôs atrasos enfrentados por diversos bolsistas ao pedir que eles lidassem com o problema usando o “jeitinho brasileiro”. Estudantes relatam demora para receber auxílio no período de estágio, nas mensalidades e na extensão do benefício.

O universitário Lucas Goldenberg Py, 20 anos, foi estudar engenharia civil no Illinois Institute of Technology, na cidade norte-americana de Chicago, em março de 2014. As mensalidades referentes a maio, junho e julho estão 30 dias atrasadas, além do pagamento da passagem de volta para o Brasil em julho. A soma dos valores equivale a US$ 3.704 (cerca de R$ 11.100). “O meu refeitório da universidade fecha em maio e eu não tenho dinheiro para comprar comida. Quando esse dinheiro vai cair na conta? É para dar um jeitinho brasileiro, como diz o IIE?”, perguntou em mensagem enviada à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

No caso dos Estados Unidos, a Capes paga mensalidades de US$ 300 (cerca de R$ 900) para quem vive em cidades de baixo custo, e de US$ 700 (R$ 2.100) para as de alto custo, como Nova York e Chicago. Os repasses são feitos diretamente para o estudante por meio de um cartão a cada três meses. Há ainda um auxílio de US$ 1.604 (R$ 4.810) para compra de passagem aérea, US$ 1.000 (R$ 3.000) para material didático e US$ 1.320 (R$ 3.960) de auxílio-instalação, pagos antes da viagem. No fim do programa, os bolsistas recebem mais US$ 1.604 (R$ 4.812) para a passagem.

Estágio

Alunos que participarão de pesquisa ou estágio recebem outro auxílio, de valor variável. Os repasses são intermediados pelo IIE após aprovação do governo brasileiro. São US$ 300 (R$ 900) por mês para alimentação, US$ 270 (R$ 810) para hospedagem e US$ 1.604 (R$ 4.812) para deslocamento, no caso de o estágio ser em outra cidade. De acordo com alunos, a equipe do instituto não é suficiente para atender a demanda. “Eles colocam um técnico pra cuidar de aproximadamente três estados dos EUA”, diz Lucas. Atualmente, esse é o país com o maior número de brasileiros graduandos. Lá, estão em vigência 9.636 bolsas.

 

O estudante de sistema de informação Luis Felipe Bueno, 23 anos, atualmente na University of Wisconsin, na cidade norte-americana de Oshkosh, recebeu o auxílio de US$ 1.900 (R$ 5.700) para o estágio ontem, com seis semanas de atraso. “Fiquei com medo de não receber e perder a oportunidade. Eu não sei o que faria porque também não recebi o dinheiro da passagem de volta para o Brasil ainda”, conta. Ana Celeste Lima, 25, reclama da demora para conseguir prorrogar o curso de arquitetura na Universidade de Bolonha, na Itália. “Só fui receber a extensão de verdade em setembro, ou seja, passei agosto sem dinheiro”, afirma, mesmo tendo feito o pedido com a antecedência necessária.

A Capes informou, em nota, que a carta divulgada pelo “Institute of International Education (IIE) é descabida. O próprio IIE já prestou esclarecimentos aos estudantes e pediu para que o texto anterior fosse desconsiderado”. O órgão também declarou que está “em dia com todas as bolsas do Ciência sem Fronteiras e liberou, na quarta-feira (dia 6), os recursos relativos ao pagamento das taxas e despesas das universidades” e que liberou cerca de US$ 50 milhões na semana passada para o programa. Desde 2011, a Capes destinou R$ 3,71 bilhões ao CsF. O IIE não retornou os contatos da reportagem.

Memória

Corte na verba de pesquisas

Recursos que deveriam ser destinados a pesquisas científicas foram deslocados para o programa Ciência sem Fronteiras (CsF). No Orçamento de 2014, cerca de R$ 1,5 bilhão de dois fundos do Ministério da Ciência e Tecnologia serviram para investir na iniciativa que prevê a concessão de 101 mil bolsas de estudos no exterior este ano. Pelo menos 75 entidades científicas brasileiras reclamam do desvio da verba. Um dos principais motivos é que o CsF atende, em sua maioria, bolsistas sem projetos de pesquisa.

Uma das fontes do programa é o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal recurso de financiamento das agências públicas de fomento à pesquisa. De acordo com levantamento da ONG Contas Abertas, dos R$ 3,6 bilhões autorizados para as despesas da fonte no ano passado, R$ 992 milhões, ou 27% do total, iriam para o CsF.

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