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Com dívidas e sem investimentos

A Universidade de Brasília (UnB) começa o segundo semestre com greve de servidores técnicos e redução no número de terceirizados. Práticas em laboratórios e o funcionamento da biblioteca estão entre os serviços prejudicados

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postado em 14/08/2015 11:54 / atualizado em 14/08/2015 12:08

Thiago Soares , Bernardo Bittar /


Greve dos servidores chega a 70 dias e não tem data para acabar: além de reivindicar reajuste salarial, eles protestam contra os cortes das verbas destinadas ao ensino superior (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
 

 

Greve dos servidores chega a 70 dias e não tem data para acabar: além de reivindicar reajuste salarial, eles protestam contra os cortes das verbas destinadas ao ensino superior



O artigo de boas-vindas do reitor Ivan Camargo já dava o tom das dificuldades enfrentadas. “A partir de 10 de agosto, os corredores da Universidade de Brasília voltam a ser transitados por gente movida por desafios. Entre eles, o de aprender, o de ensinar, o de discutir e o de pensar. Este aguardado período também é, infelizmente, marcado pelo enfrentamento de uma conjuntura difícil no país e na instituição. Passar bem por este momento é um dos nossos desafios coletivos na volta às aulas”, diz o texto. Os 40 mil estudantes que retomaram as aulas na última segunda-feira se depararam com a notícia de que a UnB precisará passar por uma reavaliação de seus gastos em virtude das dificuldades orçamentárias impostas pelos cortes do governo federal. Além do problema econômico, a greve de servidores não dá trégua — já são 70 dias — e prejudica setores administrativos e acadêmicos.

A redução de investimentos no ensino superior pelo Governo Federal congelou R$ 1,9 bilhão em todo o país no início do ano. Na UnB, o corte atinge 10% da verba necessária para manter a universidade. Isso representa R$ 1,5 milhão a menos de repasses federais todos os meses — as despesas mensais chegam a R$ 15 milhões. As dificuldades ainda se juntam a dívidas. Somente das contas de energia elétrica e água, até fim do semestre passado, eram devidos R$ 2,3 milhões. “É preciso reconhecer que é um momento díficil, mas não podemos deixar a universidade parar. Estamos fazendo esforço para conseguir funcionar, por mais que precária que esteja a situação. Preferimos prosseguir do que parar como em outras universidades pelo país”, admite o reitor Ivan Camargo ao Correio.

Segundo ele, o panorama atual indica que será necessário um corte de 10% no custeio (contratos de servidores e materiais) e 50% nos investimentos do estabelecimento de ensino. “Estamos tentando fazer o máximo de esforço para preservar a situação financeira da universidade. Isso vem com a constante readaptação de contratos. Essa medida é indispensável para garantir o funcionamento dos serviços acadêmicos”, explica Camargo.

Jornada em dobro

Hoje, dois terços da verba destinada a custeio são usados para pagamento de empresas que prestam serviços, logo o corte impacta diretamente na redução de terceirizados nos quatro campi de ensino. De 5,9 mil servidores, cerca de 2,5 mil têm contratos com prestadoras de serviços de segurança, limpeza, copa, manutenção, jardinagem e transporte. A despesa total com a folha de pagamento no ano passado foi de R$ 130 milhões. A readaptação dos contratos é para economizar com os gastos e não inviabilizar ainda mais os investimentos. “O único contrato que não foi alterado foi da área de vigilância.

Apresentamos na semana passada ao Ministério da Educação as nossas prioridades e, agora, estamos aguardando uma posição. Não sabemos se haverá outros cortes nos repasses ao ensino superior em todo o país”, explica o reitor.

O quadro de funcionários terceirizados nas áreas de portaria e limpeza foi o mais prejudicado com a redução de quase 50%.

Com menos de uma semana de retorno às aulas, os alunos já perceberam as dificuldades. A estudante de Teoria Crítica e História da Arte Clarisse Galindo, 25 anos, culpa a falta de dinheiro pela situação caótica dos serviços no campus Darci Ribeiro. “Professores responsáveis por ensinar 30 alunos estão com turmas dobradas. O pessoal dos departamentos foi cortado. Precisamos nos mudar por conta de uma reforma e nem tinha gente para levar as coisas de um lugar para o outro”, reclamou.

Os funcionários terceirizados que foram mantidos reclamam do acumulo de trabalho. Um funcionário que preferiu não se identificar disse ao Correio estar “fazendo o serviço dos outros, sem ganhar nada a mais por isso”. No desempenho das funções dele, consta atendimento ao público. Segundo ele, tornou-se a tarefa mais difícil. “Simplesmente não tem gente. Às vezes, nem material. Temos boa vontade, mas uma hora cansa.”

A aluna Isabela Medeiros e um amigo: estudo na biblioteca frustrado (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
 

 

A aluna Isabela Medeiros e um amigo: estudo na biblioteca frustrado



De acordo com o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), Mauro Mendes, a área de portaria, que contava com 458 pessoas, hoje tem 120. Segundo ele, os contratos de servidores da recepção, copa e telefonia foram encerrados e um novo está em licitação. São 180 contratados, com a intenção de redução de 50% no quadro. “Os funcionários estão cumprindo aviso. O novo contrato será feito até o fim de agosto. Isso vem sobrecarregando os que ficam e prejudicando a prestação de serviço em toda a universidade”, diz Mendes.

Desde antes das férias, a biblioteca da UnB funciona em horário reduzido. Antes, ficava aberta entre as 8h e as 23h.Hoje,
apenas das 13h às 18h. Ainda assim, foi uma surpresa para a aluna de psicologia Isabela Medeiros, 22, encontrar portas fechadas às 9h. “Não sabia que estava assim. Vim com dois amigos estudar e estava tudo parado.” Ela disse que os problemas se estendem à parte burocrática. “Fui entregar uns documentos e precisei pegar uma fila enorme”, reclama.

Praticamente todos os setores estão funcionando parcialmente. Os serviços administrativos e cursos com práticas laboratoriais estão prejudicados pela ausência de técnico. “Não sabemos ainda se vamos ter aula de laboratório. Os professores ainda não montaram a grade, estão dando as atividades que não exigem técnicos. Isso prejudica nosso ensino”, critica Beatriz Ferreira, 20 anos, aluna do 6º período de farmácia. Segundo a UnB, cada coordenador e professor estão suprindo as necessidades para prosseguir com as aulas.

O impacto dos cortes
» Redução de 50% dos investimentos previstos
» Redução de 50% dos terceirizados na área de portaria e limpeza
» 90% dos servidores técnico-administrativos estão em greve
» A Biblioteca da UnB está funcionando em horário reduzido, só à tarde.
» Praticamente todos os setores estão funcionando parcialmente.
Os cursos com práticas laboratoriais são prejudicados.
» Professores e funcionários estão com sobrecarga de trabalho
 
Sem previsão de acordo


Além dos cortes orçamentários, há paralisação de trabalhadores técnico-administrativos da UnB, que aderiram ao movimento nacional, que parou 67 instituições de ensino superior públicas no país. Os grevistas são contrários aos cortes feitos pelo governo federal no orçamento e reinvindicam 27,3% de reajuste. Eles também pedem reestruturação da carreira, melhores condições de trabalho e mais investimentos para a educação.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), a greve na capital federal é uma das maiores em termo de adesão — 90% dos servidores estão de braços cruzados. “Temos o menor salário comparado a outras categorias do serviço público. Temos também uma defasagem de 3,5 mil servidores. Esperamos que o governo se sensibilize”, detalhou o coordenador geral do Sintfub, Mauro Mendes. O Ministério da Educação (MEC) propôs reajuste de 21,3%, a ser pago em quatro anos.

Em nota enviada pela assessoria de imprensa, o Ministério da Educação informou que, está aberto ao diálogo com todas as entidades representativas dos técnicos administrativos das instituições federais. “Desde o início da greve, foram realizadas inúmeras reuniões de negociação entre a Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra) e o MEC, em parceria com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão”, informou o comunicado.
 
 

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