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POLÍTICA ESPORTIVA »

Time guerreiro (e sem dinheiro)

Estudantes que representam a Universidade de Brasília em competições não recebem os recursos do programa Bolsa Atleta da entidade há dois meses; canoísta da Seleção precisou vender rifa para viajar

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postado em 20/12/2015 15:02

Helio Montferre

Responsáveis por colocar a Universidade de Brasília (UnB) em primeiro lugar entre as instituições federais no ranking da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU), 250 atletas brasilienses — de mais de 20 modalidades competitivas — não recebem o dinheiro do programa Bolsa Atleta há aproximadamente dois meses. Sem previsão de quando o recurso será efetivamente pago, os estudantes precisam arrecadar dinheiro de outras maneiras, como as “vaquinhas” virtuais, para comprar material esportivo, pagar inscrições de campeonatos e viajar para representar justamente a própria universidade.


Atleta do time de futsal da UnB e estudante de fisioterapia, Vanessa Rodrigues, 26 anos, lamenta: “Não podemos contar com a bolsa. É um dinheiro que a gente não tem ideia de quando vai receber”. Vanessa conta que a lição foi aprendida da forma mais difícil: a universidade se comprometeu com equipes esportivas de diversas modalidades a dar um auxílio-viagem de R$ 2.400 para que representassem a instituição no Beach Games Internacional, em Aracaju (SE), mas os atletas não receberam o valor até hoje. “A gente só foi para Aracaju porque falaram que o dinheiro entraria na conta no meio da viagem. Confiamos uma vez para nunca mais”, queixa-se.


Camila Lôbo, treinadora do time de futsal, conta que muitos atletas pediram empréstimos para bancar competições nos últimos meses. “Fizemos o pedido do auxílio-viagem para o Beach Games em 28 de setembro e só agora a UnB entrou em contato para se explicar”, protesta. A técnica ressalta que, por causa do atraso dos auxílios, nem todas as jogadoras podem competir. “Vai quem consegue se bancar. As meninas já entraram em cheque especial e estão sendo gerados juros em cima da dívida delas. Elas precisam prestar contas, está virando uma bola de neve”, emenda. Além das bolsas dos atletas, os salários dos treinadores também estão atrasados. “Esta é a segunda vez que o pagamento atrasa este ano. Da última vez, foram quatro meses”, conta Camila.


Sem dinheiro, há quem apele até para a velha rifa. Integrante da Seleção Brasileira, o canoísta Gabriel Pereira, estudante de educação física, precisava do dinheiro da bolsa para competir no Rio. O recurso não veio e ele teve de se virar. “Como a bolsa está atrasada há muito tempo, precisei fazer uma rifa e sortear um tablet para poder competir”, lamenta.


Como a mensalidade do Bolsa Atleta contempla os estudantes individualmente, muitas vezes fica difícil adquirir equipamento para os esportes coletivos. Como, em muitas situações, há falta de material e a infraestrutura não é adequada, os alunos de modalidades como futsal e vôlei criaram os “clubes”, que mantêm os atletas treinando juntos e arrecada dinheiro para os gastos coletivos.


Assim, cada estudante para uma mensalidade, que normalmente não passa de R$ 10 mensais, que se reverte em redes, bola e até uniformes — dinheiro, claro, que sai do Bolsa Atleta. “Quem recebe a bolsa tem de contribuir, fazemos muitas vaquinhas”, conta Júlia de Lannoy, 20 anos, do Clube de Vôlei. “Nosso compromisso com a bolsa é apenas treinar e representar a UnB, mas acabamos fazendo muito mais”, completa.


O Clube de Futsal também havia estabelecido uma mensalidade de R$ 10, porém, com o atraso das bolsas, os integrantes não conseguem contribuir. “A condição financeira do futsal é muito baixa em relação às outras modalidades. Se a bolsa não cai, as garotas não têm R$ 10 para pagar”, explica a treinadora da equipe feminina.

 

UnB diz que não recebeu os recursos, e culpa é do MEC


Questionada pelo Correio sobre o atraso no pagamento do Bolsa Atleta, a Universidade de Brasília (UnB) alegou que as duas folhas de pagamento atrasadas estão prontas, mas dependem do dinheiro, que não teria sido enviado pelo Ministério da Educação. “Nós dependemos do financeiro do Ministério. O pagamento das bolsas já está autorizado há muito tempo, mas o ministério ainda não nos repassou o dinheiro”, argumentou Denise Bomtempo, decana de assuntos comunitários da universidade.


Como pede a própria pasta, a reportagem fez um pedido formal de informações há uma semana, mas não obteve resposta do Ministério da Educação.

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