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Nove jovens surdos do DF são aprovados no curso de Libras da UnB

Ao lado de 31 ouvintes, eles se prepararão para dar aulas ou se tornarem intérpretes

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postado em 03/03/2016 06:05 / atualizado em 03/03/2016 12:22

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Antonio Cunha/CB/D.A Press
 
Esta quinta-feira (3) será um dia especial para nove estudantes surdos do Distrito Federal. Eles foram aprovados e farão registro acadêmico na Universidade de Brasília (UnB) para o curso de licenciatura em Língua Brasileira de Sinais (Libras)/português como segunda língua. Este foi o segundo vestibular da graduação na UnB e teve também 31 candidatos ouvintes classificados. Os nove calouros foram alunos de escolas públicas. Segundo Ednaldo Antonio Eminergídio, pai de um dos aprovados, a rede particular da capital não oferece o apoio necessário a estudantes surdos.

Nesta mesma época do ano passado, Iuri Eminergídio, 21 anos, estava desapontado por não ter conseguido fazer a prova de vestibular da UnB. Ele é surdo e cego e teve o pedido de uma hora extra para fazer o exame negado. O vestibulando também não teve à disposição um intérprete de Libras e guia para fazer a prova de redação. “Ele me ligou desesperado, pedindo desculpas, mas sabíamos que não era culpa dele. Até tentei fazer com que o Iuri tentasse outro curso, mas não deu. O sonho dele é estudar na UnB e, depois, ser professor de línguas para surdos”, lembrou, emocionado, o pai, Ednaldo. O caso chegou à Procuradoria do Ministério Público da União, que notificou o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe).

Este ano, tudo foi diferente. A instituição estava preparada para receber os estudantes e disponibilizou intérpretes a mais para que a prova ocorresse sem sobressaltos. “Deram as ferramentas e eles mostraram que sabem trabalhar”, disse Ednaldo. “Estar na UnB é uma grande conquista. Não tenho palavras para descrever essa felicidade”, comemorou Iuri. O rapaz começou a cursar letras no Instituto Federal de Brasília (IFB), mas trocará de instituição. “O IFB foi muito receptivo, mas não tem o suporte que a UnB pode dar. O pai dele e eu é que estávamos servindo de intérpretes”, disse a mãe de Iuri, Elemregina Morais Eminergídio.

O melhor amigo do rapaz, Pedro Pinheiro Teles, 28 anos, também passou no vestibular de Libras. Ele já cursava na UnB licenciatura em letras — português do Brasil como segunda língua, mas mudará de graduação a partir do próximo semestre. “No curso em que está agora, ele tem muita dificuldade para interagir com os colegas, pois não há nenhum outro aluno surdo ou que fale Libras na sala. Será uma ótima troca”, explica a mãe de Pedro, Kátia Pinheiro Teles. “A sensação é de missão cumprida”, festeja Pedro.

Alegria compartilhada

Emocionada, Heloíse Magalhães, também surda, relembra que quase não conseguiu acreditar quando viu seu nome entre os aprovados. “É muita felicidade”, sintetiza ela, que também estará na UnB a partir do próximo semestre. Aos 23 anos, a jovem acabou de terminar o curso de gestão de recursos humanos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e diz estar preparada para encarar os novos desafios.

Bastante feliz pela aprovação, Mateus da Silva Lopes, 18, explica que a conquista do vestibular se tornou ainda mais importante por conta das dificuldades enfrentadas pelas pessoas surdas no dia a dia. “Foi muito difícil, mas conseguimos. E estar na UnB é o mais importante para nós.”

Ednaldo Antonio, pai de Iuri, explica que as famílias de jovens surdos acabam se conhecendo ao longo da vida, nas filas para fonoaudiólogos, na busca por escolas inclusivas ou mesmo em grupos religiosos. “Essa conquista não é só deles. Ganha a universidade, que se abre para um novo mundo; as escolas públicas, que poderão contratá-los como profissionais qualificados; nós, como família; e a comunidade surda, que tem mais um meio de acessar o mundo”, complementa Elemregina.

Cada um dos estudantes precisa de adaptações diferentes. Iuri é surdo e cego, por isso necessita de uma carteira especial e um guia-intérprete, que fale a língua de sinais, bem próximo a ele. Pedro tem dificuldades de locomoção, além da surdez. Então, além do intérprete de libras, é importante que a universidade tenha adaptações que tornem o espaço acessível para cadeira de rodas. Também é necessário que as práticas pedagógicas, como avaliação, currículo e metodologia, sejam adaptadas.
 
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