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O caminho até o ensino superior

Para muitos brasileiros, o percurso que leva à universidade é mais longo do que o normal, e repleto de obstáculos. Conheça histórias de moradores da capital federal que, apesar de todas as dificuldades, acreditaram nessa possibilidade e correram atrás do diploma

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postado em 16/05/2016 17:31 / atualizado em 16/05/2016 19:25

Mariana Niederauer - Especial para o Correio

Erguer o canudo, vestir a beca e proferir o juramento de compromisso com a profissão são experiências que poucos brasileiros conseguiram viver. Por diversos motivos, o acesso ao ensino superior deixou de ser uma realidade para eles, e muitos sequer chegaram a concluir o ciclo básico do ensino. Em alguns momentos, no entanto, um horizonte de melhores oportunidades e a autoestima que podem emergir por meio da educação despertam a vontade de voltar à escola e são o impulso para histórias de superação inspiradoras.


Estudo divulgado no ano passado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que, entre 2009 e 2013, a parcela da população com idade entre 25 e 64 anos que concluiu o ensino superior no Brasil aumentou 3 pontos percentuais, chegando a 14%. O número, no entanto, ainda está bem abaixo da média da OCDE, de 34%, atrás de países como Colômbia (22%) e Costa Rica (18%).


Antes mesmo de chegar ao nível superior, muitos ficam no caminho. Mais da metade da população com idade superior a 25 anos tem menos de 11 anos de escolaridade, ou seja, não chegaram a completar o ensino médio (veja quadro). A taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais, apesar de ter diminuído gradativamente ao longo dos anos, ainda se mantém alta. Segundo estimativa do IBGE, ficou em 8,3% em 2014, o que corresponde a 13,2 milhões de pessoas.


Há ainda um grande número de pessoas que não estão na série adequada para a idade. A taxa de distorção idade-série é de 20% no ensino fundamental e de 28%, no médio. Os ápices ocorrem no 6º ano do ensino fundamental e na 1ª série do ensino médio, quando os índices ultrapassam os 30%. No DF, as taxas são de 17,5% e 26%, de acordo com dados do Censo da Educação Básica 2015, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).


“Temos que fazer um grande esforço, principalmente para que a juventude não deixe a escola antes do tempo”, observa Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. “É muito importante que a gente consiga atrair essas pessoas que deixaram a escola. Porém é mais importante que ele (o jovem) conclua o ensino na idade correta, porque isso ajuda na sua progressão social, pessoal e profissional”, completa o especialista.


Para ele, é essencial considerar também a perspectiva de uma educação ao longo da vida, que inclua não apenas os meios formais de acesso ao ensino, mas todas as formas de alcançar o conhecimento. Essa noção é relevante sobretudo no mundo atual, em que as tecnologias mudam com velocidade extrema e o mundo do trabalho é mais dinâmico e exigente. “O mercado do trabalho está cada vez mais competitivo. No passado, você ter um curso de graduação completo já era um diferencial. Hoje, não é mais suficiente”, avalia.


Essa é a perspectiva defendida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Entre as metas globais definidas para 2030, está a educação para a cidadania global, que envolve os aspectos cognitivo, socioemocional e comportamental. “Os aspectos cognitivos são muito importantes, mas também temos outros componentes bastante relevantes, como a questão dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável”, detalha a coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, Rebeca Otero.

 
O momento delas

Entre as mulheres, as taxas costumam ser melhores. Pouco mais de 30% acumulam de 11 a 14 anos de estudo, enquanto, entre os homens, o índice é de 29%. O índice de analfabetismo é maior entre os homens, de 8,6%, contra 7,9% entre as mulheres. Elas compõem ainda mais de 55% das matrículas no ensino superior, de acordo com o Censo da Educação Superior 2014, do Inep. Dominam as matrículas nas universidades, nas faculdades e nos centros universitários. O número de homens matriculados só é superior nos cursos técnicos.


Mesmo com o maior acesso, as dificuldades que enfrentam para permanecer na escola ou na faculdade costumam ser semelhantes às de décadas atrás, arraigadas a estereótipos de gênero. Os motivos que as levam a abandonar o ensino são quase sempre ligados ao cuidado — com a casa, com os filhos, com o marido, com um familiar doente —, conforme destaca a psicóloga Martha Narvaz, professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). “Existe uma exigência de a mulher seguir ocupando esse papel, que é de cuidadora do lar. Isso ainda não conseguimos superar”, afirma.


Quando alguma dessas variáveis muda, se elas se separam, o parente de que cuidavam morre ou ficam mais velhas e não precisam dar atenção em tempo integral aos filhos, surge a oportunidade de voltar aos estudos e à universidade. Mesmo as de classes sociais mais altas, ressalta Martha, aproveitam essa oportunidade, que pode representar uma espécie de libertação.

 

Ofício e estudo


O trabalho é o fator comum entre os motivos para homens e mulheres, tanto para deixarem os estudos — por falta de tempo quanto para retomarem a trajetória escolar — na busca por mais qualificação. “Na medida em que o poder aquisitivo das famílias diminui, o jovem acaba parando de estudar para ir trabalhar. Isso ainda ocorre muito no nosso país. Precisamos agir para que isso não aconteça: criar mais empregos, dar mais oportunidades às pessoas”, pontua Rebeca Otero. “E o sistema educacional tem de estar mais próximo dessas pessoas, unindo a questão do trabalho com a educação, pois são coisas extremamente relacionadas, apesar de essa não ser a única finalidade do ensino”, completa.


Apesar do desafio que é voltar aos estudos depois de mais velho, é um esforço que traz recompensas. “O ensino superior vai te dar cada vez mais ferramentas para você pensar, ler e interpretar o mundo; sair de uma consciência ingênua, do senso comum, e entender como as coisas acontecem, entender os processos e as relações”, avalia Martha Narvaz. O Correio reuniu histórias de pessoas que enfrentaram esse desafio, terminaram o ensino médio e chegaram à faculdade, a cursos técnicos e até à pós-graduação.


A guerreira nordestina

 

Hélio Montferre


Irailde Alcantara Silva Cardoso, 29 anos, veio para Brasília aos 16 apenas com a roupa do corpo e a promessa de uma vida melhor. Era a segunda vez que ela tentava a vida na capital federal, mas o sonho de ganhar um lar na cidade grande e belos sapatos não se concretizou imediatamente. Por algum tempo, dormiu na rua e só depois conseguiu teto e o primeiro emprego, de babá. Ganhava R$ 100 por mês para cuidar de gêmeos. A rotina pesada foi seguida pelo emprego de faxineira, que desempenha até hoje.


Os obstáculos não foram poucos, mas o que a movia era o sonho de fazer a faculdade, ter um emprego melhor e ajudar a família. Ela saiu de casa, em Barra do Corda (MA), escondida, deixando só uma carta aos pais e aos cinco irmãos. O pai não entendia a filha. “Para ele, filho não tinha que estudar, era só ajudar na roça”, conta. A mãe, sempre com o coração apertado, chegou a vir a Brasília por um período ajudar após o nascimento do primeiro filho de Irailde.


Carlos Eduardo, 7 anos, veio logo quando ela decidiu voltar à escola. Foi depois de ver na tevê uma mulher mais velha contando que voltou aos estudos que ela se inspirou a fazer o mesmo. Por várias vezes, Irailde precisou levar a criança à escola e torcia para que ele não atrapalhasse a aula. Enfrentou o preconceito de alguns colegas, o cansaço e as barreiras de ser mãe solteira.


No ano passado, formou-se no ensino médio e ergueu com orgulho e lágrimas de alegria o canudo. “Para mim, terminar o ensino médio foi uma vitória tão grande… Acho que maior até do que será a faculdade. Foi tão difícil, mas tão difícil”, diz, apertando os músculos da face. “Para tudo tem a sua hora e o seu tempo. O meu era aquele. A minha hora tinha chegado.” Hoje, grávida de três meses do segundo filho, Irailde tem planos de cursar o ensino superior. O curso escolhido é o de agronomia.

"Para mim, terminar o ensino médio foi uma vitória tão grande… Acho que maior até do que será a faculdade. Foi tão difícil, mas tão difícil”
Irailde Alcantara Silva Cardoso, faxineira e futura estudante de agronomia


A incansável busca de Camila

 

Minervino Junior
 


Os estudos sempre foram o maior objetivo da vida de Camila Matias Rodrigues, 30 anos. Foi por isso que, aos 10 anos, ela deixou a cidade de Piancó (PB) e veio para Brasília com uma tia. A mãe chegou pouco depois e conseguiu emprego de faxineira numa padaria. Camila estudava pela manhã e à tarde, como não tinha com quem ficar, ia para o trabalho com a mãe. Entre a quinta e a sexta série, precisou deixar os estudos para ajudar com a renda da casa. Virou vendedora na mesma padaria, com apenas 13 anos de idade.


Entre os 15 e os 16 anos, uma promessa de estudo a levou para Campinas (SP), mas Camila frustrou-se mais uma vez. “Não foi o que eu esperava. Retornei para Brasília com o ensino fundamental incompleto e com muita tristeza. Daí, desisti dos estudos e resolvi ficar trabalhando em padaria. Era a única coisa que me restava”, recorda. Um belo dia, como ela mesma relata, uma amiga disse que ela deveria voltar a estudar, porque era inteligente e capaz. Foi o incentivo de que Camila precisava para ter de novo a vontade de estudar.


Fez a matrícula e encontrou professores que a motivaram na trajetória escolar. Aos 28 anos, concluiu o ensino fundamental e se matriculou no curso de pedagogia de uma faculdade particular. Teve que parar durante um tempo, porque não tinha mais condições de pagar a mensalidade, mas, agora, com a ajuda do pai, retomou a graduação e já está no terceiro semestre. “Às vezes, eu penso em desistir, mas olho o esforço que já fiz e penso que não vale a pena desistir agora.”


Todos os dias, acorda por volta das 6h30 e vai para o trabalho. À noite, segue para a faculdade e chega a ficar acordada até as 2h estudando. O principal objetivo é se especializar em educação especial, para ajudar crianças como a sobrinha de 10 anos, que tem microcefalia. Os olhos claros de Camila brilham ainda mais e transbordam de emoção ao falar da pequena e do esforço que faz para que, um dia, consiga proporcionar a ela e a outras crianças o mesmo sorriso que invade seu rosto quando fala do futuro como pedagoga.

"Às vezes eu penso em desistir, mas olho o esforço que já fiz e penso que não vale a pena desistir agora”
Camila Matias Rodrigues, vendedora e estudante de pedagogia


Idade de realizar sonhos

 

Jhonatan Vieira

 
O trabalho, o cuidado com a família e a vida na periferia foram alguns dos fatores que adiaram por décadas o reencontro do casal mineiro Lindaura Nogueira Linhares e Adilson Werneck Linhares com a escola. “Nós conhecíamos as letras, juntávamos, dava para ler, mas queríamos mais”, conta Dona Lindaura. Foi depois dos 60 anos que ela decidiu voltar aos estudos.

 

Quando chegou a Brasília, em 1961, ia completar 19 anos. Trabalhava como empregada doméstica e os patrões, como muitos na época, não permitiam que ela estudasse. Além disso, o trabalho era pesado e dificilmente permitia a conciliação com os estudos. Ela conta que, às vezes, ficava até as 3h da manhã passando roupa. Depois, trabalhou como diarista e como costureira, até que, aos 38 anos, passou a se dedicar exclusivamente às tarefas de casa.


De tanto levar e buscar Dona Lindaura na escola, Seu Adilson decidiu voltar a estudar também. Borracheiro, pedreiro, armador, carpinteiro e eletricista, ele conta que não foi por falta de tentativa que deixou os estudos. Em 1963, aos 23 anos, chegou a Brasília e foi morar na Vila do IAPI. De lá, se mudou para Ceilândia e procurou vaga em uma escola. Mas, segundo ele, poucos professores aceitavam ir para aquela cidade. Faltava luz, asfalto e segurança. O exemplo da mulher era o que precisava para retomar esse sonho.


Juntos, terminaram o ensino fundamental na educação de jovens e adultos (EJA), o ensino médio numa classe regular e encararam a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Seu Adilson lembra, orgulhoso, a pontuação na redação: 480. Com a nota da prova, se candidataram a uma vaga no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e foram aprovados. “Eu gostei muito de ter estudado, porque, na verdade mesmo, eu não sabia nem conversar. Hoje em dia, graças a Deus, me expresso melhor”, diz.


Hoje, aos 77 anos, ele concluiu o curso de técnico em orientação comunitária e exibe o crachá de agente comunitário voluntário do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Ela, com 74, terminou o curso de técnico em modelagem numa instituição particular e emendou no de vestuário ofertado gratuitamente pelo Instituto Federal de Brasília (IFB) e aconselha a todos a não desistirem. “Depois de 60 anos, é muito difícil entrar numa sala de aula. Muitas pessoas têm vontade, mas têm vergonha, receio. Eu diria para não ter vergonha, porque você encontra pessoas maravilhosas, gente jovem, que te ajuda”, diz Lindaura. “O conhecimento é tudo na vida de uma pessoa.”

“Eu gostei muito de ter estudado. Porque, na verdade mesmo, eu não sabia nem conversar. Hoje em dia, graças a Deus, me expresso melhor”
Adilson Werneck Linhares, técnico em orientação comunitária

 

O desafio de tantas mulheres

 

Minervino Junior
 

 
A história de Meire Cristina Cunha, 42 anos, se confunde com a de muitas mulheres do país. Faltava apenas um ano para que completasse o ensino médio quando ela se casou e abandonou os estudos. Tentou voltar quatro anos mais tarde, aos 21, quando já tinha uma filha. No entanto, não se adaptou ao modelo de supletivo. A presença de escolas particulares nas proximidades assombrava os estudantes que, além de não estarem na idade ideal para a série que cursavam, se deparavam diariamente com jovens que viviam realidade oposta e que seriam seus concorrentes no vestibular.


Em 2000, ela decidiu dar mais uma chance à escola. Matriculou-se no ensino regular noturno e conseguiu concluir o ensino médio. Na época, já tinha mais uma filha, havia se separado e precisava trabalhar para sustentar a família. Ainda assim, decidiu continuar a trajetória de ensino. Cursou três semestres de direito em uma instituição particular, mas a vontade de entrar para uma universidade pública a inquietava.


Diante da possibilidade aberta pelo Sistema de Cotas para Negros da Universidade de Brasília (UnB), viu se aproximar uma oportunidade que não imaginara. Passou para o curso de pedagogia com nota muito superior à de corte. Tanto que, alguns semestres depois, fez a transferência facultativa para o curso de administração pública. Após concluir a primeira graduação, voltou à pedagogia e formou-se também nesse curso. “Acho que a administração foi um curso que me ajudou a ser a pedagoga que eu sou hoje, mais qualificada. E a pedagogia me ajudou a ser uma administradora mais humana”, conta.


Hoje, é coordenadora adjunta do Portal dos Fóruns de EJA do Brasil, projeto do qual faz parte desde 2006, e conclui o mestrado na área de educação, tecnologias e comunicação. A história de mãe solteira sem o ensino básico completo a aproximou do universo da educação de jovens e adultos, que se tornou o foco de sua vida acadêmica. “O que eu queria era entrar na universidade. Chegar ao mestrado foi algo inesperado. Representou portas que foram se abrindo.”

"O que eu queria era entrar na universidade. Chegar ao mestrado foi algo inesperado. Representou portas que foram se abrindo”
Meire Cristina Cunha, pedagoga e pesquisadora


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